Vínculos seguros, sentimento de pertencimento, rotina e acesso a ajuda estão entre os fatores que podem contribuir para a proteção da saúde mental de crianças e adolescentes
Durante o Setembro Amarelo, a discussão sobre saúde mental costuma se concentrar na identificação de sinais de alerta e na prevenção do suicídio. Mas existe outro lado importante da prevenção: entender o que ajuda crianças e adolescentes a enfrentar períodos de sofrimento e quais fatores podem funcionar como “amortecedores” diante das dificuldades.
Esses fatores não impedem que um jovem desenvolva problemas de saúde mental nem funcionam como uma proteção absoluta contra situações graves. Mas podem contribuir para maior resiliência, favorecer a regulação emocional e aumentar as chances de que a criança ou o adolescente procure ajuda quando estiver enfrentando dificuldades.
Segundo a psiquiatra Danielle Admoni, especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e supervisora na residência de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM), o principal fator de proteção são os vínculos familiares seguros. Crescer em um ambiente não violento, (incluindo violência verbal), faz toda a diferença na proteção da saúde mental. “Esse é o maior fator de proteção que existe: ter um entorno social saudável, que é a família e a família estendida”, diz.
É muito importante que o adolescentes tenha pelo menos um adulto de confiança, com quem seja possível conversar ou compartilhar preocupações sem medo de julgamento ou punição, cria um espaço para que o jovem consiga compartilhar preocupações. Se esse adulto não for pai ou mãe: pode ser outro familiar, professor ou alguém que faça parte da sua rede de convivência.
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Diversas pesquisas reforçam a importância das relações sociais para a saúde mental. Um estudo da Universidade de Adelaide, na Austrália, publicado em agosto de 2026, analisou 21.059 estudantes de 15 a 18 anos e investigou especificamente amizades e resiliência. Os autores descobriram que um maior sentimento de pertencimento ao grupo de pares estava associado a maior resiliência. Curiosamente, a intimidade das amizades um efeito pequeno, ou seja, sentir que se pertence ao grupo pareceu importar mais do que simplesmente ter uma amizade muito próxima.
Um outro estudo, da Universidade de Manchester, de 2023, analisou 12.130 adolescentes e concluiu que bullying, discriminação, privação material em casa, problemas no ambiente familiar e saúde física ruim estão entre os principais fatores que causam insatisfação com a vida e mais dificuldades de saúde mental.
Além disso, também concluíram que os fatores psicológicos internos foram os mais fortes “amortecedores” da saúde mental, como autoestima, regulação emocional e otimismo. Ou seja, adolescentes que se valorizavam mais conseguiam regular melhor suas emoções, tinham expectativas mais positivas sobre o futuro e apresentavam maior resiliência diante das adversidades.
Sono e atividade física também apareceram como fatores importantes nesse estudo. Adolescentes que dormiam o suficiente apresentaram maior índices de satisfação com a vida de saúde mental. A atividade física também apareceu associada à maior resiliência em relação às dificuldades, principalmente para os meninos.
“Tudo isso não significa que uma rotina saudável seja capaz de resolver um quadro de depressão ou ansiedade, por exemplo, mas ela oferece uma estrutura importante para a saúde mental”, explica Danielle Admoni.
Por fim, um dos principais amortecedores é a possibilidade de acessar ajuda quando ela se torna necessária. Os adultos na vida daquela criança precisam estar atentos a mudanças de comportamento, isolamento, alterações importantes de sono ou alimentação, queda de rendimento e perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas. Quando o sofrimento começa a interferir nas atividades do dia a dia, buscar avaliação de um profissional de saúde mental é fundamental.
No Setembro Amarelo, ampliar essa perspectiva pode ajudar a deslocar a discussão de uma lógica reativa, ou seja, de agir frente a uma crise, para uma abordagem de prevenção contínua, que começa muito antes da emergência.

