ColunaMarchar é método, não espetáculo

Marchar é método, não espetáculo

Uma leitura estratégica sobre mobilização, causa e disputa narrativa e o que campanhas sérias precisam aprender com isso

Marchar até Brasília, com bandeira, discurso e causa explícita, não é um ato ingênuo nem um gesto isolado de convicção pessoal. É método político. A marcha iniciada por um deputado federal em defesa da “liberdade” e, na prática, da manutenção de Jair Bolsonaro no centro do jogo político, precisa ser lida com frieza estratégica, especialmente por quem atua ou pretende atuar em campanhas e mandatos. Reduzir esse movimento a um delírio ideológico ou a uma provocação midiática é cometer o erro clássico de quem perde eleição antes mesmo de ela começar.

Falo a partir de mais de uma década operando campanhas em diferentes regiões do país, lidando com cenários hostis, bases fragmentadas e disputas onde voto não cai do céu. O que está em curso não é uma caminhada, é a ativação de um sistema de mobilização contínua.

O deslocamento físico é apenas a superfície visível de algo mais profundo: a transformação de uma causa jurídica e institucional em causa emocional, identitária e cotidiana. Quando alguém se dispõe a caminhar centenas de quilômetros, o argumento deixa de ser técnico e passa a ser simbólico.

A mensagem não é “concorde comigo”, é “venha comigo”. A extrema direita compreendeu, há mais tempo que seus adversários, que política hoje se sustenta menos na persuasão do centro e mais na coesão da base. Defender Bolsonaro “a qualquer custo” não é apenas uma aposta jurídica ou moral, é uma estratégia de sobrevivência política.

Enquanto ele permanece como símbolo, mesmo diante de condenações, investigações e do peso histórico do 8 de Janeiro, a base segue organizada, emocionalmente ativada e pronta para transferir esse capital político no momento certo. Não se trata de vencer o debate público, mas de manter a tropa mobilizada e em estado permanente de alerta.

O que torna esse tipo de ação eficiente não é o tamanho da multidão, mas a lógica que a sustenta. Marchas funcionam porque convertem discurso em esforço visível, opinião em sacrifício e narrativa em rotina. Cada dia gera conteúdo, cada parada vira microevento, cada apoiador que entra “por um trecho” se transforma em prova social. Não há custo elevado, não há estrutura pesada, não há dependência de calendário oficial. Há cadência. E cadência, em política, vale mais do que impacto pontual.

Esse é o ponto que muitas campanhas ainda não entenderam. Continuam tratando mobilização como evento, como pico, como ação concentrada. Fazem grandes atos que começam e terminam no mesmo dia e depois se perguntam por que o engajamento some. O que está em jogo agora é mobilização distribuída, de baixa barreira, onde participar não exige devoção integral, mas presença possível.

A pessoa não precisa ir até o fim da marcha; basta acompanhar, compartilhar, aparecer, registrar. Isso transforma simpatizantes em participantes, e participantes defendem, replicam e votam.

Há, evidentemente, limites e riscos. Uma mobilização altamente identitária tende a falar para dentro da bolha, ampliar rejeições e depender excessivamente de um único eixo narrativo. Mas, ainda assim, ela cumpre sua função principal: manter viva a chama da base. E aqui está a diferença crucial entre copiar o formato e aprender a lição. Causa sem estratégia vira ruído; estratégia sem causa não mobiliza ninguém. Muitos campos políticos têm dados, verba, marqueteiros e diagnósticos sofisticados, mas falham no essencial: não oferecem uma causa viva, algo que o eleitor defenda mesmo quando o candidato não está olhando.

Campanhas que vencem não são as que apenas comunicam bem, são as que constroem pertencimento. Mobilização real nasce quando: causa, motivação cotidiana e estratégia de longo prazo se encontram. É isso que vejo, tecnicamente, nesse movimento. Não como concordância ideológica, mas como evidência de que quem constrói base antes não depende de improviso depois.

Enquanto muitos só vão se mover quando o calendário permitir pedir voto, outros já estão testando engajamento, mapeando lideranças locais, ativando emocionalmente seus públicos e criando rotina política.

Esse é o cerne do meu trabalho e do meu ponto de vista. Mobilização voto a voto não é retórica, é método. É entender que cada eleitor precisa de um motivo pessoal para se mover e de um caminho simples para participar. A política brasileira já entrou na era da mobilização permanente. Quem insiste em tratá-la como evento vai continuar culpando o algoritmo, a polarização ou o “eleitor difícil”. O eleitor não está difícil. Ele apenas não se move sem causa, sem método e sem convite real à ação. E campanha que não move, não vence.

Rafael Medeiros é estrategista político e especialista em marketing político e mobilização digital, com atuação em campanhas eleitorais e mandatos no Brasil.

Este artigo expressa a visão do autor. A publicação não se responsabiliza pelas informações aqui apresentadas.

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