Francisco Everardo Oliveira Silva confessou que não sabia. Prometeu descobrir depois, caso fosse eleito. 1.353.820 brasileiros acharam a proposta razoável. Tiririca foi o deputado federal mais votado do país. Era uma época em que o eleitor ainda precisava de um palhaço para lembrar que a política já tinha bastante palhaçada.
Dezesseis anos depois, o palhaço voltou para casa. Nasceu em Itapipoca, no Ceará, em 1965. Vive no picadeiro desde os oito anos. Teve circo, incêndio, carona para Fortaleza, disco milionário e, depois, Brasília. Agora recebeu 5.523 votos. A diferença entre os dois números é tão grande que quase parece uma anedota mal contada. Mas não é. É eleição. Tiririca não perdeu a graça. A graça é que mudou de endereço.
Em 2010, ele era novidade. Um homem vestido de palhaço entrando num ambiente em que quase todo mundo já se comportava como personagem. A diferença é que ele não o escondia. Seu slogan era uma espécie de sinceridade involuntária: pior do que estava não ficaria. O eleitor comprou. E não foi pouco. Comprou em quantidade industrial.
Tiririca entrou na Câmara carregando votos suficientes para ajudar a eleger outros candidatos pelo quociente eleitoral. Em 2014, ainda passou de um milhão de votos. Em 2018, caiu para 453.855. Em 2022, para 71.754. Na eleição seguinte, 5.523. Há quedas eleitorais que parecem pesquisa de intenção de voto. Essa parece elevador despencando.
Chegou a perder o número 2222 para Eduardo Bolsonaro em 2022. Disse que a troca ajudara a levar parte de seus votos embora. Pode ser. Número de candidato, no Brasil, às vezes tem a mesma importância que nome de banda de axé: precisa ser fácil de cantar. Depois veio a tentativa de recomeço.
- Erundina, aos 91 anos, é a deputada estadual mais velha eleita em 2026
- Banco Central cria indicador para monitorar reajustes salariais negociados
- Estado de Goiás promove leilão com mais de 140 veículos neste mês
- IgesDF abre seleção para seis áreas com salários de até R$ 16 mil
- Daniel Vilela mantém foco na gestão e impulsiona ações prioritárias
Em novembro de 2025, deixou o PL, entrou no PSD a convite de Domingos Neto, transferiu o domicílio eleitoral para o Ceará e anunciou que pretendia fazer um mandato sério. Sem palhaçada. Era a promessa mais curiosa de sua carreira. O palhaço prometendo ser sério. Mas talvez fosse justamente isso que o eleitor já não quisesse.
Tiririca passou anos sendo uma espécie de corpo estranho dentro da política profissional. E, curiosamente, fez uma coisa que muitos profissionais não conseguem fazer: apareceu. Até 2016, acumulou 612 sessões consecutivas sem faltar. Não é pouca coisa. Seu problema não foi exatamente a ausência. Foi a fala. Em dezesseis anos de Câmara, fez seis discursos. Seis.
Há político que precisa de seis discursos para explicar por que não fez nada na semana. Tiririca precisou de dezesseis anos para fazer seis. Nenhum projeto de sua autoria virou lei sancionada. O projeto que incluía o circo na Lei Rouanet passou pela Câmara em 2017, mas acabou arquivado no Senado.
Talvez tenha descoberto: deputado fala muito e é uma das poucas coisas que não exige resultado. Suas primeiras palavras ao microfone depois de cinco anos de silêncio foram para votar pelo impeachment de Dilma Rousseff. Disse que votava pelo bem do país.
Até o palhaço, quando fala pouco, acaba encontrando um assunto sério. A história de Tiririca também ajuda a entender por que sua eleição de 2010 foi tão particular. Antes da política, havia o circo.
Um circo pequeno, de nove artistas, que pegou fogo no interior do Maranhão nos anos 1990. Tiririca voltou para Fortaleza de carona. Depois veio Florentina, que vendeu cerca de 1,5 milhão de cópias. Era um sujeito que já tinha aprendido uma coisa que político profissional costuma levar uma eleição inteira para compreender: o público não é obrigado a gostar daquilo que você considera importante. O público decide. E vai embora quando quiser.
Na primeira candidatura, o Ministério Público tentou impedir sua entrada na política por suspeita de analfabetismo. Tiririca fez um teste de leitura. Passou. A Justiça Eleitoral exige que o candidato não seja analfabeto absoluto. É uma exigência curiosa num país em que ninguém precisa demonstrar que entende de orçamento, Constituição, administração pública ou sequer do cargo para o qual está pedindo voto.
Basta saber ler. Entender é outra eleição. Tiririca, portanto, entrou pela porta da frente. O eleitor o colocou lá. Não foi acidente. Não foi fraude. Não foi invasão. Foi voto.
E é o que incomode tanto quando se olha para aquela eleição hoje. Tiririca não enganou ninguém. Ele avisou. Disse que não sabia o que fazia um deputado. Prometeu descobrir. O eleitor respondeu: vá. É difícil encontrar contrato eleitoral mais transparente. O problema é que a política brasileira mudou depois. Ou talvez tenha apenas aperfeiçoado aquilo que Tiririca inaugurou. A celebridade virou método. O bordão virou programa. A indignação virou profissão. O número virou marca.
A internet transformou qualquer pessoa com audiência em candidato em potencial. O palhaço deixou de ser exceção. E, quando todo mundo pode fazer política como entretenimento, o palhaço profissional perde uma parte importante de sua vantagem competitiva. Tiririca chegou à política como novidade. Hoje a novidade é justamente não precisar mais de Tiririca. A piada se profissionalizou.
Por isso os 5.523 votos no Ceará talvez digam mais sobre o Brasil atual do que os 1.353.820 de 2010. Em 2010, o eleitor parecia dizer:
— Já que vocês não levam isso a sério, vamos colocar um palhaço aí.
Em 2026, talvez tenha descoberto que nem isso era necessário. O país conseguiu produzir sua própria comédia. Tiririca voltou para casa. O circo continua. Só não se sabe mais quem está trabalhando nele.

