ArtigosO Brasil é feito por nós. De marinheiro.

O Brasil é feito por nós. De marinheiro.

O brasileiro não discute política. Faz teste de paternidade ideológica.

O brasileiro descobriu uma maneira curiosa de participar da política sem precisar fazer absolutamente nada por ela: discutir o dia inteiro quem deveria fazer alguma coisa.

É uma atividade democrática, acessível e gratuita. Basta um celular, uma opinião definitiva e a incapacidade de admitir que talvez você não saiba tudo. O resto vem por conta própria: indignação, ofensas, teorias conspiratórias e aquele cunhado que transforma o almoço de domingo numa comissão parlamentar de inquérito. O Brasil é feito por nós. De marinheiro.

A frase poderia estar estampada na bandeira nacional, logo abaixo do lema positivista. Não por falta de patriotismo, mas por excesso de conversa. Somos uma nação de especialistas em navegação que nunca precisaram molhar os pés. Cada cidadão conhece o rumo correto, identifica o responsável pelo naufrágio e sabe exatamente quem deveria estar no comando. O único detalhe é que ninguém concorda sobre onde fica a proa.

A política brasileira deixou de ser, para muita gente, uma disputa entre projetos de sociedade. Virou uma espécie de religião sem transcendência, mas com muito fanatismo. Os candidatos são santos ou demônios. Os partidos, congregações. Os escândalos do adversário comprovam a falência moral da civilização; os do aliado exigem uma análise cuidadosa das circunstâncias.

A corrupção continua sendo um problema gravíssimo. Desde que não seja praticada por alguém em quem votamos. Nesse caso, a consciência convoca uma coletiva de imprensa. O sujeito não foi desonesto: foi perseguido. Não mentiu: tiraram a frase de contexto. Não traiu os próprios princípios: precisou fazer concessões. A política é a única atividade em que um cidadão pode passar anos denunciando a falta de caráter dos outros e terminar a carreira especializado em justificar o caráter de ninguém.

Há uma explicação para isso que não exige diploma em ciência política. Gostamos de pensar que escolhemos nossos representantes por causa das ideias que defendem. Mas, depois de escolhidos, frequentemente passamos a defender as ideias porque foram eles que as disseram. A ordem dos fatores altera o resultado eleitoral e, principalmente, a capacidade de reconhecer um erro.

É o velho mecanismo da torcida. O torcedor não abandona o time porque o centroavante perdeu um gol. Tampouco aceita que o juiz tenha razão quando marca um pênalti contra sua equipe. A diferença é que o futebol termina aos noventa minutos. A política continua depois do apito, entra na sala de jantar, ocupa o grupo da família e, quando ninguém percebe, já está discutindo com a sogra sobre o preço do feijão.

Nas redes sociais, a coisa ganhou escala industrial. A indignação virou conteúdo, o conflito virou audiência e a audiência virou dinheiro, influência ou capital político. Publicações que provocam reações intensas podem circular rapidamente, e a arquitetura das plataformas pode favorecer disputas que mantêm as pessoas engajadas. Não é necessário imaginar uma conspiração universal. Basta observar que a briga, muitas vezes, rende mais atenção do que a explicação.

O cidadão abre o celular para saber o que aconteceu no país e termina o dia sabendo tudo sobre a suposta perversidade de quem pensa diferente. Informação é aquilo que deveria ajudá-lo a compreender o mundo. Engajamento é aquilo que o mantém olhando para a tela. Nem sempre as duas coisas embarcam no mesmo navio.

E seria um erro concluir que a culpa está apenas nas redes. Antes delas, já havia propaganda, manipulação, clientelismo, discursos de medo e políticos transformando adversários em inimigos. A tecnologia não inventou o ressentimento. Apenas lhe deu conexão de banda larga.

Também seria cômodo afirmar que todos os lados são iguais. Não são necessariamente iguais as propostas, as responsabilidades, as decisões ou as consequências de cada governo. Há diferenças que precisam ser examinadas com rigor. Há políticas que ampliam direitos e outras que os restringem. Há críticas fundamentadas e acusações sem prova. Há divergências legítimas e ataques concretos às regras democráticas. Tratar tudo como equivalente não é neutralidade. É preguiça com aparência de sabedoria.

O problema começa quando a pessoa abandona os critérios que usaria para avaliar qualquer outro político assim que o suspeito passa a ser o seu. O mesmo comportamento que ontem era inadmissível hoje ganha uma nota de rodapé. A mesma declaração que ontem representava uma ameaça hoje é apenas uma metáfora mal compreendida. O princípio continua intacto, desde que não precise ser aplicado. A coerência, coitada, não tem assessoria de imprensa.

Enquanto isso, o país segue com seus problemas conhecidos. O trabalhador calcula o preço da comida. A família espera atendimento. O jovem procura emprego. A escola precisa de estrutura. O transporte consome horas que poderiam ser usadas para viver. Essas questões não desaparecem porque o debate público encontrou um novo motivo para odiar alguém.

Mas os problemas concretos exigem trabalho, orçamento, planejamento, fiscalização e decisões que nem sempre cabem numa postagem. É muito mais fácil compartilhar uma provocação contra o adversário do que acompanhar a execução de uma política pública. Uma coisa rende aplausos imediatos. A outra exige paciência, leitura e a desagradável possibilidade de descobrir que o próprio lado não entregou o prometido.

A democracia não exige que gostemos uns dos outros. Exige que possamos discordar sem transformar toda divergência numa guerra moral. Exige instituições que funcionem, representantes sujeitos à fiscalização e cidadãos capazes de distinguir uma preferência política de uma licença para acreditar em qualquer coisa. Não é preciso apertar a mão de quem pensa diferente. Às vezes, basta parar de desejar que ele seja expulso da humanidade.

E fiscalizar o próprio lado deveria ser uma obrigação elementar, não um ato de traição. Político não é parente, santo, terapeuta nem amigo de infância. É alguém que ocupa uma função pública e deve responder pelo que faz. O voto não é uma declaração de amor. É uma escolha política, sujeita a avaliação, cobrança e mudança.

E isso é o que tanta gente esqueceu: o representante trabalha para a sociedade. A sociedade não foi contratada para trabalhar gratuitamente para o representante.

O Brasil é feito por nós. De marinheiro. E o barco continua cheio de gente disposta a explicar por que a água está entrando, quem deixou a torneira aberta e qual passageiro merece ser jogado ao mar. Poucos, porém, parecem interessados em verificar o casco. Até porque, se o barco afundar, cada torcida poderá dizer que a culpa foi da outra. E haverá sempre alguém para publicar a notícia. Com a bandeira do seu lado na foto de perfil.

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