GeralRepresentação do Cerrado em modelo global aprimora previsões sobre o impacto de incêndios

Representação do Cerrado em modelo global aprimora previsões sobre o impacto de incêndios

Avanço na representação do Cerrado contribui para planos de restauração, manejo sustentável e adaptação climática

O Cerrado, segundo maior bioma da América do Sul e um dos mais ameaçados do planeta, ganhou um retrato mais fiel nos modelos climáticos e ecológicos utilizados internacionalmente. Pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e do Potsdam Institute for Climate Impact Research (Alemanha) desenvolveram um novo tipo funcional de planta, chamado Tropical Broadleaved Savanna Tree (TrBS). Essa representação virtual de uma árvore típica do Cerrado aprimora simulações sobre o impacto do fogo e de outros cenários climáticos na vegetação de savana.

Publicado em 6 de janeiro na revista Biogeosciences, o trabalho considera características marcantes da vegetação do Cerrado, como as raízes profundas, que podem ultrapassar os 15 metros, e a casca mais espessa. Esses traços, definidos com base em dados de campo e extensa revisão da literatura, conferem às plantas uma notável resiliência ao fogo e à seca — e explicam a estrutura típica da “floresta de cabeça-para-baixo”, com grande parte da biomassa concentrada no subsolo.

Os resultados das simulações mostram que o novo modelo melhora a representação das dinâmicas ecológicas, do ciclo de carbono e das interações entre clima e vegetação. Além disso, passou a refletir com mais precisão a sazonalidade e a extensão das queimadas. A iniciativa foi conduzida por Jéssica Schüler, doutoranda em ecologia pela UnB, com colaboração de Mercedes Bustamante, professora titular da UnB, sua orientadora.

De acordo com Bustamante, a motivação para desenvolver um modelo específico para o Cerrado veio de uma lacuna histórica nos modelos globais. “Apesar da importância das savanas para o ciclo do carbono e da biodiversidade mundial, elas ainda são sub-representadas nas grandes ferramentas de modelagem”, conta. “O Cerrado é um hotspot ameaçado e compreender como ele responde às pressões ambientais é essencial para prever cenários futuros e apoiar a conservação”, afirma a pesquisadora.

Ao reunir informações de campo em larga escala, o modelo ganhou maior capacidade de representar a dinâmica natural da vegetação e a resposta das plantas a fatores ambientais críticos. A profundidade das raízes, por exemplo, se mostrou determinante não apenas para melhorar as simulações no Brasil, mas também em testes globais — sinalizando que estruturas subterrâneas têm papel essencial na organização de savanas em diferentes continentes.

Embora o estudo não tenha incluído simulações específicas sobre os efeitos das mudanças climáticas na frequência ou intensidade das queimadas, ele estabelece a base para que essa análise seja realizada nas próximas etapas. Com o avanço obtido, já estão sendo desenvolvidos modelos que combinam o TrBS com ferramentas mais detalhadas, o que permitirá avaliar a variação de atributos funcionais das plantas e sua resposta a eventos extremos, como seca prolongada e incêndios severos.

Além da relevância científica, modelos mais realistas permitem prever como a vegetação responde ao desmatamento, às mudanças no uso do solo e às pressões climáticas, auxiliando na formulação de planos de restauração, manejo sustentável e adaptação climática. “Compreender a resposta da vegetação a diferentes pressões ambientais nos ajuda a desenhar políticas públicas mais sólidas e alinhadas à realidade brasileira”, destaca Bustamante.

A pesquisa teve financiamento do CNPq, CAPES, INCT–Mudança do Clima e da Conservation International Foundation, além de apoio da União Europeia pelo programa Horizon 2020. A nova fase do estudo já está em andamento, com foco em expandir o entendimento sobre como mudanças climáticas e pressões humanas podem moldar o futuro do Cerrado.

DOI: https://doi.org/10.5194/bg-23-95-2026

Fonte: Agência Bori

Últimas