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A geração que fez o dever de casa

Fizeram tudo certo, na ordem certa, e mesmo assim chegaram tarde demais para um país que já tinha mudado de endereço

“Estude e garanta o seu diploma para que possa ser alguém na vida.” Toda uma geração cresceu ouvindo essa frase, ou uma variação dela, na boca dos pais. E fez o que foi pedido. Estudou. Abriu mão de tempo, de sono, às vezes de uma infância inteira, para chegar ao papel que prometia tudo. Virou, nesse caminho, a geração mais qualificada da história do país.

O resultado veio diferente do combinado. Isso todo mundo já sabe, mas vale reconstruir como se chegou até aqui.

Em vez da estabilidade prometida, um colapso. De um lado, o sumiço das vagas de nível júnior: advogado e engenheiro recém-formado entregando comida, dirigindo para aplicativo. Do outro, milhões de gente disputando cotovelo a cotovelo uma das poucas rotas de fuga que ainda restam: o concurso público.

Como era o Brasil que criou essa promessa

Para entender a frustração de agora, é preciso voltar à década de 90. O ensino superior brasileiro sempre foi um território elitizado. Mas naquela época era, além disso, uma fortaleza pensada, na prática se não na intenção, para deixar a classe trabalhadora do lado de fora. No início dos anos 90 menos de 6% dos jovens entre 18 e 24 anos estavam matriculados numa faculdade. Entre os poucos que ocupavam essas cadeiras, três em cada quatro vinham da parcela mais rica da população. Para a maioria, universidade não era plano de vida. Era ficção, e ponto.

Havia um motivo logístico bem concreto por trás disso. Não existia prova única. Cada universidade tinha seu próprio vestibular, com data própria, taxa própria, lista de livro própria. Um aluno que quisesse tentar UnB, USP, UFRJ e UFMG ao mesmo tempo precisava pagar três inscrições, comprar três passagens, bancar hospedagem, ler dezenas de livros diferentes só para chegar à sala de prova. O custo eliminava o candidato pobre antes mesmo de a prova começar. E quem ficava no próprio estado não escapava fácil: a prova cobrava um conteúdo que a escola pública simplesmente não ensinava. Daí a indústria do cursinho pré-vestibular: artigo de luxo, mensalidade que só família de renda alta bancava. Universidade pública, financiada com imposto de todo mundo, virou na prática área vip para filho de gente rica.

O Estado tentou corrigir o rumo, aos poucos. Em 1998 nasceu o Enem, no começo só um exame de diagnóstico, quase burocrático. Em 2009 ele virou outra coisa: com a criação do Sisu, passou a funcionar como o maior vestibular do país. De repente a geografia deixou de ser obstáculo. Um jovem do interior de Minas podia disputar medicina no Pará com a mesma nota, sem sair de casa. Vieram o Prouni, trocando isenção fiscal por bolsa em faculdade privada, e o Fies reformulado, com o governo bancando crédito estudantil a juros baixos. O Reuni injetou dinheiro pra dobrar vaga nas federais. E por cima de tudo isso, a internet, que não mudou só a comunicação, mudou o acesso ao conhecimento em si. Fórum, PDF compartilhado, aula grátis no YouTube quebraram o monopólio dos cursinhos de elite. O EAD, regulamentado, deixou quem batia ponto até as seis da tarde estudar de noite, no sofá de casa, sem precisar largar o emprego.

O Brasil passou de 3 milhões de universitários no início dos anos 2000 para mais de 8 milhões. Pela primeira vez, filho de pedreiro e de empregada doméstica seguravam diploma na mão.

Só que, enquanto a população se qualificava para o futuro, o país andava para trás. A economia passou por um processo de desindustrialização, encolheu, e o mercado de trabalho deixou de ter vaga para todo mundo que se formava: simples assim, embora ninguém tenha avisado a tempo.

As profissões que antes eram sinônimo de sucesso foram as primeiras a sentir o peso da saturação. O Brasil abriu tanto curso de direito que hoje tem mais faculdade de direito do que o resto do mundo somado. Resultado: uma legião de advogado recém-formado disputando honorário que mal cobre a anuidade da OAB. Quando não termina como assistente administrativo, com bacharelado pendurado na parede do quarto dos fundos. Na engenharia o choque foi parecido, talvez pior. A geração convocada para “construir o país” esbarrou na paralisação da construção civil e no fim dos grandes incentivos federais. Diploma que garantia emprego imediato dez anos antes virou quadro decorativo.

