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Pensar Dói

Tédio, que aprendemos a evitar, é justamente o espaço onde o pensamento, a criatividade e a presença voltam a existir

O cérebro humano é um órgão curioso: só funciona quando a gente não manda. Basta sentar com postura ereta, abrir o laptop, franzir a testa e decretar solenemente “agora vou pensar”, que ele entra em greve, cruza os neurônios e pede adicional de insalubridade. Mas experimente tirar a roupa, entrar no banho e desligar o mundo: pronto. A ideia do século aparece entre o shampoo e o condicionador, e vai embora antes da toalha.

Não é milagre. É birra.

Vivemos a era do insight clandestino. As melhores ideias surgem onde não há Wi-Fi, senha, notificação nem coach. O cérebro gosta de nos surpreender exatamente quando estamos indefesos: no trânsito, lavando louça, deitados naquela posição em que a coluna não aprova, mas a alma agradece. Quando precisamos dele profissionalmente, ele prefere assistir a um gato fazendo parkour. Prioridades.

O problema é que declaramos guerra ao tédio. O tédio foi expulso da sala como um parente inconveniente, e com ele foram embora a reflexão, a criatividade e a capacidade de suportar a própria companhia. Hoje não esperamos mais o semáforo abrir: esperamos o vídeo carregar. Cinco minutos sem estímulo viraram tortura medieval. Antigamente se pensava. Agora se rola.

Somos uma civilização de polegares inquietos e mentes em repouso absoluto. Abrimos quinze abas para provar que estamos trabalhando, quando na verdade estamos apenas pulando de galho em galho atrás da próxima banana dopaminérgica. O cérebro, coitado, foi treinado como pombo de laboratório: bicou, ganhou curtida; bicou de novo, ganhou vídeo; bicou outra vez, ganhou nada, mas bicou assim mesmo, vai que.

Há quem chame isso de produtividade. Eu chamaria de coreografia do desespero.

O mais trágico é que o tédio, esse vilão injustiçado, sempre foi o escritório central da criatividade. É no silêncio que a cabeça faz faxina, encontra coisas esquecidas atrás do sofá da memória e liga pontos que jamais se encontrariam numa reunião de Zoom. O tédio é o intervalo onde a vida faz sentido. Ou pelo menos tenta.

Não à toa, quando ficamos sozinhos com nossos pensamentos, entramos em pânico. Descobrimos que talvez não saibamos exatamente o que estamos fazendo aqui, nem por quê. E ninguém quer descobrir isso sem um filtro bonito. Então corremos para o celular como quem corre para um bar aberto às oito da manhã: não é sede, é fuga.

Preferimos um choque elétrico a quinze minutos de nós mesmos. É compreensível. Conviver consigo exige coragem, e hoje só vendem coragem em cursos parcelados em doze vezes.

Mas há uma ironia cruel nisso tudo: ao evitar o tédio para não sofrer, acabamos sofrendo mais. Ansiedade, depressão, vazio existencial com entrega expressa. Eliminamos o silêncio e ficamos surdos para o que importa. Perdemos o hábito de pensar e depois reclamamos que pensar cansa.

Talvez a solução seja radical: não fazer nada. Nada mesmo. Não “nada produtivo”, não “nada estratégico”. Nada. Sentar. Olhar a parede. Escutar o próprio pensamento tentando fugir e trazê-lo de volta pela coleira invisível da paciência. No começo dói. Depois passa. E, de repente, surge uma ideia, dessas que não cabem num story.

Nossos avós chamavam isso de vida. Não sabiam tudo o que acontecia no mundo, mas sabiam o que acontecia dentro deles. Tinham tempo para o café, para o pôr do sol, para o silêncio constrangedor que vira conversa boa. Não eram mais felizes por ignorância, eram mais felizes por presença.

Talvez recuperar a humanidade não seja instalar um aplicativo novo, mas desinstalar alguns. Talvez o futuro da inteligência seja reaprender a ficar entediado. Porque quem foge do tédio foge de si e ninguém consegue se perder tantas vezes sem esquecer onde mora.

Desligue o telefone. Fique quinze minutos com você. Se não gostar, tudo bem. A maioria não gosta mesmo. Mas é aí que moram as ideias que prestam.

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