Há amizades que começam com um café. Outras, com uma indicação. E há aquelas que começam com um pedido insistente a um ex-ministro para apresentar você a uma das figuras mais importantes do Brasil.
Daniel Vorcaro, segundo suas próprias propostas de delação, parecia pertencer à terceira categoria. Queria conhecer Alexandre de Moraes. Admirava o ministro. Considerava-o importante. Pediu encontros. Insistiu. Tentou, como escreveu a si próprio na tentativa de explicar a situação aos investigadores, “forçar uma relação”. A expressão é excelente.
Há coisas que, quando precisam ser forçadas, talvez não sejam exatamente relações. São, no máximo, portas. E porta de autoridade, como se sabe, tem maçaneta de um lado só. Depois veio o escritório. Vorcaro precisava de bons advogados. Procurava os melhores e mais influentes, segundo seu relato. E, como aparentemente também pretendia se aproximar do ministro, teve a ideia de contratar o escritório da esposa de Moraes. Nada de mais, diria a burocracia. É apenas advocacia.
E, a vida real tem o péssimo hábito de aparecer justamente quando o contrato está sendo redigido. Foram dois contratos, segundo os documentos analisados pela Polícia Federal: um de R$ 130 milhões e outro de R$ 50 milhões, este prevendo ainda a dação de cotas de uso de aeronaves para a família do ministro. Cinquenta milhões, mais aviões.
É o tipo de relação profissional que faz a gente sentir saudade de quando o máximo de conflito de interesses era o primo do dono da gráfica fazer o orçamento do calendário da firma. Vorcaro explicou que emprestou aeronaves à família porque estava preocupado com a segurança de Viviane Barci e de sua família, em um momento de extrema exposição. É uma justificativa bonita. Tão bonita que quase nos faz esquecer que avião particular é uma coisa muito maior do que levar alguém para tomar um cafezinho.
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Aliás, talvez seja esse o problema das palavras. A gente inventa uma palavra elegante e, de repente, a coisa fica elegante também. “Empréstimo.” “Consultoria.” “Segurança.” “Relação.” “Modo jocoso.”
O vocabulário é uma espécie de maquiagem da realidade. Funciona particularmente bem quando a realidade não está muito interessada em colaborar. O banqueiro também explicou aos investigadores que algumas mensagens sobre pagamentos ao escritório eram apenas uma maneira jocosa de conversar.
Jocosa.
A palavra tem uma vantagem extraordinária: consegue transformar qualquer situação em brincadeira sem precisar contar a piada. Vorcaro reclamava que o pagamento não havia sido feito. Fábio Faria, segundo a matéria, avisava: “O careca não pode atrasar.” E Vorcaro cobrava um auxiliar: “Contrato mais importante que temos.” Talvez o humor brasileiro tenha evoluído. Antigamente, para fazer uma piada, era necessário ter graça. Agora basta chamá-la de “modo jocoso”.
Mas talvez o detalhe mais curioso esteja nas mensagens trocadas às vésperas da prisão. Segundo o relatório da PF, Moraes e Vorcaro usavam um método peculiar para conversar: escreviam no bloco de notas do celular, faziam uma captura da tela e enviavam a imagem para visualização única. É uma tecnologia bastante moderna. Tão moderna que parece ter sido inventada para resolver um problema muito antigo: “Isso aqui não pode ficar registrado.” O método tinha ainda uma vantagem adicional: a Polícia Federal conseguiu recuperar as mensagens de Vorcaro, mas não as respostas de Moraes.
É a versão digital do diálogo em que um sujeito escreve uma carta, manda para o outro, e só sobra a carta do primeiro. A diferença é que, antigamente, pelo menos havia uma gaveta. Nas mensagens, Vorcaro perguntava sobre busca e apreensão, quebra de sigilo, juiz, PGR, Polícia Federal. Perguntava se havia alguma chance de alguma coisa acontecer no dia seguinte. Perguntava se já deveria estar fora. E, na véspera da prisão, ainda perguntou: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?” Não é exatamente o tipo de mensagem que se manda para alguém para perguntar se vai chover.
Embora, dependendo da meteorologia institucional brasileira, talvez seja. O ponto mais desconfortável de toda essa história não é necessariamente descobrir quem tinha razão em cada conversa. É perceber como as palavras vão tentando acompanhar os fatos depois que os fatos já correram na frente. A proposta de delação descreve uma relação que parece quase unilateral: Vorcaro admirava Moraes, insistia, mandava mensagens inconvenientes e recebia apenas manifestações genéricas de apoio.
As mensagens recuperadas pela PF, por outro lado, sugerem uma interação mais profunda. E é justamente aí que nasce a pergunta que nenhuma nota de assessoria consegue resolver:
quando uma relação é apenas uma relação profissional, por que tanta energia é necessária para explicar que ela era apenas profissional?
Não estou dizendo que uma resposta seja necessariamente uma acusação. Estou dizendo que perguntas também têm direito à existência. Principalmente quando custam milhões. Há ainda o detalhe de que Moraes teria participado de conversas relacionadas ao contrato do escritório da própria esposa e, segundo a PF, uma mensagem indica que ele teria editado a versão final do contrato. O escritório afirma que o ministro foi consultado sobre eventuais impedimentos legais e que não havia impedimento, porque ele jamais julgara causa envolvendo o Banco Master.
Tudo aparentemente dentro da legalidade. Eis outra maravilha do mundo moderno: às vezes a legalidade consegue caber perfeitamente dentro de uma situação que continua parecendo esquisita. Legalidade e estranheza não são necessariamente inimigas. Podem morar no mesmo apartamento.
Agora o plenário do Supremo deve decidir se abre investigação sobre a relação entre Moraes e Vorcaro. É uma situação curiosa. O tribunal que costuma investigar os limites das instituições terá de investigar, talvez, os limites das relações pessoais que orbitam essas mesmas instituições. No Brasil, aparentemente, até a amizade precisa de jurisprudência.Talvez um dia o país consiga estabelecer uma súmula vinculante sobre o assunto:
“Não caracteriza proximidade o fato de você contratar a esposa, pagar centenas de milhões, emprestar avião, trocar mensagens sobre investigação e perguntar se amanhã de manhã você já estará preso.”
Mas talvez isso seja exagero. Talvez tudo tenha sido apenas uma sequência extraordinariamente mal interpretada de coincidências.
É, coincidências existem. Só não costumam ter contrato de R$ 130 milhões. E muito menos avião. O verdadeiro problema não seja descobrir se havia uma amizade. Se havia, alguém precisa explicar por que ela precisava de tanto advogado. Se não havia, alguém precisa explicar por que parecia haver. E, entre uma coisa e outra, fica a pergunta mais antiga da política brasileira: quanto custa uma coincidência quando ela vem com nota fiscal?

