ArtigosNinguém convence a mão de ninguém

Ninguém convence a mão de ninguém

Entre púlpitos vazios, telas cheias e velhas manias eleitorais, uma reflexão sobre o que mudou na maneira de fazer política no Brasil.

A política brasileira produz uma imagem que parece escrita por um humorista ruim. O palco está pronto, as câmeras ligadas, os púlpitos iluminados, os microfones à espera. Só faltam os candidatos.

Foi assim no primeiro debate presidencial de 2026, realizado pela Band em 23 de agosto. Dos seis convidados, apenas três apareceram: Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. Lula e Flávio Bolsonaro, os dois nomes mais bem colocados na pesquisa então disponível, não foram. Romeu Zema, que havia confirmado presença, desistiu no mesmo dia, alegando justamente a ausência dos principais concorrentes. Foi o menor quórum de um debate presidencial de primeiro turno desde 1989.

A fotografia é excelente. A democracia brasileira, que durante décadas gostou de se imaginar como uma grande família discutindo política diante da televisão, descobriu uma coisa bastante prática: família também pode ser bloqueada no WhatsApp. A pergunta, portanto, não é apenas por que alguns candidatos faltaram ao debate. Essa é a pergunta mais fácil. A difícil é outra:

O que acontece com uma eleição quando os candidatos deixam de precisar convencer quem pensa diferente deles?

Porque talvez estejamos olhando para a cadeira vazia e enxergando apenas uma ausência. E talvez a cadeira vazia seja, justamente, a presença mais eloquente da campanha contemporânea. O debate televisivo nasceu com uma vantagem e uma desvantagem.A vantagem era reunir, no mesmo lugar, candidatos que normalmente jamais conversariam uns com os outros durante o tempo necessário para que alguém percebesse uma contradição. A desvantagem é exatamente essa. O candidato não controla completamente o que acontece.

Pode preparar respostas. Pode decorar números. Pode ensaiar gestos. Pode receber instruções para sorrir, não sorrir, respirar, atacar, não atacar, olhar para a câmera ou olhar para o adversário. Mas existe sempre aquele sujeito do outro lado do palco que pode fazer uma pergunta inconveniente.

E há o jornalista, o tempo, o imprevisto, a frase que sai errada e também  aquele trecho de oito segundos que amanhã estará circulando por milhões de celulares, geralmente sem o contexto dos oito minutos anteriores. O debate é, por definição, uma pequena fábrica de acidentes. Para quem está atrás nas pesquisas, isso pode ser ótimo. Para quem está na frente, nem sempre.

A história brasileira já sabia disso antes de o algoritmo descobrir.

Fernando Collor, líder em 1989, faltou aos seis debates do primeiro turno e só enfrentou Lula no segundo. Fernando Henrique Cardoso participou de apenas um dos três debates de 1994 e não participou dos debates de 1998, quando foi reeleito no primeiro turno. Lula faltou aos debates do primeiro turno em 2006, mas compareceu aos quatro do segundo turno contra Geraldo Alckmin. Portanto, a fuga do debate não nasceu com o Instagram, nem foi inventada pelos marqueteiros de 2026.

Isso é importante porque impede uma nostalgia muito conveniente. Não é verdade que antigamente todos os candidatos se sentavam disciplinadamente diante das câmeras para discutir o destino da pátria enquanto o brasileiro, em silêncio respeitoso, anotava propostas num caderninho.

Em 1989, havia candidato que preferia não aparecer. Em 1998, não houve debates de primeiro turno porque a ausência de Fernando Henrique, somada às regras eleitorais da época, tornou inviável a realização dos confrontos. E FHC venceu. A cadeira vazia, portanto, é antiga. O que mudou foi o tamanho da sala.

A televisão tinha uma sala. A internet tem milhões.

Houve um tempo em que o candidato precisava da televisão para entrar na casa do eleitor. Isso criava uma dependência incômoda. O jornalista fazia uma pergunta. O adversário interrompia. O candidato precisava responder. O horário acabava. A edição vinha depois. A internet desmontou esse monopólio.

Hoje um candidato pode gravar um vídeo no próprio celular, falar durante três minutos para milhões de pessoas, cortar a pergunta desagradável, escolher o enquadramento, repetir a gravação até ficar bom, publicar a versão definitiva e ainda transformar a fala em cortes para Instagram, TikTok, YouTube, WhatsApp e outras plataformas. É uma maravilha e um problema.

A comunicação política deixou de ser apenas uma transmissão. Tornou-se uma arquitetura de ambiente. O político não precisa mais entrar na sala do jornalista. Pode construir a própria sala. Pode escolher a luz, a parede, a música, a legenda, a pergunta.E, principalmente, pode escolher quem não entra.

As redes sociais democratizaram o acesso à fala política. Isso não é pouca coisa. Um candidato sem espaço relevante na televisão pode construir audiência diretamente. Movimentos pequenos podem organizar militantes. Um eleitor pode ouvir um político sem depender da interpretação de um apresentador. Mas liberdade de comunicação também pode virar liberdade de evitar-la.

