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Campanhas fracassam pelo mesmo motivo que participantes do BBB são eliminados

Ana Paula Renault revela mais sobre voto, conflito e mobilização do que muitas campanhas

O Big Brother Brasil continua sendo tratado por muita gente como entretenimento raso. Esse é um erro recorrente e perigoso. O BBB é, na prática, o maior experimento social do país em ambiente controlado. Ali se testam narrativas, se formam maiorias, se produzem rejeições, se constroem vilões e se consolidam lideranças sob pressão constante. É política em estado bruto, sem media training e sem rede de proteção.

Ao observar o BBB que acontece agora, me chama atenção como Ana Paula Renault volta a ocupar um papel central no debate público, não como participante, mas como voz ativa que tensiona, provoca e organiza leitura. E é justamente aí que está o aprendizado que campanhas eleitorais insistem em ignorar: opinião pública não se conquista tentando agradar todo mundo, mas assumindo posição com clareza.

Ana Paula não tenta ser confortável. Ela nunca tentou. E isso, longe de ser um erro, é uma escolha estratégica. Em ambientes de alta exposição seja um reality show, seja uma eleição quem busca neutralidade desaparece. O público não se mobiliza em torno do morno. No BBB, participantes que evitam conflito viram figurantes, conhecidos como plantas. Na política, candidatos que fogem de posicionamento viram números irrelevantes nas pesquisas. A atuação de Ana Paula mostra que existir no debate é mais importante do que tentar ser unanimidade.

O que muitos chamam de polêmica” é, na verdade, disputa de narrativa. Quando Ana Paula aponta incoerências, comportamentos machistas, julgamentos seletivos ou hipocrisias dentro do jogo, ela não está apenas opinando. Ela está enquadrando o debate, delimitando quem ocupa o lugar de vítima, de agressor, de oportunista ou de coerente. No BBB, quem define esse enquadramento influencia diretamente o paredão. Na política, quem define o enquadramento define o tema central da eleição.

Campanhas erram ao tratar conflito como algo a ser evitado. O BBB mostra o contrário: conflito bem conduzido é motor de engajamento. As pessoas não se mobilizam apenas pelo afeto, mas também pela indignação, pela defesa, pela necessidade de tomar lado. Ana Paula entende que emoção vem antes da concordância. Primeiro o público reage. Depois decide se apoia ou rejeita. Em termos eleitorais, isso significa que o pior cenário não é a rejeição inicial, mas a indiferença.

Outro ponto que considero central é a forma como Ana Paula se relaciona com pautas. Ela não usacausas como ferramenta de performance. Ela fala a partir de vivência, histórico e enfrentamento público. Isso gera legitimidade, inclusive entre quem discorda dela. No BBB, o público percebe rapidamente quando alguém levanta uma bandeira apenas para agradar determinado grupo. Na política, o eleitor também percebe. Causas que aparecem apenas no programa de governo não mobilizam. Causas que atravessam comportamento constroem militância.

Há ainda um equívoco frequente em campanhas: acreditar que furar bolhas é suavizar discurso. Ana Paula prova o oposto. Ela fura bolhas porque incomoda. Mesmo quem discorda reage, comenta, compartilha, rebate. O incômodo rompe o isolamento algorítmico. É exatamente assim que uma mensagem sai do círculo dos convertidos e alcança novos públicos. Na lógica eleitoral, circulação é pré-condição para voto. Quem não circula, não cresce.

A linguagem é outro elemento decisivo. Ana Paula fala de forma direta, sem excesso de pedagogia, sem jargão acadêmico, sem tentativa de educaro público. Ela fala como quem entende que o confessionário do BBB funciona como um grande comitê eleitoral: fala-se para milhões como se falasse para um. Na política, insistimos em discursos longos, técnicos e distantes da vida real. O resultado é previsível: fala-se sozinho.

Talvez um dos maiores ativos estratégicos de Ana Paula seja sua leitura de tempo. Ela já atravessou cancelamentos, ataques, defesas públicas e processos de ressignificação. Isso ensina algo que campanhas negligenciam: nem todo ataque merece resposta, nem todo silêncio é fraqueza. Muitas crises se alimentam da própria tentativa de explicação. Saber quando endurecer, quando silenciar e quando deixar o barulho morrer é capital político.

O BBB deixa isso ainda mais claro no paredão, que funciona como um segundo turno emocional. O público não vota apenas para salvar quem gosta, mas para eliminar quem rejeita. Eleição é isso. Não é só soma de apoios; é gestão de rejeição. Candidatos que se tornam rejeição absoluta não crescem, mesmo com base consolidada. Ana Paula entende esse jogo e organiza discurso não para ser amada por todos, mas para não ser descartada pelo campo que dialoga.

No fim, o Big Brother Brasil não elege presidente, governador ou vereador. Mas expõe, de forma didática, como as pessoas escolhem quem merece ser seguido. A atuação de Ana Paula Renault escancara uma verdade incômoda para a política tradicional: posicionamento gera custo, mas cria base; conflito gera desgaste, mas gera engajamento; linguagem simples gera alcance; e legitimidade gera defesa.

Quem ignora esse laboratório social entra numa campanha jogando com regras antigas. E eleição nenhuma é vencida tentando jogar um jogo que já mudou.

Rafael Medeiros é estrategista político e especialista em marketing político e mobilização digital, com atuação em campanhas eleitorais e mandatos no Brasil.

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