CulturaOs caixotes de Sísifo

Os caixotes de Sísifo

Artista autista transforma entulho recolhido nas ruas do DF em instalação sobre excesso, memória e os rastros que a pandemia deixou na cidade.

Um homem pede demissão do emprego para catar madeira jogada fora nas ruas de Brasília. Não sabe que está construindo uma exposição: sabe apenas que precisa continuar catando. Ao longo de meses, cidade afora, ele reúne mais de 1.400 caixotes descartados por quem não quis. É o início, avesso a qualquer glamour, da mostra que o artista visual João Ferreira abre em 31 de julho no Museu Nacional da República.

É desse gesto obstinado, quase absurdo, que nasce 2020–2021, do limbo ao exagero, a instalação do artista visual João Ferreira que ocupa a partir de 31 de julho a Galeria 1 do Museu Nacional da República e sua conexão com o térreo. Mas seria um erro contar essa história a partir da abertura da mostra, do edital aprovado ou da curadoria. A história começa antes, na rua, no ato repetitivo de recolher e é nesse ponto que ela deixa de ser informativo de  evento e passa a interessar como fato cultural.

João é autista, diagnosticado com nível 1 de suporte, natural do Distrito Federal, morador do Núcleo Bandeirante, formado em Artes Visuais pela UFMG. Nenhum desses dados, isoladamente, explica o que se vê na galeria. Juntos, começam a explicar por que a obra insiste tanto em acúmulo, repetição e excesso: não como efeito visual gratuito, mas como método de trabalho e, mais do que isso, como forma de pensamento.

Uma salada que virou frase

Antes do diagnóstico, diz o artista, sua produção parecia dispersa, sem eixo — “uma salada de quadros”. A frase seguinte é a chave de leitura de toda a mostra: o autismo não fragmentou sua identidade artística, fez o contrário, deu sintaxe a um vocabulário que já existia solto. Não se trata de um rótulo clínico sobreposto à biografia, mas de algo mais parecido com uma legenda que finalmente permite traduzir o filme. “”Meu trabalho era muito desconexo. Parecia uma salada de quadros. O autismo fez essas coisas fazerem sentido. E começar uma coisa encaixar – literalmente na outra. Acredito que toda essa desordem que vinha do ´não diagnóstico, eu comecei a consegui ordenar tudo a partir do diágnóstico, que alguma coisa fez sentido” afirma.

Essa ideia tensiona um lugar-comum do discurso sobre neurodiversidade, que costuma tratar o diagnóstico como cerceamento: uma grade que reduz a pessoa a uma categoria. Na fala de João, ele funciona ao contrário: como ferramenta de organização retroativa. As estereotipias associadas ao espectro, comportamentos que a sociedade costuma classificar como desvio a ser corrigido ou disfarçado, são deslocadas para o centro do processo criativo. O que era sintoma vira sintaxe.

Essa operação não é nova na história da arte,  só raramente foi feita a partir de dentro. O modernismo brasileiro e internacional se fascinou, ao longo do século XX, por aquilo que chamava de “arte bruta” ou “art brut”, termo cunhado por Jean Dubuffet nos anos 1940 para descrever produções de internos psiquiátricos, autodidatas e outsiders, tratadas então como curiosidade clínica antes de serem reconhecidas como linguagem legítima. A diferença central aqui é de enunciação: João não é objeto de um olhar clínico-estético alheio, é sujeito que nomeia o próprio processo, dá palestra sobre ele, concede entrevista, assina curadoria implícita da própria obra.

O excesso como resposta à falta

Um dos pontos mais interessantes da conversa com o artista é a origem material do excesso que dá título à mostra. Não veio de abundância, veio de escassez. Durante a fase mais dura da pandemia de Covid-19, faltava material de trabalho convencional: tintas, telas, insumos de ateliê. Sobrou o que a cidade descartava: entulho de obra, madeira de demolição, restos de mudança. “Percebi que não dava mais para trabalhar de um jeito limpinho”, resume.

A palavra “limpinho” carrega mais peso do que aparenta. Vivemos sob uma pressão estética generalizada por superfícies sem ruído: feeds editados, casas sem fiação à vista, currículos sem lacunas, corpos sem imperfeição. A obra de João funciona como atrito a essa gramática do polido: pintura fotorrealista ao lado de pixel art, sonoplastia kitsch ao lado de referências à astrologia, street art dividindo parede com naïf. Não há hierarquia entre alta cultura e cultura de rua, entre erudição e popularesco,  e é justamente essa mistura, incômoda para um certo gosto museológico, que constitui o argumento estético da mostra.