Há uma diferença entre falar diretamente com o eleitor e falar exclusivamente para ele. A primeira é democracia digital. A segunda pode virar propaganda de condomínio. O candidato percebe que seus seguidores já conhecem suas virtudes, seus inimigos e, sobretudo, os defeitos do adversário. Então começa a produzir conteúdo não para conquistar alguém, mas para confirmar alguém. É uma mudança aparentemente pequena.

Ele deixa de perguntar: “Como convenço você?” E passa a perguntar: “Como faço você compartilhar isto?” São objetivos diferentes.

E bem possível (com o benefício da dúvida) essa seja a transformação mais profunda. Durante muito tempo, imaginou-se que a campanha eleitoral fosse uma disputa por convencimento. O candidato apresentava uma proposta, explicava seu programa, respondia críticas e tentava conquistar o eleitor que estava em dúvida. Ainda é assim em parte. Mas há outra campanha acontecendo simultaneamente. Nela, o eleitor não é necessariamente alguém a ser convencido. É alguém a ser mobilizado. Não se busca transformar o adversário em eleitor. Busca-se transformar o eleitor em cabo eleitoral.

O voto deixa de ser apenas uma decisão individual e passa a funcionar como uma declaração de pertencimento. “Eu sou deste lado.” E, às vezes, isso é mais forte que:“Eu concordo com este programa.”

A ciência política já encontrou evidências de que a polarização brasileira tem componente afetivo importante. Estudos baseados em séries do Eseb e do Lapop identificaram aumento da polarização afetiva, especialmente em relação às lideranças, com forte concentração entre eleitores politicamente engajados. Isso ajuda a explicar uma curiosidade brasileira: às vezes o sujeito sabe muito pouco sobre a proposta econômica do candidato que ama e bastante sobre os defeitos morais do candidato que odeia.

É como escolher dentista pela qualidade dos inimigos. O adversário já não precisa ser derrotado no argumento. Precisa ser desqualificado como pessoa. A política começa a trocar o verbo “discordar” pelo verbo “destruir”. E isso muda tudo.

Imagine duas pessoas discutindo política. Uma acredita que o adversário está errado. A outra acredita que o adversário é mau. A primeira ainda pode mudar de ideia. A segunda terá mais dificuldade. Porque argumentos servem para ideias. Contra inimigos morais, argumentos parecem cumplicidade. É aí que entra a polarização afetiva. O problema não é simplesmente haver esquerda e direita. Democracia sem divergência seria uma coisa parecida com uma missa sem religião.

Tudo começa começa quando a identidade política passa a organizar também os sentimentos: quem merece confiança, quem merece desprezo, quem merece ser ouvido e quem deve ser ridicularizado antes mesmo de abrir a boca. Pesquisas sobre polarização no Brasil apontam justamente que o fenômeno não pode ser resumido a uma sociedade inteira radicalizada. Há polarização real, mas ela é particularmente intensa entre grupos politicamente engajados.

Ou seja: o Brasil não está dividido em duas metades perfeitamente fanáticas.Uma parte muito barulhenta do Brasil esteja dividida em duas metades perfeitamente fanáticas. Há diferença.E a internet, por sua própria lógica, não tem grande interesse em nos lembrar dela. Uma pessoa que muda de opinião raramente produz um grande espetáculo. Uma pessoa que chama o adversário de canalha produz.

O algoritmo não lê a Constituição. Lê comportamento. Se a indignação prende mais atenção, a indignação ganha espaço. Se a humilhação produz mais compartilhamento, a humilhação vira conteúdo. A tecnologia não inventou a raiva brasileira. Seria injusto atribuir ao celular aquilo que já existia no sogro durante o almoço de domingo.Mas as plataformas deram à raiva uma infraestrutura.

Há ainda outro aspécto interessante: mesmo quando o debate acontece, ele já não termina necessariamente quando a transmissão termina. O candidato pode dizer uma frase de trinta segundos e sua equipe pode transformá-la em dez vídeos.

Um ataque vira meme. Uma resposta vira corte. Uma gafe vira postagem. Uma expressão facial vira argumento. O debate, que deveria ser um lugar de confronto entre candidatos diante do público, passa a ser também uma usina de matéria-prima para as redes. Isso explica por que a ausência pode ser racional.

Se o candidato já possui audiência gigantesca, já ocupa o centro da conversa e não precisa conquistar muitos votos adicionais naquele momento, entrar num ambiente sem controle pode significar trocar uma comunicação previsível por um risco desnecessário. O cálculo é frio.Não precisa ser covardia. Pode ser estratégia. E justamente por isso a crítica moral à ausência é insuficiente. O político não está necessariamente fugindo do eleitor. Pode estar escolhendo o eleitor que considera mais importante.

Essa distinção é incômoda. Mas política é cheia delas.

O que perdemos quando ninguém precisa atravessar a ponte?

