Houve um tempo em que as pessoas se achavam importantes por terem ideias; hoje se acham por terem bateria no celular e áudio pronto para story. O alecrim dourado do ego — aquela erva mística plantada num vaso de plástico — acha que nasceu para perfumar palácios. Na verdade nasceu num cacho de promoção: três por dois, no corredor central do supermercado da vaidade.
O sujeito moderno, leitor eventual de manuais de brilho, acorda já com a legenda pronta. Olha pro espelho e pensa: “Sou profundo.” Abre o aplicativo, grava quinze segundos e publica o seu próprio epitáfio. A vida deixou de ser uma experiência para se tornar uma vinheta com hashtag. Antes, Dom Quixote confundia moinho com dragão; agora o cidadão confunde roteador com altar, wifi com providência e segue montado num cavalo de plástico — que em tempos de economia de atenção chama-se “perfil”.
Cervantes já sabia: o herói da triste figura é eterno. Só mudou o cenário. Em vez de lanças enferrujadas, temos pau de selfie. Em vez de Sancho fiel, temos seguidores que batem palmas com o dedinho e somem na hora do café. O efeito é o mesmo: se você vive num universo onde todo mundo é protagonista, quem fica para a plateia? Ninguém. A sala está vazia e o ventilador fingindo dramaturgia.
Guy Debord, com a paciência dos que estudam o espetáculo, explicou que a sociedade virou vitrine de si mesma. Não existe nada além da imagem. Não importa se o macarrão queimou: importa a foto do macarrão queimado com legenda sobre “resiliência gastronômica”. Somos padres de uma religião cuja missal é um aplicativo que apita de cinco em cinco minutos. A novidade é que a salvação vem em forma de curtida — e o altar, claro, é a câmera frontal.
Mas a grande piada é: todo esse teatro depende de plateia. A grande revelação, que deveria ser bandeira dos que ainda conseguem rir de si, é simples e libertadora: ninguém está olhando. O público imaginário, a tal “audiência”, é um público com férias permanentes. David Elkind (para quem gosta de nomes eruditos) descreveu a “audiência imaginária” como o delírio adolescente de achar-se observado por todos. Crescemos, trocamos a adolescência pela carteirinha de assinante de algoritmos e continuamos acreditando no mesmo delírio só que com filtros melhores.
E Nietzsche, sempre metido a profeta do desconforto, chama isso de moral do rebanho: todo mundo quer parecer único, desde que calce a mesma botina. A tragédia é que a busca por autenticidade virou checklist. Para ser autêntico hoje é preciso repetir a mesma dança, a mesma frase e o mesmo rosto com microexpressão de quem descobriu o sentido da vida numa promoção de meia.
Há uma saída — aceite ser ordinário. Não confunda coragem com estrelato. A liberdade suprema é descobrir que o palco está vazio e, mesmo assim, decidir dançar. Grite. Deixe a nota desafinada. Faça um poema fraco e depois tolere a fraqueza do verso. A maior ousadia contemporânea é a modéstia: recusar o roteiro pronto e abrir mão do close.
O mundo continuará vendendo o “seja especial” em parcelas. Você pode comprá-lo — mas lembre-se: o recibo vai para o arquivo da vergonha. Melhor: plante o seu alecrim no vaso errado, regue-o com descuido e veja se não nasce uma erva comum e feliz. Se precisar de plateia, cheque a janela do vizinho; se quiser sentido, olhe para dentro. O espelho não precisa conferir se você brilhou; o espelho pode apenas refletir o ridículo e isso, convenhamos, já é motivo para rir.
A grande notícia não é que ninguém nos assistiu — é que, sem audiência, podemos finalmente ser aquilo que somos quando a câmera está desligada: alguém com defeitos, contas a pagar e um estoque limitado de humores. E se isso não for heroicidade suficiente, paciência: a verdadeira revolução hoje é rir de si mesmo sem pedir autorização.
Referências bibliográficas
Cervantes, Miguel de. El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha. 1605/1615.
Debord, Guy. La Société du Spectacle (A Sociedade do Espetáculo). 1967.
Elkind, David. “Egocentrism in Adolescence.” Child Development, 1967. (introduz o conceito de “audiência imaginária”).
Goffman, Erving. The Presentation of Self in Everyday Life. 1959.
Nietzsche, Friedrich. On the Genealogy of Morals (Zur Genealogie der Moral). 1887.
Baudrillard, Jean. Simulacra and Simulation. 1981.