Isso criou um fenômeno mais discreto, mas talvez mais cruel: o desaparecimento das vagas de nível júnior. As empresas que sobreviveram à crise passaram a pedir experiência de quem estava começando: pagando salário de quem está começando, vale repetir. Administrador, professor, arquiteto, jornalista foram empurrados pra beirada da economia formal. Foi nesse vácuo que a uberização encontrou seu exército perfeito.

O concurso como bote salva-vidas

Tem um eco que a gente ouve nos jornais há anos: mercado de tecnologia desesperado por mão de obra, dizem. A ideia vendida é simples: aprenda a programar, monte um portfólio decente no GitHub, e as empresas disputam você a tapa. Bonito. Na base da pirâmide a história é outra. Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE, processados por consultorias econômicas, cerca de 40% dos brasileiros com ensino superior ocupam função que não exige diploma nenhum. É o estudante de direito trabalhando de office boy pra pagar boleto. É o formado em administração atendendo balcão de loja, ou lidando com papelada de cartório.

Quando o diploma não abre porta na iniciativa privada, e o subemprego vira regra, sobra uma instituição que ainda não pede experiência prévia. Só uma nota num papel. O Estado. A geração ensinada a inovar e empreender passou a tomar litro de café de madrugada estudando direito previdenciário e administrativo. No último concurso do INSS, mais de um milhão de pessoas disputaram mil vagas: mil candidatos por cadeira, pra quem gosta de fazer conta. O concurso nacional unificado, recém-criado, atraiu mais de dois milhões de inscritos. Ninguém corre assim por paixão súbita pelo serviço público. Corre porque virou bote salva-vidas, a única fronteira onde a meritocracia do estudo ainda parece valer alguma coisa.

Quem não escolhe essa rota se atira na roleta mais imprevisível dos nossos tempos: a economia da atenção. Câmera, roteiro, edição de vídeo, a briga diária contra o algoritmo. Virou ferramenta de trabalho pra uma parte dessa geração. E é aí que a fratura fica difícil de engolir. Não por rancor de quem deu certo na internet. Pela comparação bruta entre esforço e resultado. Cinco anos de faculdade, tese defendida, dívida do Fies no pescoço, pra um salário que mal cobre o aluguel, enquanto um vídeo viral pode render, num mês só, o que um engenheiro levaria dez anos pra juntar. A sensação geral é a de ter sido enganado. Olhar no espelho e perceber que a meritocracia do diploma não existe mais nesse mundo novo que ninguém ensinou a navegar.

O Censo da Educação Superior confirma: essa geração cumpriu a parte dela do acordo. O país bate recorde histórico de formandos, mais de 1,2 milhão de novos diplomados por ano. Somos, disparado, a geração mais especializada e mais certificada da história do Brasil. Isso devia contar pra alguma coisa.

A conta chegou e não é financeira. É psicológica, e essa ninguém parcela. Tem gente trabalhando abaixo da própria capacidade de dia e brigando por vaga pública de noite, num mar de milhões de concorrentes que estudaram a mesma apostila. O IBGE e a PNAD fazem questão de documentar a fratura com aquele zelo estatístico de quem não precisa sentir na pele: milhões de formados na informalidade, sem carteira assinada, sem férias, sem décimo terceiro, sem nada que se pareça com garantia.

Não é à toa que a OMS nos deu o título de país mais ansioso do planeta. Troféu que a gente não disputou, mas ganhou assim mesmo. Some desemprego crônico, subemprego humilhante, madrugada estudando pra concurso quase impossível e mais a pressão de umas telinhas que nunca dormem, e o resultado é uma geração recordista em burnout e depressão. Recorde que ninguém comemora, mas também ninguém nega.

O cansaço, esse, deixou de bater ponto. Antes era coisa de fim de expediente; virou expediente permanente, traço de personalidade, quase sotaque, que dá pra reconhecer um brasileiro dessa geração só pelo jeito de suspirar.

Fizeram, ao pé da letra, tudo o que o manual mandava. Estudaram, se especializaram, lotaram plataforma de EAD até de madrugada, se prepararam com aplicação de aluno nota dez para o mercado do futuro. Só esqueceram de avisar que o futuro para o qual se preparavam era de um Brasil que, no meio do caminho, discretamente, deixou de existir.

Fontes consultadas: IBGE (PNAD Contínua), IPEA (Síntese de Indicadores Sociais, 1995), INEP (Censo da Educação Superior), Organização Mundial da Saúde.

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