Há um fenômeno circulando nas telas com a insistência característica dos sintomas: não se debate, repete-se. Vários homens, mulheres, câmeras diferentes, mesma frase ensaiada com a convicção de quem acabou de inventar a roda: o homem moderno acordou.
Acorda, Freud diria, quem ainda estava dormindo. E sonhos, como se sabe, não são inocentes.
O conteúdo manifesto do discurso é simples: viver sozinho é melhor, relação é âncora, e paz doméstica vale mais que qualquer companhia. O homem, finalmente liberto da necessidade de agradar, cresce, prospera, acumula. Lá fora, alguém implora por atenção que ele não tem mais intenção de dar. Bonito assim, parece sabedoria. Examinado de perto, cheira a ressentimento bem-vestido: aquele tipo de ressentimento que compra um tênis caro, aprende a palavra solitude e passa a usá-la como escudo antes mesmo de haver batalha.
Há algo verdadeiro aí, é preciso dizer. O cansaço com relações assimétricas é real. A exaustão de entregar mais do que se recebe, de ter o afeto avaliado como insuficiente, de viver sob julgamento constante, isso não é invenção, é experiência. Homens sentem isso. Mulheres também. A fadiga afetiva não tem sexo. Tem história, tem repetição, tem às vezes uma figura materna rígida ou um pai ausente que ninguém menciona em vídeo viral.
O problema não é o cansaço. É a doutrina que se ergue sobre ele.
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Porque o que essas vozes propõem não é saúde emocional. É uma estética. Uma postura. O homem que mora sozinho é um copo cheio é reveladora precisamente onde pretende ser límpida. O copo cheio não recebe. Não absorve. Está saturado de si mesmo. A mulher que entrar na vida dele precisa fazê-lo transbordar, ou seja, ela só tem função se for excesso. Aquilo que vaza. O que sobra.
É uma metáfora que, sem querer, diz tudo.
Leon Eliachar, que tinha olho cirúrgico para a patologia da linguagem cotidiana, adoraria esse copo. Diria que o sujeito não está cheio: está entupido. Que confunde impermeabilidade com plenitude. Que o copo que não recebe nada também não serve para nada, exceto como enfeite de prateleira.
Millôr, por sua vez, teria uma frase curta e devastadora, do tipo: “O homem que não precisa de ninguém geralmente não é precisado por ninguém — e chama isso de liberdade.”
Há uma distinção que o discurso recusa fazer, e a recusa, claro, é sintomática.
Existe a solidão escolhida com inteireza: aquela em que a própria companhia é boa, o silêncio é fértil, o recolhimento tem sentido. E existe a solidão como trincheira — posição estratégica num conflito que não acabou, onde o afastamento não é paz, é manobra. No primeiro caso, o sujeito está consigo. No segundo, está contra o outro, só que à distância segura.
O que esses discursos descrevem, quando a narrativa se afrouxa e o id fala mais alto que o roteiro, não é paz. É vingança diferida. É a satisfação de imaginar que ela vai perceber o que perdeu. Que os homens rejeitados lá atrás estão vivendo melhor agora. Que as mulheres perderam o controle e sofrem com isso.
Isso não é liberdade. É uma forma de ainda estar completamente dentro da relação — só que do lado de fora, de braços cruzados, esperando ser visto pela janela. A psicanálise tem nome para isso. Vários, na verdade. O mais gentil é acting out.
Tem um momento nos vídeos que merece atenção especial: aquele em que se sugere que o homem moderno, encontrando uma mulher em apuros na rua, finge que não vê. Pneu furado. Assalto. Passa na frente. Como represália. Como prova de que aprendeu, finalmente, a não se importar. Isso não é autopreservação. Isso é crueldade com manual de instruções.
E é aqui que o argumento desmorona, porque o que se propõe como cura, o desapego total, a recusa de qualquer vulnerabilidade, o orgulho de não precisar: é exatamente o mecanismo que fabrica as relações exaustivas que todo esse movimento diz querer evitar. A blindagem não protege: ela isola. Quem nunca aprende a receber nunca aprende a dar de verdade, apenas a performar a generosidade quando convém. Quem se fecha num copo cheio não derrama — mas também não mata a sede de ninguém, inclusive a própria.
O desapego como ideal é um ideal de pedra. E pedra não sofre, é verdade. Mas também não vive. A conversa que poderia acontecer no lugar desta exigiria mais coragem do que câmera. Exigiria admitir que os padrões afetivos mudaram e que isso desorienta todo mundo: homens e mulheres igualmente perdidos em expectativas herdadas, contraditórias, às vezes impossíveis. Que o medo de ser manipulado é legítimo, e que essa ferida, quando não tratada, vira muralha. Que cansaço e ressentimento são parentes próximos, mas não são a mesma coisa que sabedoria.
Exigiria, sobretudo, abrir mão do conforto de ter um culpado.
O homem que não precisa de você pode ser livre, sim. Mas também pode ser apenas alguém que aprendeu, com muito esmero e alguma dor antiga, a não querer nada — e passou a chamar esse vazio bem-decorado de abundância. A diferença entre os dois, como sempre, está no que acontece às três da manhã, quando o copo cheio fica sozinho com ele mesmo e o silêncio para de ser fértil e começa a cobrar.

