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Deus não vota com procuração

Entre derrotas eleitorais, discursos religiosos e uma viagem rumo a Miami, a política brasileira insiste em convocar Deus para disputas que Ele nunca confirmou ter aceitado disputar

Deus já deu o recado duas vezes. Consecutivas. Mas há quem tenha dificuldade em interpretar a mensagem quando ela contraria os próprios interesses. Principalmente quando vem das urnas, esse instrumento democrático que tem o péssimo hábito de não consultar líder religioso antes de anunciar o resultado.

Em 2022, foi Jair Bolsonaro. Agora, Flávio. Duas derrotas presidenciais para Lula. Se isso fosse uma parábola, já haveria autoridade espiritual explicando o significado divino da repetição. Como é política, há quem prefira falar em perseguição.

A derrota tem uma curiosa capacidade de produzir perseguidos. Antes da eleição, o candidato é apresentado como instrumento de uma missão celestial. Depois, a democracia vira suspeita, o adversário passa a integrar alguma conspiração cósmica e o eleitor parece ter cometido uma heresia nas urnas. A semana ainda reservava outros capítulos.

Segundo reportagens da CNN e Metrópoles, divulgadas nesta quarta-feira, 28 de outubro, Flávio Bolsonaro e três familiares viajaram da Argentina para os Estados Unidos, com escala no Equador e destino informado a Miami. A viagem ocorreu num contexto delicado: a Polícia Federal havia apontado risco de saída do país, e o senador enfrentava determinações judiciais relacionadas a seus passaportes. Flávio negou que pretendesse deixar o Brasil. Suspeitas não são sentenças.

Ainda assim, a política oferece uma imagem de bandeja ao cronista: o Brasil apresentado como missão sagrada nos palanques, enquanto o destino de uma viagem familiar aparece no mapa do hemisfério norte. Não sabemos as motivações da viagem, mas a ironia dispensa passaporte.

O patriotismo de palanque é comovente: bandeira no ombro, Brasil no coração, Deus acima de todos. O problema começa quando a religião vira ferramenta eleitoral, o púlpito ganha ares de comitê e o candidato passa de representante político a escolhido dos céus. O adversário, naturalmente, deixa de ter ideias diferentes e vira quase uma força das trevas. É muita responsabilidade para quem só queria apertar um número na urna.

Convém não confundir os líderes com todos os fiéis. Milhões de cristãos exercem sua fé sem entregar a consciência a um partido. O problema não é a religião, mas a pretensão de transformar uma preferência política em mandamento divino.

O bolsonarismo fez algo parecido com as pautas da direita. Conservadorismo, segurança pública, liberdade econômica e valores familiares existiam muito antes de Jair Bolsonaro descobrir o caminho do palanque. São ideias de uma tradição política ampla, não patrimônio de uma família.

Mas o movimento passou a agir como proprietário delas. A direita virou, em certos ambientes, um condomínio ideológico com porteiro, lista de convidados e expulsão por infidelidade ao síndico.

Quem discorda dos Bolsonaro corre o risco de ser chamado de traidor, como se defender ideias conservadoras exigisse fidelidade a um sobrenome. A esperteza é antiga: apropriar-se de pautas coletivas, personalizá-las e depois cobrar royalties de quem ousar defendê-las sem pedir licença.

A derrota de Flávio não significa necessariamente a derrota das ideias de direita. É um revés para um projeto de poder que tentou se confundir com elas. A direita sobreviverá à família Bolsonaro, assim como a fé cristã sobreviveu a incontáveis tentativas de colocá-la a serviço de interesses terrenos. A operação é a mesma: tomar para si algo que pertence a muita gente e convencer os demais de que, sem seu representante, aquilo deixa de existir.

Eleições escolhem governantes, não santos. A política cabe aos eleitores; a fé, à consciência de cada um. Nenhuma das duas precisa de um proprietário. Porque o Todo-Poderoso pode até ser convocado para uma campanha. Só não há notícia de que tenha transferido seu título de eleitor para o comitê. E a direita, pelo visto, vai precisar recuperar o documento de propriedade.

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