Há gente que tem uma ideia excelente antes do café. Às dez da manhã já teve outras três. Ao meio-dia, uma delas virou livro, a outra virou empresa e a terceira provavelmente daria um excelente documentário, desde que alguém tivesse dinheiro, tempo, disposição e, principalmente, vontade de começar.
Não começa. À noite, está cansada. De quê? De pensar. É uma atividade exaustiva, pensar. Principalmente quando não produz nenhum objeto que possa ser usado como prova.
Você pode passar quatro horas imaginando uma história, por exemplo. Criar personagens, diálogos, finais alternativos, uma estrutura genial em três atos. Pode até encontrar mentalmente o título perfeito. E não escreveu uma linha. Mas está exausto.
E com a sensação legítima de quem trabalhou. A cabeça, nesses casos, funciona como uma repartição pública muito eficiente para produzir protocolo e absolutamente incompetente para entregar documento. O problema de pensar demais não é pensar demais. Pensar é bom e oferece uma vantagem que fazer não oferece: dentro da cabeça, tudo funciona. A ideia de escrever um livro é maravilhosa enquanto o ele não precisa ser escrito.
Você imagina a capa. O título. A entrevista que dará quando alguém perguntar como surgiu a ideia. Talvez até escolha mentalmente o lugar onde vai guardar os exemplares. Só existe um detalhe desagradável: o livro continua sem a primeira página. É aí que a realidade entra para estragar a festa. Porque a ideia, enquanto ideia, não tem defeito.
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Ela não está mal escrita. Não está cara. Não atrasou. Não recebeu um “não”. Não teve uma crítica ruim. Não ficou pela metade. Não precisa de revisão. Não precisa pagar gráfica. Não precisa de ninguém. É uma obra-prima porque ainda não aconteceu.
Isso vale para quase tudo. Tem gente que quer abrir um canal no YouTube e passa seis meses escolhendo o nome, outros que querem escrever e passa dois anos comprando cadernos, ainda aqueles que querem tocar um instrumento e passa semanas pesquisando qual instrumento comprar. Ou fazer um podcast e começa pela identidade visual. É uma maneira muito sofisticada de não fazer. A pessoa não está parada. Está se preparando para preparar-se.
E isso dá uma sensação muito confortável de movimento. Há, inclusive, uma indústria inteira dedicada a nos convencer de que preparação é produção. Planilha. Aplicativo. Agenda. Método.Curso. Mentoria. Caderno pontilhado. Caneta especial. Mesa organizada.
A única coisa que falta é começar. E começar é justamente a parte mais vulgar. Quando isso acontece, a ideia deixa de ser sua propriedade exclusiva e passa a pertencer à realidade.
Aí ela pode ficar ruim, ridícula, não funcionar e revelar que aquilo que parecia genial às duas da manhã era apenas fome. Esse é um dos grandes perigos da execução. Ela humilha.
Você pensa uma frase durante três dias e, quando finalmente escreve, descobre que ela era uma frase comum. Você imagina uma música inteira e, quando tenta tocar, percebe que ela só funcionava porque não tinha instrumento envolvido. Você planeja uma crônica perfeita e, depois de duas páginas, percebe que estava apenas adiando a louça.
Pensar preserva a fantasia. Fazer cobra imposto. E é por isso que algumas pessoas tenham tantas ideias. Não porque sejam necessariamente mais criativas. Mas porque ainda não tiveram tempo de estragá-las executando. Desconfio, inclusive, de quem diz ter cem projetos. Pode ser criatividade. Mas pode ser também uma coleção de fugas.
A ideia número 37 está sempre disponível para substituir a ideia número 12, que começou a ficar trabalhosa. É muito mais agradável pensar no próximo projeto do que terminar o atual.
O próximo ainda é maravilhoso. O atual já tem boleto, prazo e problema. Por isso é uma boa coisa anotar as ideias. Não porque todo pensamento precise virar algo. Seria outra forma de loucura.nMas porque algumas ideias merecem uma oportunidade de morrer fora da cabeça.
Um caderno cheio de ideias pode ser uma ferramenta. Também pode ser um cemitério muito bem organizado. Tenho simpatia pelos dois. O importante é que, de vez em quando, alguma ideia seja retirada dali. Não precisa ser a melhor. Nem a mais original.
Nem a que vai mudar sua vida. Pode ser uma ideia meio idiota. Aliás, frequentemente são essas que começam. Você escreve. Desenha. Grava. Publica. Faz uma versão ruim. Depois outra. Descobre alguma coisa. Corrige. Ou não.
Mas, pelo menos, agora existe alguma coisa para ser corrigida. É a diferença mais brutal entre pensar e fazer. O pensamento permite que você seja genial sem testemunhas. A execução obriga você a ser apenas você. E talvez seja justamente por isso que tanta gente prefira continuar pensando. Pensar demais dá trabalho. Fazer dá vergonha.
E a vergonha, infelizmente, não tem botão de salvar para depois.

