Colunas e BlogsAmém, Amém, Amém!

Amém, Amém, Amém!

Sobre a diferença entre bondade e medo de existir

Há uma certa nobreza trágica em ser bonzinho. A gente se convence de que é virtude, essa habilidade de engolir sapos sem fazer cara feia, e depois elogiar o sapo. Mas deixa eu te dizer uma coisa, meu caro, minha cara: bondade que custa a sua dignidade não é bondade. É medo com roupagem de generosidade.

Você já emprestou dinheiro que sabia que não ia voltar? Já riu de uma piada que te humilhou, só para não estragar o clima? Já pediu desculpa porque alguém pisou no seu pé?

Desculpe, meu pé entrou embaixo do seu. Pois bem. Isso não é bondade. Isso é trauma usando gravata.

O bonzinho, o verdadeiro capacho de estimação da humanidade, vive em estado de alerta permanente. Entra numa sala e já começa o scan: o chefe está com cara fechada, a esposa respirou mais fundo, o pai olhou torto. E o cérebro, treinado como um cachorro pavloviano da culpa, dispara automaticamente: fui eu. Eu fiz alguma coisa. Deixa eu consertar o que nem sei que errei.

A paz desse ser não vem de dentro. Vem de fora, emprestada, frágil, dependente da aprovação alheia como planta que só vive na janela do vizinho. E sabe o que acontece com quem nunca diz não? Vai acumulando um lixo radioativo no peito. Raiva represada que, sem ter para onde ir, volta contra si mesma. A gente implode. A autoestima vai para as cucuias — e as cucuias, convenhamos, ficam bem longe.

Tem mais: quem não presta tem um sexto sentido apuradíssimo para detectar capacho. É quase um talento. Chegam sorridentes, colam, usam  e quando você, finalmente, ensaia um não, saem ofendidíssimos dizendo que você mudou, que ficou frio, que algum psicólogo velho e careca andou botando ideias na sua cabeça.

Culpa, aliás, é a ferramenta favorita de quem nos explora. Conheço uma história que vale um tratado inteiro sobre o assunto. Um amigo meu sustentou emocionalmente uma família por anos. Estava sempre disponível, sempre presente, sempre dizendo sim. Era o porto seguro de todo mundo, aquele que resolve, que acolhe, que nunca reclama. Até o dia em que adoeceu e precisou de apoio. O silêncio que recebeu de volta foi ensurdecedor. A família, tão acostumada à sua utilidade, simplesmente não sabia o que fazer com a sua fragilidade. Ele descobriu, da forma mais dura possível, que nunca tinha sido amado: tinha sido consumido.

Isso é o ponto central, o fio que segura tudo: a culpa que você sente ao dizer não não é culpa moral. É síndrome de abstinência. Você é viciado em agradar. E o vício tem crise quando a gente para. Mas a crise passa. A dignidade, essa fica.

Por onde começar? Pela regra das 24 horas. A partir de hoje, nenhum pedido recebe resposta imediata. Vou ver e te falo. Amanhã eu te respondo. O bonzinho responde por reflexo, e o reflexo sempre diz sim. O tempo devolve consciência: consciência de si mesmo, que é a mais rara de todas.

Depois, treine o não pequeno. Diga não ao vendedor que encheu o balcão de mercadoria que você não pediu. Diga não ao convite de fim de expediente quando o que você quer é o seu moletom velho e a sua série. Nãos pequenos fortalecem para os grandes. É academia do limite.

E entenda uma coisa de uma vez: a verdadeira bondade só existe onde existe a possibilidade real de recusa. Quem não pode dizer não não está sendo gentil. Está sendo obediente. E obediência por medo não é virtude, é jaula sem grades visíveis.

Um dia disse não a alguém que ficou furioso. Ele me disse coisas duras. Olhei para ele com a serenidade de quem finalmente entendeu as regras do jogo e disse: você não me fez um pedido. Me deu uma ordem. Pedido implica que posso dizer sim ou não. Se só aceita o sim, é ordem.

Ordem, eu só obedeço quando não tenho escolha e mesmo assim, como quando o policial no aeroporto me disse que eu havia sido “escolhido aleatoriamente” para ser revistado, eu pergunto, sorrindo: adianta eu dizer que me importo?

Não adianta. Então vamos lá.

Mas com as pessoas que você escolheu ter na vida e que te escolheram de volta é diferente. Quem te ama de verdade sabe ouvir o seu não. Sabe, e fica. Quem foi embora depois que você parou de dizer amém para tudo… esse nunca te amou. Amava o que você fazia. Amava a sua utilidade.

E você, meu caro, minha cara, não é utensílio.

É gente.


Se esse texto tocou em algo que você reconhece — na sua comunicação, no seu conteúdo, na distância entre quem você é e o que você publica —Criei algo que vale muito a pena conhecer.

O curso Comunicação que (Des)vela é psicanálise aplicada ao marketing de verdade. Não mais uma técnica, não mais um framework. São 7 módulos em apostila que vão te ajudar a ler o sintoma da sua comunicação e criar a partir de um lugar que é seu de verdade.

Procrastinação, perfeccionismo, conteúdo que soa falso, persona que engole o sujeito: tudo isso tem nome. E nome, na psicanálise, é o começo do tratamento.

Saiba mais!

Últimas