Nesta época em que o Brasil dá uma pausa para festejar, no espelho, olhos nos olhos, reconhecemos três inimigos n´alma. A gente encara, mas sabemos: há tempo eles nos espreitam desde as esquinas das madrugadas insones. Criamos coragem para chamar os três adversários pelo nome: fracasso, impotência e culpa.
Fracasso é sentimento, não constatação. Não é necessária qualquer derrota para alguém se sentir fracassado. Portanto, sentimento de fracasso vem com o destreino de lidar com inadequações. Depois de décadas absorvendo um discurso de perfeição, sofremos desse sentimento. A nossa fraqueza parece maior do que realmente é. Sem ter acertado alvos, o peso de incontáveis erros agride. Demandas religiosas, familiares ou sociais deixam qualquer um arfando. A fadiga de ter que dissimular inaptidões sulca rugas profundas.
Continuamos calouros, desafinamos a melodia da vida. Pisamos na bola. Perdemos belos gols a poucos metros da trave. Se acaso te entrevistarem sobre convicções, você vai gaguejar. Faço meu caminho, mas tropeço nos cadarços soltos. Obrigado a ouvir todos os dias um discurso de perfeição, arquejo. Não galguei os degraus da piedade.
E para esta tarefa, sobram pregadores da culpa, especialistas em conscientizar qualquer um sobre as exigências divinas.
Diante do espelho, despedaço o ícone que tentaram fazer de mim. Não mais o alimento. Aconselho a alma a permanecer comum. Lembro a mim e que você também possa fazer esse exercício todos os dias, mesmo que nenhuma máscara pode ficar grudada na cara quando eu estiver só. Os anos passaram. Agora, mais do que nunca, Nos vemos obrigado a admitir impotência. Para muitos, falhamos em convencer.
Vai chegando ao fim a minha alucinação de inteligência. Que bobagem nos imaginarmos genial. Nada nos chegou fácil. Aprendemos devagar. Continuamos neste periodo de festejo, esquecendo o que decoramos. Saber muito nunca nos ajudou na perspicácia. Por exemplo, fui bronco na hora de antecipar incidentes. E não soube proteger as costas das conspirações armadas para me destruir. Não intui o desenrolar dos fatos mais cruéis.
Ensinaram que erros passados voltam como bumerangue. Eu sei: o objetivo da ameaça é manter as pessoas boas. Também te ensinaram certamente: “se a maldade dos outros for grande, saiba, você é pior; quanto mais cabisbaixo você andar, maior será sua disposição de penitenciar-se; e quanto maior a penitência, mais alegria no céu”. Hoje, é preciso desconfiar destes discursos.
Depois que admitimos fracasso, impotência e culpa, façamos as pazes conosco mesmo na solidão do espelho. E faça essa pergunta todo santo dia: quem subiu o sarrafo tão alto? De onde veio a possibilidade de controlar as variáveis da existência? Qual o sentido terapêutico da culpa? Autocomiseração serve a quais interesses?
Quem mente para si mesmo nunca será livre. Ergue a cabeça. E saiba, teu valor não depende de cumprir roteiros alheios. Pisoteie o sentimento de fracasso. Procure desdenhar os acenos da vaidade. Faça de tudo para transformar a culpa em aliada.

