Imagine que você está dirigindo um carro em uma estrada cheia de placas, outdoors, e sinais luminosos. Agora, imagine que, em vez de manter os olhos na estrada, você está constantemente desviando o olhar para cada uma dessas distrações. O resultado? Você perde o foco, a direção fica instável, e a viagem se torna caótica. Agora, substitua o carro pela sua mente, e as distrações pelo seu celular, notificações, e a enxurrada de informações rápidas e fragmentadas que você consome diariamente.
Você já parou para pensar que o que você está experimentando pode não ser um Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), mas sim uma consequência do modo como você está interagindo com a tecnologia? Passar horas pulando de um vídeo para outro, de uma notificação para a próxima, pode criar um padrão de atenção que é superficial e disperso. Quando você tenta se concentrar em algo mais profundo, como ler um livro ou completar uma tarefa, sua mente, acostumada a estímulos rápidos e constantes, resiste.
Vamos conversar sobre isso de uma maneira simples: A ciência nos mostra que o uso excessivo de dispositivos digitais pode alterar a maneira como nosso cérebro processa informações, tornando mais difícil manter a atenção em atividades que exigem um foco prolongado. Isso não significa que você tenha TDAH, mas sim que o ambiente digital ao seu redor está moldando sua capacidade de concentração.
O QUE É
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por desatenção, impulsividade, hiperatividade e desregulação. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou o TDAH como um dos transtornos mais comuns globalmente, com prevalência de 5% em crianças e 2,5% em adultos. No Brasil, a prevalência segue padrões semelhantes, embora os dados sejam menos precisos.
O DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) lista 18 sintomas, divididos em desatenção e hiperatividade/impulsividade. O diagnóstico inclui três apresentações: combinada (a mais grave), predominantemente desatenta e predominantemente hiperativa. Para o diagnóstico, os sintomas devem estar presentes antes dos 12 anos, ocorrer em múltiplos contextos e causar prejuízos significativos na vida do indivíduo. A avaliação envolve entrevistas com pacientes e familiares, além de testes neuropsicológicos, mas não há marcadores biológicos específicos para o TDAH.
O tratamento mais eficaz combina medicamentos psicoestimulantes (como metilfenidato e lis-dexanfetamina) e terapia cognitivo-comportamental, que inclui estratégias para organização, regulação emocional e habilidades sociais. No Brasil, o TDAH é reconhecido e há iniciativas como a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) e políticas públicas que garantem suporte educacional para pessoas com o transtorno. Requer avaliação multidisciplinar e tratamento personalizado, com foco em medicamentos e terapia para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Então, antes de diagnosticar a si mesmo com TDAH, que tal refletir sobre como você está usando seu tempo e sua atenção? Será que o problema está em você, ou no modo como você está permitindo que a tecnologia influencie sua vida? Vamos explorar juntos essas questões, porque entender o que está acontecendo é o primeiro passo para recuperar o controle sobre sua atenção e sua vida.
O cérebro humano não foi feito para tanta informação rápida e fragmentada. Estudos mostram que o uso excessivo de celulares e redes sociais sobrecarrega o sistema de recompensa do cérebro. Cada like, cada vídeo novo, libera uma dose de dopamina, um neurotransmissor que dá sensação de prazer. Só que, com o tempo, o cérebro se acostuma e pede mais. E mais. E mais. Resultado? Você fica inquieto, disperso, incapaz de focar em coisas que não dão essa “recompensa rápida”. Isso não é TDAH. É vício em dopamina digital. Saiba mais sobre o impacto das redes sociais no cérebro aqui.
E tem mais: você acorda e já pega o celular. Antes mesmo de tomar café, já está checando mensagens, redes sociais, notícias. O dia mal começou, e sua mente já está em modo “hiperestimulada”. Depois, você come mal, não se exercita, dorme pouco e vai para a cama tarde. Aí, claro, a desatenção aparece. Mas adivinha? Isso não é TDAH. É sono ruim, alimentação desequilibrada e sedentarismo.
A ciência já provou que dormir mal afeta a memória, a concentração e o humor. Estudos mostram que a privação de sono reduz a capacidade de focar e tomar decisões. Comer mal também. Uma dieta pobre em nutrientes pode prejudicar a função cerebral. E o sedentarismo? Ah, esse é um grande vilão. O exercício físico libera substâncias que melhoram o foco e o bem-estar. Atividades físicas aumentam a produção de BDNF, uma proteína que ajuda na concentração e na memória. Mas você prefere ficar no sofá, rolando a tela do celular, e depois culpa o TDAH pela falta de concentração. Conveniente, não?
E mesmo que você realmente tenha TDAH (o que só um médico pode diagnosticar, e não o Dr. Google, aquela sua tia que “entende de tudo” ou o teste que você fez enquanto procrastinava no trabalho), que tal melhorar seus hábitos antes de sair tomando remédios? Reduzir o tempo de tela, por exemplo, já é um bom começo. Deixe a mente vagar, sem estímulos digitais. Caminhe, respire, olhe para o mundo real. Coloque o corpo para funcionar. Mexa-se. Durma melhor. Coma direito. Reclamar não vai resolver nada. Agir, sim. Mas, claro, se nada disso der certo, sempre resta a opção de culpar o TDAH e seguir a vida como um gênio incompreendido, distraído e cheio de potencial não realizado. Afinal, quem precisa de foco quando se pode ser uma obra de arte em constante estado de “quase lá”?

