Freud Explica — Se Der Tempo

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Vivemos tempos extraordinários. Não extraordinários no sentido de maravilhosos, mas no sentido de bizarramente irreais. Se, antes, a internet era um lugar onde as pessoas iam buscar a verdade, hoje ela se tornou um espelho deformante onde a verdade é uma questão de conveniência.

Imagine um mundo onde ninguém mais precisa de talento, esforço ou sequer da inconveniência de existir para ser relevante. Pois bem, bem-vindo à era do Slop — ou, como poderíamos traduzir livremente, a Gororoba Digital. A internet, antes um prato diversificado, com ingredientes variados e sabores autênticos, virou um panelão de sopa rala, com caldo artificial e proteínas sintéticas.

A internet como um todo — sempre funcionaram como grandes cozinhas de informação. Só que agora, ao invés de comida de verdade, estamos sendo alimentados por uma sopa de pixels e palavras geradas automaticamente, temperadas com clickbait e servidas em porções duplas para garantir que ninguém levante da mesa. Como nos fast foods da vida real, o importante não é matar a fome, mas sim garantir que você continue comendo.

Antigamente, um charlatão precisava de lábia, presença e um diploma falso na parede para convencer alguém de que sabia do que estava falando. Hoje, basta um bot. Criaram até um nome novo para isso: Slop. O conteúdo não precisa ser verdadeiro, não precisa ser relevante, só precisa ser consumido. Como a propaganda de shampoo que diz que o produto tem “nanopartículas de revitalização profunda” — ninguém sabe o que isso significa, mas parece importante.

E não se engane: a Gororoba Digital não tem dono. Ou melhor, tem, mas eles preferem se esconder atrás de seus servidores enquanto fazem as contas de quantos cliques suas postagens falsas receberam. O Facebook já decidiu que não importa se algo é real ou não — o que importa é se as pessoas estão consumindo. É como se um restaurante servisse comida estragada e, quando questionado, respondesse: “Mas os clientes estão lambendo o prato!”.

O mundo sempre foi cheio de ilusões, mas pelo menos elas exigiam algum esforço. Agora, qualquer um pode gerar uma mentira convincente em segundos. E pior: ninguém parece se importar. Se uma imagem for “emblemática do sofrimento” de alguém, não importa se ela foi criada por um programa de computador. Importa apenas que ela faz as pessoas sentirem algo — mesmo que esse algo seja uma farsa.

A verdade está em extinção. E nós somos os flamingos da internet, presos num zoológico virtual, olhando para espelhos estrategicamente colocados para nos fazer acreditar que ainda há uma realidade do outro lado da tela.

Spoiler: não há.

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