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Encomendas em Análise

Correios unificam o país... na incompetência

Os Correios, essa instituição que já foi sinônimo de carta perfumada, telegrama dramático e encomenda aguardada com ansiedade de Natal, descobriram oficialmente o que o brasileiro já sabia pelo aplicativo: nenhuma unidade estadual atingiu a meta de entrega no prazo. Nenhuma. Nem aquela que jurava que estava “em rota de entrega” desde terça-feira passada.

A meta era 95,54%. A realidade ficou em 90,18%. Cinco pontos percentuais parecem pouco, mas experimente explicar isso para quem comprou um presente de aniversário que chegou na retrospectiva do ano seguinte.

Roraima, coitada, ficou com 65%. Não é índice de eficiência: é boletim escolar pedindo reforço. A Região Norte, aliás, resolveu praticar geografia existencial: quanto mais longe do poder, mais distante da pontualidade.

Os Correios explicam que houve “carga represada nas origens e destinos”. Gosto dessa expressão. “Carga represada” é o novo “ninguém sabe, ninguém viu”. É o purgatório das encomendas: não estão perdidas, apenas meditando num centro de distribuição. A estatal também menciona backlog. Quando o problema ganha nome em inglês, ele ganha ar-condicionado. Não é atraso. É backlog. Não é desorganização. É ajuste no processo produtivo. Não é falta de dinheiro. É reestruturação do fluxo de caixa, que, reestruturado, resolveu circular para fora.

As transportadoras, cansadas de esperar pagamento, fizeram o que qualquer cidadão faz quando não recebe: pararam. Cinquenta e oito processos na Justiça, R$ 104 milhões cobrados, bilhões adiados entre fornecedores, tributos e fundos. Uma espécie de cadeia alimentar às avessas: ninguém engole nada.

E aí entra a parte pessoal, porque estatística é sempre mais confortável quando não tem nome próprio. Meu livro mais novo, Freud Explica — Eu Só Conto, lançado em junho do ano passado pela editora Fiapo, lá de Braga, em Portugal, resolveu fazer análise logística no Brasil. Os exemplares destinados aos leitores vindo de uma gráfica no Rio de Janeiro foram enviados… do Rio de Janeiro para o próprio Rio de Janeiro. Um passeio introspectivo. Um tour psicanalítico pela própria cidade.

Depois assumiram o “equívoco” — palavra elegante para dizer “mandamos dar uma volta”. Recalcularam a rota. O prazo que era 29 de janeiro foi para 13 de fevereiro. Duas semanas a mais para quem trabalha com entrega por demanda. Duas semanas que, no mundo real, não são apenas dias: são compromissos, eventos, leitores esperando, agenda comprometida.

Freud explicaria. Eu só conto. É curioso: o livro fala de lapsos, atos falhos, inconsciente. E a entrega resolveu praticar o conteúdo. Um erro que não é erro, é sintoma. O objeto deseja outro destino. A encomenda tem vida psíquica própria.

A empresa informa que melhorou 0,71 ponto percentual em relação ao ano anterior. É reconfortante saber que estamos atrasando com mais consistência. Progresso, no Brasil, às vezes significa demorar um pouco menos para explicar por que demorou tanto. Criaram matriz de criticidade, otimizaram malha, contrataram operadores emergenciais, revisaram planos de transporte. Parece desfile de soluções: muita alegoria, pouco abre-alas.

No Congresso, pedem auditorias. Perguntar é sempre um começo. Responder depende do prazo estimado. Os Correios falam em “ciclo vicioso de prejuízos”. É quase literatura fantástica: perdem clientes porque atrasam; atrasam porque perdem recursos; perdem recursos porque perdem clientes. Um romance circular, sem capítulo final — apenas prorrogação.

Houve um tempo em que o carteiro trazia notícias. Hoje traz notificações de atraso. Tudo chega? Nem sempre no prazo. Nem sempre no endereço certo. Mas chega, nem que seja a justificativa, que por sua vez, sempre chega antes da encomenda. Dizem que o Brasil é o país do futuro. O problema é que o futuro também está atrasado e com código de rastreamento.

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