O presente já foi escolhido. Talvez semanas atrás, num vídeo em que alguém abre uma caixa, faz cara de espanto e apresenta como descoberta da humanidade um brinquedo que custa o equivalente a um mês de compras. A criança viu, gostou e pediu. O influenciador recebeu para mostrar. Os pais vão pagar. Cada um faz a sua parte.
Antigamente, a gente queria o que via na vitrine, na televisão ou na mão do vizinho. Dava para passar dias a enumerar os benefícios daquela bicicleta, imaginando a cor, o tamanho, a sensação de sair a pedalar pela rua. Os pais diziam não. A gente insistia. Às vezes ganhava. Às vezes não. Havia uma distância razoável entre desejar uma coisa e tê-la. Hoje, essa distância foi reduzida a um botão de compra. O desejo chega pronto, com link, avaliações de quem já comprou e opção de parcelamento.
O comércio sempre gostou de criança. Ela não tem salário, mas sabe muito bem onde os pais guardam o cartão. E aprendeu a pedir com uma eficiência que faria inveja a muito departamento de vendas. O Dia das Crianças é uma dessas datas em que o afeto precisa apresentar comprovante. A gente passa o ano inteiro trabalhando, mal consegue conversar com os filhos durante a semana, e em outubro sente que precisa compensar alguma coisa. Entra na loja e procura o presente que resolva o assunto. Não resolve, evidentemente. Mas vem embrulhado.
O brinquedo de antigamente tinha uma vantagem: quebrava. A gente consertava, improvisava ou passava para o irmão mais novo. Hoje há brinquedos que nem precisam existir fora da tela. Compra-se uma roupa para um personagem, moeda virtual, benefício num jogo que amanhã muda de regra porque alguém, em algum escritório, decidiu que estava na hora de faturar mais um pouco. A criança continua jogando, os pais continuam pagando e ninguém parece achar estranho que a brincadeira tenha mensalidade.
É um progresso curioso.
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O celular leva a culpa de quase tudo. A criança não conversa? Culpa do celular. Não lê? Celular. Não presta atenção? Celular. O aparelho virou uma espécie de parente inconveniente que ninguém expulsa de casa, embora todos reclamem dele durante o almoço.
Só que o aparelho não apareceu sozinho. Há empresas estudando como manter os olhos grudados na tela, notificações planejadas para interromper o silêncio e plataformas que ganham dinheiro cada vez que alguém resolve ficar mais cinco minutos. A criança é particularmente interessante para esse negócio. Ainda está aprendendo a lidar com os próprios impulsos e já encontra gente muito bem preparada para explorá-los.
Depois vem a recomendação: os pais precisam estabelecer limites.
Claro. Fiscalizar o conteúdo, acompanhar as tarefas, cuidar da alimentação, estimular a leitura, levar ao médico, organizar a rotina e garantir que o filho cresça emocionalmente saudável. Tudo isso enquanto trabalham, pagam as contas e tentam não enlouquecer. A indústria oferece distração em escala industrial. A família recebe a tarefa de controlar o consumo.
E a cidade ajuda pouco. Em muitos bairros, brincar na rua virou uma espécie de esporte radical. Carros ocupam o espaço, praças ficam abandonadas e os condomínios têm regras para quase tudo, inclusive para o barulho de uma bola. A criança fica dentro de casa, os pais entregam o celular para conseguir preparar o jantar e, mais tarde, alguém publica um artigo sobre a epidemia de crianças viciadas em telas. A culpa tem muitos endereços. O lucro, geralmente, tem um só.
Lembro de uma infância em que bastava aparecer uma bola para juntar meia dúzia de crianças. A gente jogava até alguém chamar para tomar banho ou até a bola cair num lugar de onde ninguém queria buscá-la. Havia joelhos esfolados, brigas por causa de um gol e negociações intermináveis para ficar mais cinco minutos na rua. As mães gritavam da janela. Algumas sabiam o paradeiro da gurizada melhor do que qualquer aplicativo de localização. Era bom. Mas convém não transformar a lembrança numa propaganda de margarina.
Naquela mesma época, havia crianças trabalhando, passando fome e cuidando dos irmãos menores. Aprendiam cedo que a vida não estava particularmente interessada em lhes oferecer uma infância feliz. Algumas não tinham bicicleta porque a família não podia comprar. Outras não tinham sequer tempo para brincar. A memória costuma fazer uma seleção bastante conveniente do material que recebe. Guarda a bola, a pipa e o sorvete. O resto fica para uma próxima edição. Aliás, nem toda criança tem um passado ao qual gostaria de voltar.
O Brasil continua sendo um país em que a infância depende bastante do CEP. Uma criança ganha o videogame mais recente; outra acompanha a mãe no trabalho porque não há com quem ficar. Uma tem um quarto cheio de brinquedos e passa a tarde sozinha. Outra inventa brincadeiras com o que encontra pelo caminho, mas não pode sair de casa sem que alguém tema pela sua segurança. As duas podem aparecer na mesma propaganda, sorrindo para a câmera. O mercado não precisa mostrar o que acontece depois que a câmera desliga. Para vender, basta que ambas desejem alguma coisa.
