O patriarca de uma grande família, no dia em que completou 90 anos, chegou à conclusão de que sua vida fora inteira desperdiçada. Tudo o que ele fez foi se dedicar ao trabalho e à família e nunca pensou em si mesmo, nunca se deixou levar pelos impulsos mais profundos de sua alma, nunca ofereceu espaço em sua mente para locupletar-se nas infinitas possibilidades que a vida oferece.
Decidiu então que a partir daquele dia começaria a viver. Mentalmente, foi fazendo uma lista das atividades que iniciaria na primeira hora do dia seguinte. Sua nova palavra de ordem era “aventura”. Dali pra frente ele viveria perigosamente cada minuto restante de sua vida. Senão vejamos, ele pensou, pular de pára-quedas, saltar de bangue-jampe (você não esperava que um senhor de 90 anos soubesse escrever isso aqui direito, não é?), dar a volta ao mundo de bicicleta, passar a noite com duas moças que trabalham com divertimento adulto(quem sabe três), treinar jiu-jitsu para entrar para uma gangue de pitboys, comprar um carro esporte, uma Harley bem invocada, fazer a travessia do Atlântico num catamarã, escalar o Everest, aprender a surfar no Havaí, cobrir o corpo de tatuagens, experimentar todas a drogas disponíveis e comer um ovo colorido na padaria da esquina.
O velho estava excitadíssimo com as novas possibilidades de sua vida, com os novos horizontes que se abriam à sua frente.
Chegou a hora de apagar as velinhas. Todos à sua volta começaram a cantar. Ele tinha novamente aquele brilho nos olhos. Seu olhar era de uma criança. Nunca é tarde para começar a viver, pensou com júbilo no coração.
É pique, é pique, é pique, e ele cada vez com mais pique. Ele sentia que nunca teve tanto pique quanto naquele momento. É hora, é hora, é hora, e dentro dele a certeza de que a hora era agora. Ra-tim-bum, e o velho se estatelou no chão, despencando feito um saco de batatas, atacado por uma parada cardíaca fulminante.


