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Toda Gente Tem um Porão

Poucos Descem

Existe uma justiça às avessas no mundo das ideias: os grandes pensadores morrem duas vezes. Primeiro no corpo, depois no resumo de três linhas que alguém faz deles no Instagram.

Freud, por exemplo, dedicou cinquenta anos a entender por que o ser humano se sabota, mente para si mesmo e repete os mesmos erros com pessoas diferentes usando nomes diferentes. Resultado: hoje ele é citado por gente que nunca abriu um livro dele para explicar por que o ex não prestava. Nietzsche passou a vida inteira sofrendo, pensando, enlouquecendo, para virar frase de camiseta.

Marx escreveu volumes densos como paralelepípedo molhado para ser invocado em briga de comentário entre pessoas que não leram nem a orelha.

Há uma perversidade nisso que me diverte e me entristece em doses alternadas: a profundidade não desapareceu. Ela foi terceirizada. Alguém leu, digeriu, simplificou, resumiu, transformou em carrossel, adicionou uma foto de névoa numa montanha e devolveu ao mundo como sabedoria pronta para consumo imediato.

O pensamento virou delivery.E como todo delivery, chega morno, numa embalagem que promete mais do que contém. Escrevo isso sem nostalgia. Não sou daqueles que acreditam que o passado era melhor. O passado tinha seus próprios idiotas, só que eles escreviam com pena de ganso e demoravam mais para publicar a besteira.

O problema não é a velocidade. É a confusão entre velocidade e profundidade. Entre circular e pensar. Entre ser visto tendo uma ideia e realmente tê-la. Pensar dói um pouco. Não muito, não precisa ser drama. Mas tem aquele desconforto específico de uma ideia que não fecha, que incomoda, que força você a rever o que achava que sabia. É exatamente esse desconforto que o conteúdo de 30 segundos foi projetado para eliminar.

Ele não quer que você pense. Quer que você sinta que pensou.É uma distinção pequena. Apenas muda tudo.

No meu livro FREUD EXPLICA — Eu só conto, não ofereço alívio. Ofereço o que o alívio costuma adiar: o encontro com a parte sua que você arruma desculpa pra não visitar. Não é terapia. Não é autoajuda. É literatura com Freud de companhia e ele, como todo bom companheiro, nunca deixa você sair de uma conversa exatamente como entrou.

(Pedidos para a primeira quinzena de abril/2026) Para um exemplar: curtaspensatas@gmail.com

Com a fina cumplicidade da @editorafiapo (Braga, Portugal) e da @letraseversos (Rio de Janeiro, RJ): duas editoras que ainda acreditam que um livro bom é aquele que, fechado, continua te olhando.


Se algo aqui tocou em você — não como insight motivacional, mas como reconhecimento de algo que você sente na sua própria comunicação, no conteúdo que você produz, no espaço entre quem você é e o que você publica — existe um lugar onde essa conversa continua com mais profundidade.

Marcus Vinicius Leite — psicanalista, jornalista e escritor e há mais de 15 anos no podcast Pensatas Curtas — criou o curso Comunicação que (Des)vela: psicanálise aplicada ao marketing de verdade. Não mais uma técnica de copy. Não mais um framework de persona. São 7 módulos em apostila para você finalmente ler o sintoma da sua comunicação, e criar a partir de um lugar que é genuinamente seu.

Procrastinação. Perfeccionismo. Conteúdo que soa oco. Persona que engole o sujeito. Tudo tem nome. E em psicanálise, nomear é o começo.

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