Houve um tempo, remoto como a infância e recente como ontem à noite em que tocar violão era tocar violão. Hoje, tocar violão é desenvolver repertório, construir identidade sonora e, se possível, monetizar no Reels. O violão, coitado, virou um estagiário da própria alma.
Descobriu-se que o prazer, sozinho, não basta. Ele precisa justificar a própria existência. Precisa explicar: “Isso vai dar em quê?”. A pergunta não é dita em voz alta, mas ecoa no córtex pré-frontal como um gerente invisível: Ok, mas qual o KPI disso? (KPI significa Key Performance Indicator (Indicador-Chave de Desempenho, em português).
O hobby, esse antigo refúgio do humano cansado de ser humano, foi promovido a funcionário CLT da produtividade. Pintar não é mais pintar: é “definir linguagem estética”. Escrever não é escrever: é “posicionamento”. Descansar, então, virou quase crime hediondo, só com atestado médico ou legenda motivacional.
Do ponto de vista psicanalítico, essa ciência que tenta explicar por que fazemos tanto para evitar sentir, o fenômeno é simples: trocamos o prazer pelo aplauso. O brincar pelo desempenho. O ser pelo parecer. Freud já suspeitava disso, mas não contava com o Wi-Fi.
O cérebro humano, vale lembrar, não foi projetado para funcionar como uma startup em rodada eterna de investimento. Ele precisa de ócio, de vazio, de tédio. Precisa desse momento em que a mente vagueia sem GPS, sem meta, sem nada. Como a tal caixa do vazio. É aí que entra a tal Rede de Modo Padrão, nome técnico para aquilo que antigamente se chamava “ficar olhando pro nada”.
Resultado: uma geração inteira cansada, improdutiva de prazer e altamente eficiente em comparação. Nada mais dá gosto. Tudo cansa antes de começar. Não é falta de disciplina. É excesso de cobrança. Uma anedonia funcional: a incapacidade moderna de sentir prazer sem plateia.
O hobby, que deveria ser território livre, foi invadido pelo fiscal da utilidade. Se não vira renda, é perda de tempo. Se não vira conteúdo, é desperdício. Se não cresce, é fracasso. A vida, assim, deixa de ser experiência e vira projeto. Com cronograma, metas e frustração trimestral.
A revolução possível hoje é mínima e por isso mesmo subversiva. Fazer algo mal feito. Errar sem aprender nada. Criar sem postar. Tocar sem gravar. Escrever sem publicar. Pintar e esconder. O verdadeiro luxo contemporâneo não é tempo: é inutilidade.
O hobby não é sobre evolução. É sobre permissão. Permissão para ser ruim, lento, incoerente. Permissão para não chegar a lugar nenhum. Porque, ironicamente, é quando o cérebro para de tentar chegar que ele finalmente entende onde está.
Talvez o maior ato de rebeldia do nosso tempo não seja produzir mais, mas permitir-se o escândalo do prazer gratuito. Criar sem transformar isso em trabalho. Viver sem transformar tudo em currículo.
O cérebro não quer ser produtivo. Quer ser humano. Mas o humano moderno, conectado, vigiado, mensurado e curtido, desaprendeu isso. Quando ninguém está olhando, ele até tenta viver, mas logo pergunta se dá pra postar. Viver não precisa dar em nada. Só que, no mundo atual, se não rende, não presta. O que nos deixa altamente ocupados, profundamente inúteis e orgulhosamente exaustos.