A referência que o artista escolhe para essa relação entre repetição e sentido é filosófica: o Sísifo de Albert Camus, condenado a empurrar a pedra montanha acima para sempre, e que Camus propõe, no ensaio de 1942, ser preciso imaginar feliz. Catar caixotes pela cidade, tarefa sem fim visível, repetida centenas de vezes, ganha assim status de gesto quase ritual: trabalho manual que também é arquivo afetivo e, ao mesmo tempo, comentário social sobre o que Brasília joga fora e quem recolhe.

Uma cidade que não fechou as feridas

Perguntado sobre o que mudou desde o período mais agudo da pandemia, João responde sem qualquer intenção de efeito: “Nada mudou. O tempo e nós mesmos continuamos quebrados.” A frase resume um incômodo social mais amplo, dificilmente contestável, que raramente ganha espaço institucional em exposições sobre o tema: a sensação de que 2020 e 2021 não foram episódio encerrado, mas fratura que segue ativa sob a superfície de um cotidiano formalmente normalizado. O calendário virou a página; o corpo coletivo, nem tanto.

Por isso o recorte temporal do título, funciona menos como moldura histórica fechada e mais como porta de entrada para outras camadas: precariedade urbana, invisibilidade de quem cata lixo para viver, isolamento, e também a experiência sensorial de quem processa o mundo em intensidade diferente da média social. A pandemia, no relato do artista, deixou de ser assunto e virou lente.

Há também um deslocamento discreto na relação entre artista e cidade. Antes, o trabalho acontecia dentro do ateliê; a rua era só trajeto. Depois, tornou-se matéria-prima e também campo de observação social quem descarta, quem recolhe, quem se torna invisível no processo. “Pegar lixo mudou tudo”, diz, numa frase seca que talvez resuma melhor do que qualquer texto curatorial a virada de método que a mostra documenta.

Referências que não pedem licença

A pesquisa de João dialoga com nomes que, cada um a seu modo, também recusaram o acabamento limpo: Hélio Oiticica, cujos penetráveis — sobretudo a experiência multissensorial de Tropicália, de 1967 — propunham corpo e ambiente como território de invasão sensorial em plena ditadura civil-militar; Marcel Duchamp, cujo humor corrosivo desmontou a solenidade da arte no início do século XX; e Erik Satie, compositor que cultivava um estranhamento poético discreto, avesso à grandiloquência romântica. É uma genealogia que aponta para uma linhagem específica dentro da história da arte: a do gesto que provoca sem explicar, que instala dúvida em vez de conforto.

Isso responde, em parte, à expectativa que o próprio artista declara para o público: que saia da galeria com mais perguntas do que respostas. É uma aposta arriscada num circuito expositivo que, cada vez mais, precisa de legendas explicativas e experiências fotografáveis para justificar a visita. João parece caminhar na direção oposta: cores que, em suas palavras, “não pedem licença”, iluminação que distorce objetos, ambiente que não oferece rota de leitura única.

O que fica depois da mostra

Há uma ambição pequena e concreta por trás de todo o aparato conceitual: que crianças autistas visitem a exposição e se reconheçam nela. Não como lição pedagógica, nem como mensagem de superação (registro que o artista evita),  mas como possibilidade de que aquilo que sempre lhes foi apontado como “demais” apareça, ali, como outra forma legítima de estar no mundo.

É um ponto de chegada modesto para um processo que envolveu 1.400 caixotes, uma demissão, uma pandemia e um diagnóstico tardio. Mas talvez seja exatamente essa modéstia (na recusa de transformar a própria experiência em manifesto grandioso) o que torna a mostra mais interessante do que a soma de seus materiais recolhidos do lixo.

A programação paralela, com a palestra ARTISM: a engenharia visual no espectro autista, reunindo o artista à neurologista Jeanne Mazzi e à neuropsicóloga Bianca Noronha, sob mediação da jornalista Maíra Valério, sugere que a instituição também aposta nesse cruzamento entre arte e neurociência como campo de debate público: ainda incipiente no circuito expositivo brasileiro, mas crescente.

SERVIÇO:

Exposição: “2020–2021, do limbo ao exagero”
Artista: João Ferreira
Local: Museu Nacional da República — Galeria 1 e conexão com o térreo
Abertura: 31 de julho de 2026, às 19h
Visitação: de 1º de agosto a 4 de outubro de 2026
Funcionamento: terça-feira a domingo
Classificação: livre
Informações: @joaoferreiraout (Instagram) / contatomairacomunica@gmail.com


Palestra- ARTISM:a engenharia visual no espectro autista”
Data: 3 de outubro de 2026, às 16h
Local: Auditório 2 do Museu Nacional da República
Participantes: Jeanne Mazzi, Bianca Noronha e João Ferreira Mediação: Maíra Valério

 

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