Sempre desconfiei dessa história de que a vida é uma corrida. Corrida contra o quê, meu Deus? Contra o relógio? Contra o colega que acabou de ser promovido? Contra a idade que chega sem pedir licença?
Pois agora inventaram um nome novo para um desejo antigo: microaposentadoria. Não é a aposentadoria de verdade, daquelas que nossos pais esperavam chegarem aos sessenta e cinco anos com um relógio de ouro e uma placa de “obrigado pelos serviços prestados”. É uma aposentadoria em miniatura. Um respiro no meio do caminho. Uma pausa que dura meses, às vezes um ano inteiro, enquanto a gente ainda tem fôlego para aproveitar.
Parece loucura, não? Num mundo que cobra produtividade o tempo todo, onde responder e-mail fora do horário virou prova de amor à empresa, onde as férias de trinta dias já são vividas com culpa, parar por vontade própria chega a ser subversivo. Mas está acontecimento. Gente de todas as idades, de todas as profissões, descobrindo que o corpo e a alma têm limites. Que burnout não é frescura, é colapso. Que dá para juntar dinheiro não só para comprar apartamento ou trocar de carro, mas para comprar tempo.
O mais curioso é como essas pessoas sobrevivem. Algumas economizam durante anos, fazendo das pequenas renúncias um passaporte para a liberdade temporária. Outras descobrem que o custo de vida em certos lugares é tão baixo que dá para esticar as economias como chiclete. Tem quem troque casa por hospedagem, quem cuide de animais alheios em troca de teto, quem vire nômade digital levando o escritório na mochila.
Tem uma coisa que ninguém contou quando o home-office virou febre mundial: ele devolveu pra gente uma certa autonomia sobre o próprio tempo. Não que tenhamos virado senhores do relógio: as reuniões continuam, os prazos continuam, a pressão continua. Mas, no meio disso tudo, ficou mais fácil inventar uma vida que não cabe mais no escritório. Quem nunca atendeu um e-mail importante da varanda de uma pousada? Quem nunca esticou uma sexta-feira em Ouro Preto porque o Wi-Fi do apartamento alugado funcionava tão bem quanto o da sala corporativa?
O home-office embaralhou as fronteiras entre trabalho e vida, é verdade, mas também ensinou que a gente pode estar em muitos lugares sem deixar de produzir. E, para quem sonha com uma microaposentadoria, essa descoberta é libertadora: não precisa mais esperar as férias oficiais para sentir o gosto do mundo. Dá para trabalhar de manhã na serra e à tarde na praia. Dá para esticar uma temporada porque o chefe nem precisa saber onde você está, desde que as entregas cheguem no prazo. O home-office virou o passaporte discreto de quem aprendeu que liberdade não é fazer o que quer, mas escolher onde estar enquanto faz o que precisa.
Não é para todos, claro. Tem gente que mal consegue pagar as contas do mês, quem dirá guardar para uma temporada sem salário. Mas, para quem consegue, a pergunta é a mais difícil: “Quanto é suficiente?” Porque a gente vive acostumado a querer mais. Mais dinheiro, mais segurança, mais tudo. Até esquecer que o suficiente existe. E que, quando a gente descobre ele, a vida fica mais leve.
O medo do julgamento também pesa. O que vão pensar os colegas? A família? Os amigos que continuam na labuta enquanto a gente tira férias prolongadas? A gente aprende a negociar isso como quem negocia salário. Explica aos chefes que, para render bem, precisava recarregar de verdade. E conseguimos! Vai por mim.
Essa história toda me faz pensar que a gente vive como vela queimada pelos dois lados. Acelera, acumula, agenda, responde, produz e ainda acha que está tudo bem porque sexta-feira tem happy hour. Mas o corpo não esquece. A alma não esquece. Um dia a casa cai, e aí não adianta pedir licença não remunerada porque o estrago já foi feito. O que me espanta é como a gente naturalizou essa loucura. Como passamos a achar normal sentir um aperto no peito todo domingo à noite. Como incorporamos a culpa de não estar fazendo algo “útil” a cada minuto de ócio. Como esquecemos que antes de sermos funcionários, fomos crianças que corriam no quintal e olhavam para o céu sem precisar justificar nada.
Essa gente que tira microaposentadoria não é maluca. É sábia. Descobriu que o tempo é a única moeda que não volta pro bolso. Que dinheiro se ganha de novo, mas os dias não. Que o mundo não vai parar se a gente parar e que talvez essa seja a maior lição: descobrir que o mundo continua girando lindamente sem a nossa angústia. Olho para minha própria vida e me pergunto: do que estou guardando? Para que estou esperando? A aposentadoria pode nem chegar, e se chegar, quem garante que terei saúde para aproveitar?
Então, se você me perguntar, acho que microaposentadoria devia virar matéria obrigatória na escola. Devia ensinar pra criança que a vida não é uma reta de sofrimento até o descanso final. É feita de respiros, de pausas, de dias em que a maior obrigação é não ter obrigação nenhuma.Parar não é desistir. Parar é se reapropriar do próprio tempo. É dizer: calma, eu existo para além desse expediente. Eu existo para além do que produzo.
E existir, já é suficiente.

