Roberto Farias Tomas, um rapaz de 19 anos sobe o Pico Paraná para ver o sol nascer. Gesto antigo: desde que o mundo é mundo, o homem sobe montanhas para tentar entender a vida. A vida, educadamente, costuma responder com silêncio. O sol nasce, indiferente, e pronto.
Na descida, porém, surge o conceito mais perigoso da modernidade depois do “fica tranquilo”: o estilo de vida.
— Deixei ele porque era lento.
Lento, note-se, não moralmente. Fisicamente. O que, em ambiente de alta montanha, costuma significar apenas “humano demais”. Aqui entra a psicanálise, pedindo licença à geografia. O que foi deixado para trás não foi apenas um rapaz cansado, passando mal, vomitando e tropeçando na própria fragilidade. Foi algo mais profundo e mais incômodo: o vínculo. Porque esperar o outro exige reconhecer responsabilidade. E responsabilidade atrasa o pace.
A amiga não abandona ninguém. Abandonar é uma palavra velha, pesada, com culpa embutida. Ela apenas seguiu seu estilo de vida. Que, traduzido do dialeto contemporâneo, quer dizer: “não suportei a lentidão do outro porque ela denunciava a minha própria vulnerabilidade”.
Roberto era um espelho inconveniente. Mostrava que o corpo falha, que o controle é uma ilusão e que ninguém é autossuficiente, nem quem corre bem, nem quem grava stories no topo da montanha. A pressa, nesses casos, funciona como recalque em movimento: corre-se para não escutar. Nem o outro, nem a consciência.
Enquanto ele ficava para trás, ela seguia adiante, leve, rápida, filmando. O risco virava cenário, a imprudência ganhava legenda motivacional e a ética ficava fora do enquadramento. Afinal, vômito não engaja. Espera não viraliza. Cuidado não dá like.
A montanha, que não tem Instagram nem paciência para narcisismo, observava em silêncio. O Pico Paraná já viu muita coisa: heróis apressados, trilheiros soberbos, corpos cansados. A montanha não discute estilo de vida. Ela apenas cobra.
Quando outros perguntaram pelo rapaz, a resposta foi o vazio: “não sei onde ele está”. Nesse momento, o desaparecimento deixou de ser um acaso e virou emergência. O abandono, que tentava se passar por hábito esportivo, ganhou nome antigo de novo.
Cinco dias depois, o rapaz reaparece vivo. Roxo, ferido, sem óculos, mas respirando. Um milagre laico, desses que acontecem quando a teimosia de viver é maior que a soma da irresponsabilidade alheia. A natureza, às vezes, perdoa. O bom senso, quase nunca. Ela também desceu da montanha inteira. Sem escoriações visíveis. Apenas carregando algo mais difícil de tratar: a crença ainda defensiva de que correr sozinha é força, quando muitas vezes é só incapacidade de sustentar o laço.
O sol nasceu do mesmo jeito no dia seguinte. Indiferente, como sempre. A montanha seguiu ali. Quem precisa aprender somos nós, mas estamos ocupados demais acelerando, postando e chamando de estilo de vida aquilo que, sempre foi o velho egoísmo na tentativa de parecer moderno.