E elas desejam. É normal. Criança quer o que o colega tem, o que viu na televisão, o que apareceu no vídeo, o que todo mundo está usando. A diferença é que agora existe uma máquina trabalhando o dia inteiro para transformar essas vontades em necessidades. O tênis deixa de ser um tênis. Vira a possibilidade de não passar vergonha na escola. O brinquedo não é apenas um brinquedo. É a oportunidade de participar da conversa no recreio. O anúncio não vende só um produto. Vende o medo de ficar de fora.
A infância já tem suas inseguranças sem precisar que alguém monte uma campanha publicitária em cima delas. As meninas recebem cedo a mensagem de que precisam cuidar da aparência e parecer um pouco mais velhas. Aos meninos se oferecem competições, marcas e pequenas demonstrações de poder. Cada um ganha seu catálogo de expectativas. Depois os adultos se espantam quando uma criança de dez anos começa a se preocupar com coisas de adulto. Até a infância precisa correr para não ficar para trás.
Os pais também entram nessa história. Há quem compre para o filho o brinquedo que não teve, o videogame que nunca pôde jogar, a coleção que ficou faltando. Não vejo grande problema nisso. Às vezes, o adulto compra para si mesmo e deixa a criança brincar também. O complicado é quando o presente vira uma tentativa de corrigir a própria biografia. O filho pede uma coisa, o pai compra três. A criança queria companhia, mas recebe uma caixa enorme. Não há má intenção nisso. Há, talvez, um engano bastante humano: imaginar que podemos oferecer aos outros aquilo que nos faltou e, de quebra, resolver o que continua faltando em nós. O cartão de crédito não costuma fazer esse tipo de pergunta.
No dia 12 de outubro, pelo menos, tem uma desculpa socialmente aceita para comprar. As lojas enfeitam as vitrines, os anúncios aparecem em toda parte e os adultos saem à procura de alguma coisa que demonstre carinho. Quem não compra sente um pequeno constrangimento, como se o amor também precisasse acompanhar a inflação. Quem compra demais pode passar o resto do mês tentando descobrir onde foi parar o dinheiro.
E a criança? Gosta do presente, naturalmente. Não há nada de errado nisso. Seria ridículo exigir que os pequenos desenvolvessem uma consciência crítica do capitalismo antes de abrir uma embalagem. O problema não está em ganhar brinquedos. Está em fazer da compra a principal linguagem do afeto e, depois, reclamar que as crianças só pensam em consumir.
Também seria bom lembrar que nem toda ausência se resolve com presença, como sugerem aquelas frases bonitas compartilhadas nas redes sociais. Famílias precisam de dinheiro, moradia, segurança, escola, transporte e tempo. Tempo, aliás, é uma mercadoria cada vez mais escassa para quem precisa trabalhar muito para ganhar pouco. Recomendar que os pais desliguem os celulares e brinquem com os filhos é fácil. Difícil é explicar como se arranja essa hora quando o expediente não termina e o aluguel vence na segunda-feira. Há uma diferença entre defender a convivência e transformar a falta dela em culpa individual.
Enquanto isso, a natalidade cai, e o assunto começa a interessar a quem faz contas sobre o futuro. Menos crianças, menos consumidores, menos trabalhadores amanhã. Aparecem as preocupações econômicas, as previsões demográficas e os discursos sobre a necessidade de incentivar as famílias a ter filhos. Quase sempre se fala da criança que ainda não nasceu como uma peça que estará faltando na engrenagem.
Ter filho, porém, custa dinheiro. Exige moradia, cuidado, disponibilidade e uma disposição para o futuro que nem todo mundo consegue reunir. Há quem não queira ter filhos, há quem não possa e há quem simplesmente olhe para a própria vida e faça outra escolha. Não existe obrigação de colocar alguém no mundo para manter uma planilha demográfica em ordem. O mercado gostaria de mais consumidores. Se viessem com o cadastro preenchido, melhor ainda.
Hoje, há filas, descontos anunciados em letras enormes e pequenos consumidores tentando convencer os pais de que precisam daquele brinquedo. Alguns ganharão o que pediram. Outros ganharão alguma coisa parecida. Outros não ganharão nada. A vida seguirá sem respeitar a data comemorativa.
E haverá também crianças que abrirão o presente, brincarão durante vinte minutos e depois deixarão tudo de lado para mexer na caixa. Já vi isso acontecer. O papelão vira casa, carro, nave espacial. Com uma caneta, a criança resolve o que a fábrica não previu. Por alguns instantes, o objeto não precisa de marca, atualização ou conexão com a internet.
Os adultos acham graça. Fotografam. E publicam o momento. Enquanto a criança ainda está dentro da caixa, aparece na tela do celular uma oferta de brinquedos educativos. Desta vez, com desconto.

