A eleição de 2026 terminou o primeiro turno com uma curiosidade pouco original: o país continua dividido entre nomes que prometem mudança e nomes que prometem impedir a mudança do outro.
Na disputa presidencial, 13 chapas chegaram à urna. Lula tentou a reeleição. Flávio Bolsonaro estreou na corrida presidencial. Outros candidatos disputaram espaço entre os dois polos. Esse ano, a eleição voltou a uma velha especialidade brasileira: transformar eleição em campeonato de rejeição. Não é pouca coisa.
Mais de 155 milhões de eleitores foram chamados a fazer seis escolhas: deputado federal, deputado estadual ou distrital, dois senadores, governador e presidente. A democracia brasileira resolveu testar a memória do eleitor como quem aplica uma prova surpresa. A Justiça Eleitoral, compreensiva, permite a famosa colinha. O curioso é que a política não precisa de colinha. Ela já vem decorada.
Em 1986, o Plano Cruzado congelou preços. O brasileiro virou fiscal de supermercado. Depois vieram Bresser, Verão, Collor e o confisco da poupança. Em 1994, o Plano Real finalmente conseguiu aquilo que parecia impossível: fazer a inflação deixar de ser assunto de conversa na fila do supermercado. Por algum tempo, o futuro chegou. Mas foi embora sem avisar.
Vieram mensalão, Lava Jato, impeachment, polarização, Bolsonaro, Lula outra vez. Cada eleição anunciou o nascimento de uma nova política, geralmente acompanhada dos mesmos velhos personagens, dos mesmos acordos e de algumas promessas que já deveriam ter tempo suficiente de contribuição para se aposentar.
- Maurício Neves garante novo mandato como deputado federal por São Paulo
- Sete estados realizarão segundo turno nas eleições para governador
- Erika Hilton é a mulher mais votada da história para a Câmara com 1,5 milhão de votos em SP
- Flávio Bolsonaro e Lula avançam para o segundo turno da eleição
- Tarcísio de Freitas derrota Haddad e é reeleito governador de São Paulo com 62,8% dos votos no domingo (4)
A velha política tem uma vantagem sobre os políticos novos: experiência. Ela sobrevive. Troca de partido, de discurso, de uniforme e até de inimigo. Mas sobrevive.
Em 2018, Bolsonaro foi eleito como ruptura. Em 2022, Lula voltou à Presidência. Em 2026, o país novamente chegou à urna com os dois campos políticos organizados em torno de seus nomes e heranças. O que parecia uma página nova começou a se parecer com uma edição revisada de um livro conhecido. Só faltou mudar a capa. E há algo ainda mais curioso.
Os candidatos de 2026 reconhecem que o Brasil precisa enfrentar o problema fiscal. Divergem sobre o tamanho do ajuste e sobre como fazê-lo, mas o assunto voltou à mesa: dívida pública, despesas obrigatórias, Previdência, regra fiscal, renúncias tributárias. O problema é que, na campanha, detalhar como pagar a conta pareceu menos popular do que prometer que alguém pagará. É uma tradição nacional. O país descobre a conta depois de encomendar o jantar.
A eleição também mostrou a força dos políticos profissionais. Nos estados, candidatos experientes e estruturas partidárias consolidadas ganharam espaço, enquanto o PL avançou em várias disputas. A chamada renovação, tão festejada em outros ciclos eleitorais, desta vez pareceu menos interessada em renovar a sala e mais em escolher quem ficaria sentado nas cadeiras antigas. Talvez seja injusto cobrar novidade da política.
A política é feita por seres humanos. E eles, têm o péssimo hábito de levar seus velhos problemas para casas novas. O Brasil, então, segue fazendo eleições como quem troca de calendário esperando que o ano novo conserte o ano velho.
Não conserta. A inflação foi domada, mas o fantasma da conta pública continua aparecendo. A corrupção já produziu operações gigantescas, prisões, delações e discursos históricos, mas continua sendo promessa obrigatória de campanha. A polarização mudou de protagonistas, mas não de método. A “nova política” envelheceu. E a velha política descobriu a fonte da juventude: basta trocar o slogan.
Talvez seja esse o verdadeiro drama brasileiro. Não faltarão candidatos prometendo futuro. Mas sim, gente disposta a explicar o presente sem vender um passado como novidade. Porque o país não precisa necessariamente ser uma potência, líder mundial ou país do futuro. Essas coisas já foram prometidas tantas vezes que deveriam vir acompanhadas de certificado de garantia.
Seria suficiente que certas promessas não precisassem voltar a cada eleição. Que o problema resolvido não precisasse ser redescoberto. Que a reforma adiada não precisasse esperar uma crise para reaparecer. Que o eleitor não precisasse escolher entre a nostalgia de um lado e o medo do outro. E que a política brasileira descobrisse uma inovação verdadeiramente revolucionária: não repetir.
É pedir pouco. Para um país acostumado a prometer o futuro, talvez seja até uma extravagância. Mas há uma vantagem. O futuro ninguém sabe se vem.
O passado, no Brasil, já aprendeu o caminho. E continua voltando.

