“Estuda, filho. Passa no vestibular. Faz uma faculdade. Só assim você vai ser alguém na vida.”
Quem nasceu entre os anos 1980 e o comecinho dos anos 2000 com certeza ouviu essa frase e não foi uma vez só, não. Vinha dos pais, dos avós, dos professores, até daquele vizinho intrometido que adorava dar palpite na vida alheia. E sabe o que é pior? Parecia uma verdade absoluta, daquelas que você nem cogita questionar. Tipo “água molha” ou “fogo queima”.
E aí, o que a gente fez? Acreditou. Foi lá e fez o dever de casa direitinho.
Estudou que nem louco. Virou noite, matou fim de semana, adiou rolê, deixou namoro esfriar, pegou ônibus lotado até não aguentar mais, aceitou estágio que pagava menos que um salário mínimo, viveu de café frio e apostila xerocada. Teve gente que passou a adolescência inteira com aquela sensação chata de que a vida “só ia começar depois do diploma”.
Era tipo um pacto: você dava o seu melhor, e o país ia dar o melhor dele. Só que… ninguém avisou que esse contrato tinha sido rasgado enquanto a gente ainda tava na fila do xerox.
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Hoje em dia, é cada vez mais comum você trombar com um advogado dirigindo Uber, engenheiro entregando pizza no iFood, administrador brigando por vaga de atendente em loja de departamento, jornalista aceitando qualquer trampo que apareça só pra pagar o aluguel no fim do mês. Enquanto isso, uma multidão de brasileiros tá colocando todas as fichas no concurso público, como se fosse a última tábua de salvação num mar de incerteza.
E olha que não foi por falta de esforço, viu? Foi porque o país mudou de endereço enquanto essa galera ainda tava lá, de cabeça baixa, estudando.
Como é que nasceu essa promessa?
Pra entender por que tanta gente se sente enganada, você precisa lembrar como era o Brasil lá nos anos 1990. Entrar na faculdade nunca foi moleza, mas naquela época era muito mais que difícil: era um privilégio de poucos, saca?
No início da década, menos de 6% dos jovens entre 18 e 24 anos tavam no ensino superior. E a maioria vinha de família com grana. Se você cresceu na periferia ou no interior, faculdade parecia coisa de novela – existia, mas na vida dos outros.
E tinha motivo prático, viu? O Enem nem existia como a gente conhece. Cada faculdade fazia seu próprio vestibular. Cada uma cobrava uma taxa, cada uma tinha sua lista de livros, cada uma marcava a prova num dia diferente. Se você quisesse tentar UnB, USP, UFRJ e UFMG, tinha que desembolsar grana pra quatro inscrições, quatro viagens, hospedagem, comida e uma pilha de livros diferentes. Antes mesmo de responder a primeira questão, muita gente já tava fora pelo preço da brincadeira.
E mesmo quem ficava no próprio estado, esbarrava em outro obstáculo: as escolas públicas, na maior parte do país, simplesmente não preparavam os alunos praquele tipo de prova. Foi aí que os cursinhos cresceram e viraram uma máquina de fazer dinheiro. Eram bons, sim, mas custavam os olhos da cara. Pra maioria das famílias brasileiras, era um sonho distante.
Na prática, a universidade pública acabava sendo ocupada principalmente pelos filhos de quem podia pagar a melhor preparação. Não era uma regra absoluta, claro. Sempre teve aquelas histórias de superação, de aluno que veio do nada e passou em medicina. Mas justamente por serem raras, essas histórias viravam lendas. Pra maioria dos jovens trabalhadores, entrar numa federal parecia menos um projeto de vida e mais um golpe de sorte.
Aí as coisas começaram a mudar…
Devagar, mas começaram. Não foi do dia pra noite, nem por causa de uma política só. Foi uma combinação de coisas que, olhando pra trás, mudou completamente o jogo.
O primeiro passo foi em 1998, com a criação do Enem. No começo, ninguém viu aquilo como revolução, era só um teste pra medir o ensino médio. Ficou nessa durante uns anos.
A virada de verdade veio em 2009, com o Sisu. De repente, a nota do Enem virou passaporte pra universidade pública do país inteiro. Um estudante do interior de Goiás podia disputar vaga em medicina no Pará ou engenharia no Rio Grande do Sul sem precisar viajar o Brasil inteiro só pra fazer prova. Hoje parece óbvio, mas na época foi uma virada de chave e tanto.
A geografia, que por décadas foi uma barreira, começou a perder força.
Ao mesmo tempo, vieram outras iniciativas. O Prouni abriu bolsas em faculdades particulares. O Fies foi reformulado e passou a oferecer condições melhores. Pra muita gente, foi a primeira chance real de sonhar com uma graduação sem depender do dinheiro da família.
As federais também cresceram. Com o Reuni, novos campi pipocaram pelo país, cursos surgiram em cidades que nunca tinham visto uma federal, e o número de vagas disparou. Em muitos lugares, a chegada de uma universidade mudou a cidade inteira – vieram estudantes, professores, restaurantes, repúblicas, livrarias, ônibus. O ensino superior deixou de ser coisa de capital.
Mas a mudança mais silenciosa veio da internet
Ela não democratizou só a informação, mas o caminho até ela.
