A poucos dias do segundo turno das eleições, teorias conspiratórias e notícias falsas voltam a circular nas redes sociais, com histórias que vão da suposta clonagem do presidente Lula a um pacto de Flávio Bolsonaro para vencer a disputa, passando por uma possível invasão americana ao Brasil, a privatização das praias e o retorno do chamado “kit gay” às escolas. Fantasiosas ou não, essas narrativas têm algo em comum: exploram o medo, provocam indignação e se espalham antes que alguém se dê ao trabalho de verificar se são verdadeiras.
Tem para todos os gostos. Só falta alguém avisar que a Terra vai acabar na terça-feira e que o aviso foi dado por um funcionário da NASA que trabalha com o cunhado de um coronel.
A notícia chega pelo celular. Quem manda é um amigo, que recebeu de outro, que conhece uma pessoa muito bem informada. Ninguém sabe quem começou. Também não faz diferença. O importante é que a notícia chegou e precisa ser passada adiante antes que os comunistas, os fascistas ou os lagartos tomem alguma providência.
A internet deu voz a todo mundo. O problema é que também deu microfone.
- Lula comemora progresso na eliminação da 6×1 e defende investimento público
- Flávio Bolsonaro conta com apoio de governadores eleitos e de Cury
- Douglas Ruas critica judicialização da eleição e se declara governador
- Deputada federal eleita Ana Elisa relata ameaças recebidas durante a campanha
- Agenda dos candidatos à presidência para esta quinta-feira (8)
Em 2018, pesquisadores do MIT publicaram na revista Science um estudo sobre a circulação de notícias verdadeiras e falsas no Twitter. Examinaram cerca de 126 mil histórias compartilhadas entre 2006 e 2017. As falsas se espalhavam mais longe e mais depressa. Alcançavam mais gente.
Não eram apenas robôs. Eram pessoas. Gente de carne, osso e CPF. Gente que leva o filho à escola, reclama do preço do tomate, paga prestação e, entre uma coisa e outra, ajuda a espalhar que o presidente é um clone.
O cérebro tem suas razões. Durante milhares de anos, desconfiar de um barulho no mato podia salvar a vida de alguém. Não havia tempo para consultar três especialistas e conferir a bibliografia do tigre. Era correr primeiro e pensar depois. O felino desapareceu. O susto ficou.
Agora basta uma mensagem dizendo que vão fechar as igrejas, confiscar as casas ou transformar as crianças em qualquer coisa que o autor da mensagem considere abominável. As pessoas sentem o sangue subir, encaminham para quarenta pessoas e vão tomar café. Cumpriu seu dever cívico.
A informação pode ser falsa. A indignação, não. Essa é legítima, pessoal e intransferível. É aí que mora o negócio.
Uma explicação exige paciência. Às vezes, exige que a gente reconheça que estava errado, o que é uma experiência desagradável. Já uma mentira bem contada confirma o que suspeitávamos desde o início. Não precisamos nem terminar de ler. A primeira linha já nos absolveu de todos os pecados intelectuais. Compartilhar é muito mais fácil do que pensar. E ainda dá a impressão de que estamos fazendo alguma coisa.
As plataformas descobriram que a raiva segura o freguês diante da tela. O sujeito entra para ver uma fotografia e sai três horas depois convencido de que existe uma organização internacional dedicada a destruir sua família. No caminho, viu anúncios, brigou com desconhecidos e esqueceu o que tinha ido procurar. A conta fecha para alguém.
O conhecimento não tem o mesmo desempenho. Escrevo crônicas sobre psicologia e psicanálise tentando explicar assuntos complicados sem transformar cada parágrafo numa prova de vestibular. Algumas chegam a trezentas ou quatrocentas curtidas e comentários. Não vou reclamar. Já é mais gente do que cabe em muita sala de aula.
Mas basta aparecer uma história sobre um plano secreto para dominar o país que a coisa ganha outra velocidade. O texto que levou horas para ser escrito perde a corrida para uma invenção que alguém teve no intervalo do almoço.
Talvez eu devesse trocar Freud por extraterrestres. Em vez de explicar o inconsciente, poderia anunciar que fui sequestrado por uma potência estrangeira. No fim de cada crônica, avisaria que tudo seria revelado em 72 horas, desde que o leitor compartilhasse o texto com quinze pessoas.
Também seria injusto culpar apenas quem publica as bobagens. Há quem fabrique mentiras por dinheiro, por poder ou simplesmente pelo prazer de ver o circo pegar fogo. Há quem ganhe votos com elas. Há empresas que ganham dinheiro mantendo as pessoas irritadas. E há nós, que fazemos a distribuição gratuita.
Quando a notícia confirma o que pensamos, somos generosos. Quando desmente, ficamos exigentes. Pedimos provas, fontes, documentos, testemunhas. Se as provas aparecem, desconfiamos delas. Se as testemunhas aparecem, desconfiamos também. A partir daí, qualquer tentativa de esclarecimento passa a ser parte da conspiração.
É uma crença que não pode perder. Se o fato confirma, estava certa. Se o fato desmente, estão escondendo alguma coisa. Não há debate possível com uma ideia que já decidiu que toda evidência contrária é prova a seu favor.
O curioso é que ninguém gosta de se imaginar manipulável. A gente pode cair em qualquer conversa, desde que continue convencido de que foi mais esperto do que os outros. Acreditar numa mentira é ruim. Crer e sair contando vantagem é pior.
O conhecimento tem esse defeito: não deixa ninguém confortável por muito tempo. Obriga a rever opiniões, a admitir ignorância, a desconfiar das próprias certezas. É um trabalho ingrato. A mentira, ao contrário, oferece respostas prontas, culpados conhecidos e a satisfação de pertencer ao grupo dos que descobriram tudo.
Não precisamos de mais uma palestra sobre a importância de pensar. Já temos palestras demais e leitores de menos. O difícil é desconfiar daquela notícia que parece ter sido escrita especialmente para nos deixar furiosos. Principalmente quando ela diz exatamente o que queremos ouvir. E aceitar uma possibilidade terrível: o idiota da história pode ser a gente.
Enquanto isso não acontece, a mentira segue trabalhando. Não tira férias, não pede aumento e não precisa apresentar referências. Se uma versão não funciona, inventa outra. Se é desmentida, muda de assunto. Se é pega no flagrante, acusa o sujeito que a desmentiu.
A verdade tem um expediente mais complicado. Precisa verificar, comparar, corrigir. Às vezes, precisa dizer que não sabe. Perde tempo. Perde público. Perde a discussão para alguém que escreve em letras maiúsculas e termina a mensagem com três pontos de exclamação. Não é uma disputa justa. A mentira já chegou ao destino. A verdade ainda está a caminho.
E o pior é que, quando ela finalmente chegar, talvez encontre todo mundo ocupado compartilhando a notícia de que não chegou.

