Um dia, sem aviso prévio — e a vida é craque nisso, nunca manda calendário — alguém vai lhe oferecer a pílula do bom senso. Não é tarja preta, não precisa receita. É só aquela cápsula invisível, que cabe na ponta do dedo e que quase ninguém engole. Porque o ser humano, se fosse sensato, teria extinto a própria espécie já no século XV, só de ler as primeiras bulas da Igreja, ou os primeiros contratos de banco.
O estoicismo, lá atrás, já dizia pela boca seca de Epicteto: “Não são as coisas que nos perturbam, mas a opinião que temos delas.” Freud, por sua vez, num momento de mau humor clínico, lembrava que o homem não é dono nem da própria casa — seu inconsciente alugou o porão e não devolve o depósito. E aqui estamos, dois mil anos depois de um, cem anos depois do outro, ainda preferindo a cápsula do autoengano, que desce mais doce que xarope infantil.
Bom senso, é uma sabedoria mínima, profilática, que nos impede de correr atrás de ônibus já perdido, amores já vencidos e ideologias já falidas. Marco Aurélio — o imperador filósofo que provavelmente teria surtado nas redes — anotou em seus Pensamentos: “A vida é opinião.” Já Lacan, em sua ironia de consultório, reforçava que “a verdade só se sustenta meio-dita”. Moral da história? O bom senso é essa meia-verdade indigesta que ninguém quer mastigar inteira.
Psicanaliticamente, trata-se do superego em formato de pastilha efervescente. Ele não obriga, apenas recomenda. Funciona como aquelas vozes da mãe: “Leva um casaco.” Você ignora, claro, mas mais tarde, no vento frio da madrugada, entende que o bom senso era uma manta quentinha contra o ridículo da sua teimosia.
Mas é preciso cuidado: o excesso de bom senso pode virar anestesia da vida. Séneca já avisava, lá em De Vita Beata, que viver é arriscar-se no meio do caos, não colecionar certezas. O bom senso é remédio, não dieta. Tomado em excesso, transforma o sujeito num funcionário do óbvio, incapaz de errar, e portanto incapaz de viver.
E se este conselho fosse vendido na farmácia, ao lado do sal de frutas, estaria escrito: aceite a pílula do bom senso quando ela aparecer. Não como obrigação moral, mas como aquele comprimido que, de vez em quando, salva a noite e a ressaca. Freud já avisava que viver é administrar doses: de prazer, de dor, de ilusões. E de bom senso — sempre em gotas homeopáticas.