O problema institucional começa em outro ponto. Uma democracia não é feita apenas de gente falando para quem concorda. Ela depende de alguma convivência entre discordâncias. O debate televisivo tem um mérito que nenhum canal próprio reproduz completamente: ele coloca o candidato diante de pessoas que não foram escolhidas por ele. É uma situação pequena, quase doméstica, mas politicamente importante. O adversário pergunta. O jornalista insiste. O candidato responde. O eleitor compara. Durante alguns minutos, todos precisam permanecer na mesma sala. É uma experiência civilizatória modesta.

Não produz necessariamente voto. Não transforma necessariamente ninguém. Não faz milagres. Mas obriga o político a experimentar uma coisa cada vez mais rara na comunicação digital: a falta de controle.

Em 2026, o primeiro debate presidencial reuniu apenas três dos seis convidados inicialmente previstos. Os próximos encontros estão marcados para setembro e outubro, incluindo debates organizados por diferentes grupos de veículos. Paralelamente, a televisão continua tentando adaptar seu formato: a Globo, por exemplo, programou uma série de entrevistas individuais com seis presidenciáveis (e uma vasta produção de memes que a internet adora), em vez de depender exclusivamente do confronto coletivo.

É uma adaptação importante. Porque o problema não seja a televisão. É só aquela ideia das emissoras “tentando” fazer política para um eleitor que já não assiste política da mesma maneira.

E então chegamos ao paradoxo

Quanto mais meios temos para conversar, mais fácil ficou não conversar. Temos televisão. Rádio. YouTube. Instagram. TikTok. Podcasts. Lives. Grupos de WhatsApp. Canais próprios. E ainda assim podemos passar uma eleição inteira ouvindo essencialmente a mesma opinião repetida por pessoas diferentes. É a democracia do eco. A voz volta tão rapidamente que parece diálogo. Não é.

Diálogo exige a possibilidade de resposta. E resposta é justamente aquilo que a comunicação política contemporânea mais tenta controlar. O candidato que fala sozinho pode escolher a pergunta, participa de uma entrevista pode negociar o formato e concorda em performar de um debate que precisa aceitar o adversário.

É uma das hipóteses que se levanta: Os debates estão perdendo importância: ele continua sendo uma das poucas situações em que o político não consegue escolher inteiramente o mundo em que será ouvido. Mas há uma pergunta ainda mais desagradável.

Que tipo de presidente será eleito por uma campanha em que os candidatos passam cada vez menos tempo sendo obrigados a conversar com quem discorda deles?

Não temos essa resposta. Seria fácil responder que será um presidente mais polarizador. Não temos base suficiente para afirmar isso. Também seria fácil dizer que os debates não servem para nada. A história não permite tamanha certeza. Collor faltou a todos os debates do primeiro turno de 1989 e venceu. FHC faltou aos debates de 1998 e venceu. Lula faltou aos debates do primeiro turno de 2006 e foi reeleito. A ausência, portanto, não mata candidato.

A questão nunca tenha sido a sobrevivência eleitoral do candidato e sim, a saúde da conversa pública. Uma eleição pode ser vencida mobilizando os que já estão convencidos. Uma democracia, porém, precisa continuar existindo depois da eleição. E o sujeito que votou no adversário continua morando na casa ao lado.

Continua sendo seu colega de trabalho. Seu irmão. Seu cunhado, o vizinho que estaciona mal, o eleitor que ontem era inimigo volta a ser cidadão amanhã. Essa é uma das partes que a campanha esquece. O adversário não desaparece quando termina a apuração. A política começa justamente quando acaba a eleição.

E há algo de profundamente estranho numa campanha em que cada candidato dispõe de ferramentas extraordinárias para falar com milhões de pessoas e, ao mesmo tempo, encontra razões cada vez melhores para não escutar algumas delas.

Talvez os debates estejam esvaziados, ultrapassados e precisem mudar.Tudo isso pode ser verdade. Mas há uma hipótese mais desconfortável: os candidatos tenham percebido antes de nós que não precisam mais dos debates porque descobriram uma coisa que os políticos de antigamente ainda não tinham à disposição: é possível ganhar uma eleição sem entrar na sala onde está o adversário.

Basta construir uma sala maior, sem adversário, pergunta inconveniente e sem contraditório. Ou até mesmo silêncio constrangedor. E com uma plateia que já comprou ingresso antes mesmo de saber qual será o espetáculo. A democracia nunca foi exatamente um espetáculo para quem já comprou ingresso. Era, ou deveria ser, a arte desagradável de dividir a mesma sala com quem não pensa como você. Agora podemos escolher a sala, a pergunta, a resposta, até o público. Só não sabemos ainda o preço de uma eleição em que ninguém mais precisa convencer ninguém.

A cadeira vazia bem possivel que não seja o sinal de que os debates morreram. Mas sim, de que eles descobriram para que serviam. E, justamente por isso, alguns candidatos preferem não sentar. Como canta Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior: “Eu apenas queria que você soubesse!”


As opiniões expressas nesta crônica são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição do Portal 84 Noticias. As fontes mencionadas podem ser consultadas em obras de referência sobre as Eleições no Brasil.

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