Quem antes dependia só do material dos cursinhos caros, passou a encontrar videoaulas de graça, apostilas compartilhadas, fóruns de discussão, comunidades inteiras trocando conhecimento. O monopólio da preparação começou a rachar. Claro que a desigualdade continuou, claro que tinha gente com muito mais estrutura. Mas, pela primeira vez, um aluno pobre conseguia acessar o mesmo conteúdo que antes só chegava a quem podia pagar.
O ensino a distância também deu sua contribuição, mesmo que até hoje carregue um certo preconceito. Ele permitiu que trabalhador estudasse depois do expediente, mãe com filho pequeno fizesse faculdade, gente do interior tivesse acesso a uma graduação sem largar o emprego ou a família.
Foi assim que o perfil do universitário brasileiro mudou. Em pouco mais de duas décadas, o país saiu de cerca de 3 milhões de estudantes no ensino superior pra mais de 8 milhões. Pela primeira vez, filhos de pedreiros, empregadas domésticas, motoristas, balconistas e pequenos comerciantes ocuparam um espaço que antes parecia inalcançável.
Era difícil não enxergar isso como um avanço. E era, sim. O problema é que, enquanto o Brasil abria as portas da faculdade, outra coisa acontecia no silêncio…
A economia seguia outro rumo
A indústria perdia fôlego, investimentos diminuíam, obras enormes eram paralisadas, setores inteiros deixavam de crescer no ritmo necessário pra absorver tanta gente qualificada saindo das faculdades. O país formava cada vez mais profissional, mas criava cada vez menos vaga compatível com essa formação.
Essa contradição não apareceu de uma hora pra outra. Foi se acumulando. No começo, parecia um ajuste passageiro. Depois virou tendência. Quando a galera percebeu o que tava rolando, já tinha uma geração inteira segurando o diploma e procurando um mercado que, sem fazer alarde, tinha encolhido.
O investimento em educação tinha dado resultado, sim. O problema é que o país pra onde essas pessoas foram preparadas já não era mais o mesmo.
O reflexo apareceu onde ninguém esperava
Por décadas, algumas profissões pareciam ter um caminho mais ou menos certo: Direito, Engenharia, Administração, Arquitetura, Jornalismo. Bastava formar, tirar o registro quando precisasse e começar a construir a carreira. Não era garantia de riqueza, mas dava pra ter uma expectativa razoável de trabalho.
Essa expectativa foi sumindo aos poucos.
O Direito é o exemplo mais clássico. O Brasil expandiu tanto a oferta de cursos que hoje tem mais faculdades de Direito do que muitos países juntos. Formar-se deixou de ser diferencial – virou só o primeiro degrau de uma escada cada vez mais concorrida. Hoje tem uma multidão de jovens advogados brigando por cliente, muitas vezes aceitando honorários que mal pagam a anuidade da OAB. E outros nem conseguem advogar – acabam em funções administrativas ou comerciais, onde o diploma é só mais uma linha no currículo.
Na Engenharia, a frustração veio por outro caminho.
Durante anos, todo mundo repetiu que o país ia precisar de engenheiros pra crescer. Muita gente acreditou nisso e escolheu a profissão olhando pra esse horizonte. Só que o cenário mudou. A desaceleração econômica, a falta de investimento público e privado, a paralisação de grandes obras – tudo isso encolheu justamente o mercado que deveria absorver essa galera. O diploma continuava o mesmo. O país é que já não oferecia o espaço prometido.
E isso atingiu todo mundo: administradores, arquitetos, professores, jornalistas, designers, economistas. Cada área teve suas particularidades, mas quase todas passaram a conviver com o mesmo fenômeno: tinha muito mais gente preparada do que vaga compatível.
Aí veio o golpe mais cruel
As vagas de entrada começaram a sumir.
Quem saía da faculdade encontrava anúncio pedindo dois, três, até cinco anos de experiência. Um paradoxo dos infernos: pra conseguir a primeira oportunidade, você já precisava ter trabalhado antes. E quando alguma empresa topava contratar um recém-formado, oferecia um salário que não fazia justiça ao tempo e dinheiro investidos na formação.
Era como pedir pra alguém começar a caminhada já no meio da estrada. Muita gente simplesmente ficou sem porta de entrada.
Foi nesse vazio que os aplicativos cresceram. Uber, iFood, e todo esse mundo do trabalho sob demanda. Não porque milhões de brasileiros sonhassem em viver disso – na maioria dos casos, foi adaptação. Quando o mercado formal não te absorve, as alternativas viram menos escolha e mais sobrevivência.
A tal da uberização não nasceu só da tecnologia. Ela encontrou um terreno fértil num país que formava mais profissionais do que conseguia empregar.
Nunca tivemos tanta gente estudando. Nunca produzimos tantos diplomas. Nunca se falou tanto em qualificação profissional. Ao mesmo tempo, nunca foi tão comum encontrar gente altamente capacitada trabalhando muito abaixo do que estudou anos pra fazer.
Não por falta de competência. Não por falta de esforço. Mas porque o mercado parou de crescer no mesmo ritmo que os sonhos alimentados dentro das salas de aula.
Renato Russo cantou certa vez em “Duas Tribos”, do album “As quatro estações”: O Brasil é o país do futuro”, e eu penso e imediatamente respondo: Até quando, poeta?
Fontes que respaldam essa conversa (porque nem tudo é achismo): IBGE (PNAD Contínua), IPEA (Síntese de Indicadores Sociais, 1995), INEP (Censo da Educação Superior), Organização Mundial da Saúde.

