O rapaz senta no divã como quem senta num banco de praça: meio desconfiado, meio cansado e com a vaga sensação de que alguém vai pedir que ele se retire por falta de propósito. Ele não sabe exatamente o que faz ali. Sabe apenas que está “cansado”. Cansado de quê? Do mundo. Das mulheres. Do algoritmo. Do fato de que seu avô, aos 30, já tinha casa, filhos e bigode respeitável, enquanto ele tem assinatura premium e uma coleção de frustrações em alta definição.
Freud explicaria. Eu simplifico: o superego do moço cresceu ouvindo que ele precisava ser “o cara”. O problema é que ninguém explicou que “o cara” agora precisa, além de pagar boletos, saber conversar sobre sentimentos, dividir tarefas domésticas e ter estabilidade emocional superior à de um aplicativo de banco. Ele foi educado para ser necessário. O drama começa quando descobre que pode ser dispensável.
Durante séculos, o homem ocupou o lugar do provedor. A fantasia narcísica era simples: “Eu sustento, logo existo”. Só que o capitalismo resolveu emancipar as mulheres e elas aprenderam a sustentar a si mesmas. Eis o curto-circuito psíquico: se ela pode tudo sozinha, quem sou eu nesse enredo?
O rapaz não percebe, mas sua angústia não é contra a mulher. É contra a própria insuficiência. Só que é mais confortável culpar o mundo do que encarar o espelho. O ressentimento vira identidade. Ele entra em comunidades virtuais onde todos compartilham a mesma dor, mas chamam isso de lucidez. É o clube dos magoados anônimos que se imaginam estrategistas sociais.
Trata-se de um luto.
Luto pelo pai onipotente que ele não conseguiu ser. Luto por um modelo de masculinidade que prometia controle e entregava rigidez. Luto por uma autoridade que hoje precisa ser negociada, não imposta.Enquanto isso, as mulheres, que historicamente foram treinadas para depender, aprenderam a desejar. E desejar é perigoso para quem não se construiu. Porque o desejo do outro exige que você tenha substância. Amor deixou de ser necessidade e virou escolha. E escolha é cruel com quem não se preparou para ser escolhido.
O jovem moderno sofre de uma solidão paradoxal: hiperconectado, mas emocionalmente analfabeto. Não aprendeu a nomear o que sente. Quando é rejeitado, diz que “a sociedade está errada”. Quando fracassa, diz que “o sistema é injusto”. Pode até ser, mas a psicanálise ensina que o inconsciente não aceita terceirização.
Há também o medo.
Medo de não ser suficiente. Medo de competir. Medo de dividir. Medo de depender emocionalmente: porque depender sempre foi sinônimo de fraqueza. O resultado? Ele se isola para não falhar. Só que, ao se isolar, confirma a própria irrelevância que tanto teme. É curioso: muitos querem resgatar a tal “família tradicional”. Não por tradição, mas por segurança. Se ela depender de mim, eu volto a ter função. É menos amor e mais garantia de lugar. A nostalgia, nesse caso, é uma defesa psíquica contra a ansiedade do presente.
Mas o mundo não é pai. E não vai proteger ninguém da própria imaturidade.
O que falta, talvez, não seja poder, mas elaboração. Elaborar que o masculino não morreu; ele está em transição. Elaborar que dividir tarefas não diminui virilidade. Elaborar que vulnerabilidade não é derrota. Elaborar que ser escolhido exige antes escolher crescer. No divã, o rapaz suspira. Ele ainda acredita que precisa provar algo. Talvez precise apenas aprender algo: que identidade não se herda pronta, se constrói. E que masculinidade não é cargo vitalício, é exercício diário de responsabilidade consigo e com o outro.
Se me pedissem um conselho, o que já é perigoso, pois conselhos são a forma socialmente aceita de invasão, diria: antes de salvar a civilização, arrume a própria cama. Não pela cama. Pelo símbolo.
Autossuficiência não é machismo. É maturidade. E maturidade, diferente de videogame, não tem fase secreta: começa quando você para de culpar o mundo e começa a interpretar o próprio desejo. Talvez a crise não seja dos homens. Seja do mito que contaram a eles. E mitos, quando não revisados, viram sintomas.
*Baseado em história real de paciente em atendimento psicanalítico;

