Colunas e BlogsEnvelheça, Mas Não Exagere

Envelheça, Mas Não Exagere

Trinta anos. Segundo a internet, uma emergência médica.

Os vídeos são sempre os mesmos: aos dezoito, ela sopra a velinha, sorri, tudo em cores pastel. Aos trinta, a música muda para suspense, a luz fica azulada, e ela aparece como quem acabou de sobreviver a um naufrágio. Ninguém explica a que naufrágio.

Talvez tenha perdido a juventude entre o salão de beleza e a fatura do cartão. Nunca entendi essa dramaturgia. Rir da própria idade é saudável. Fazer dela uma tragédia grega é desperdício de talento. Trinta anos não pedem trilha sonora e no máximo, um bolo melhor. E a cobrança não chega para todo mundo do mesmo jeito.

Homem de sessenta continua sendo “aquele cara”: barriga é charme, ruga é experiência, grisalho vira “maduro interessante” desde que o patrimônio acompanhe. Mulher de trinta já ouve perguntas com a delicadeza de uma cobrança bancária: “E os filhos?” “E o casamento?” “Não pensa em constituir família?”, como se ela tivesse esquecido de renovar o documento de identidade. Aos trinta, a mulher não envelheceu. Só deixou de ser produto de lançamento.

E tem outra coisa: menina de doze anos comprando creme antirrugas. Doze. A criança mal aprendeu a preencher o formulário da escola e já negocia com a testa. Mulher de vinte e poucos faz botox preventivo: contra o quê? O tempo ainda nem cometeu o crime. É uma pinça: de um lado, empurra a menina para a vida adulta antes da hora; do outro, tenta empurrar a mulher adulta de volta à adolescência. Filtro, procedimento, creme, dieta, preenchimento, uma pequena indústria vendendo frascos de tempo. Ninguém lembra quando o perdeu, mas todo mundo compra.

No meio disso, não parece haver idade permitida. Aos quinze, parecer vinte e cinco. Aos quarenta, parecer trinta. Aos cinquenta, trinta e sete. Aos sessenta, “impressionantemente conservada”. Aos setenta, parecer simplesmente setenta já é ato de resistência. O cinema escancarou a regra por décadas: o homem envelhece e segue galã. A mulher envelhece e começa a receber convite para interpretar a mãe do galã. Ele pode ter sessenta, setenta, três casamentos, quatro hérnias de disco e uma expressão esculpida em pedra e ainda assim, o roteiro encontra uma mulher de trinta para olhá-lo com desejo. Ninguém estranha.

Experimente o contrário: uma atriz de sessenta beijando um homem de trinta. Pronto. Todo mundo descobre a palavra “inadequado”. Sean Connery beijava mulheres com metade da idade e era charme. Se fosse uma mulher, alguém explicaria que ela busca validação. A diferença é antiga. Já ganhou pátina. A publicidade mantém tudo em ordem: a mulher precisa parecer jovem, mas não pode parecer que está tentando. Precisa cuidar da aparência, mas não pode demonstrar vaidade. Precisa envelhecer naturalmente, desde que a natureza venha em quatro sessões, duas aplicações e um produto de R$ 489,90. Uma naturalidade bastante cara.

Envelhecer, para uma mulher, é exercício de equilibrismo sem rede.

Nova demais, é oferecida. Madura, descartada. Fez plástica, fútil. Não fez, relaxada. Engordou, perdeu o controle. Emagreceu, doente. Trabalha muito, abandonou a família. Não trabalha, depende do marido. Fala muito, histérica. Fala pouco, fria. A vida inteira sendo avaliada por uma banca que ninguém nomeou, mas que tem sede própria.

Britney Spears foi boletim escolar: ora gorda, ora magra, ora sensual, ora inadequada. Nunca aprovada. Madonna envelheceu em público e descobriu: a sociedade aceita que a mulher envelheça, desde que ela não pareça muito incomodada. E, de preferência, que não tente esconder. Se dribla o tempo, dizem que não aceita a idade. Se aceita, perguntam por que se deixou envelhecer. Qualquer escolha vem com crítica. E nem é o rosto que está em julgamento. O júri é o algoritmo. E ele não tem misericórdia nem hora de almoço.

Sabe quantos anos você tem, quantas curtidas recebeu, quantas vezes olhou para o próprio rosto na câmera frontal e decidiu que precisa fazer alguma coisa com a testa? Nunca vivemos tanto. Nunca apagamos tanto os rastros de que vivemos. Envelhecer é a única coisa mais certa que imposto e trânsito. Mesmo assim, tratamos a idade como notícia ruim.

Talvez o problema nunca tenha sido a idade. Talvez seja o que esperamos que cada idade produza: beleza aos vinte, casamento aos trinta, filhos criados e carreira aos quarenta, elegância aos cinquenta, discrição aos sessenta. Depois disso, melhor não atrapalhar a paisagem.

Passei dos trinta há quinze anos. Não precisei chamar o Corpo de Bombeiros. Foi uma idade decente. A gente chega com menos ilusões, mais paciência, e começa a perder a certeza de tudo. E essa perda, ao contrário do que parece, pode ser um progresso. Aos vinte, queremos ser vistos. Aos trinta, escolhemos por quem. Há uma diferença enorme aí.

O problema não é envelhecer. É viver numa época em que há tão pouco espaço para uma mulher simplesmente ter a idade que tem e cuidar da própria vida. Ela precisa parecer alguma coisa: jovem, mas não infantil; madura, mas não velha; bonita, sem esforço; natural, com ajuda de clínica.

O relógio insiste em marcar. A indústria insiste em vender minutos de volta. Mas o tempo não devolve nada. E o que incomoda, é que as pessoas envelhecem e continuam vivendo. Sem pedir licença. Sem filtro.

No escuro, a idade não existe. Mas a manhã sempre volta.

Últimas