Ancelotti chegou com aquele ar de quem já enterrou impérios e sobreviveu para contar a piada no velório seguinte. Trouxe a experiência de quem comandou vestiário de milionário mal-humorado, sabe lidar com craque que chora por escalação e presidente que chora por nada. O que ele não sabia é que, no Brasil, o adversário mais difícil não usa camisa: usa crachá.
A CBF é uma instituição notável por transformar clareza em documento e simplicidade em processo. Chamaram Ancelotti de “projeto”. Ele deve ter estranhado. Na Itália, projeto é prédio. Aqui, é jeito educado de dizer que ninguém sabe o que está fazendo, mas todo mundo assinou embaixo.
Em campo, a Noruega jogou como quem tem hora marcada: chegou, resolveu, foi embora. O Brasil jogou como reunião de condomínio: muita gente boa, ninguém concorda com pauta, e no fim alguém sugere terceirizar o problema para a próxima gestão.
Houve talento, é claro. Sempre há. O brasileiro nasce com o driblador ajustado de fábrica; o que falta é quem monte o motor. E aqui está o detalhe cruel: dá para importar técnico, importar preparador físico, importar até psicólogo esportivo com power point em inglês. O que não se importa é vergonha na cara, e essa, ao que tudo indica, está em falta crônica no estoque nacional.
Ancelotti aguentou o vendaval com a compostura de quem aprendeu, cedo, que reclamar em público só piora a Nota Fiscal. Ergueu a sobrancelha algumas vezes. Isso, no dicionário italiano, já deve equivaler a um discurso inteiro de protesto.
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Saímos da Copa como sempre saímos: mais cedo, com a plateia intacta e a explicação incompleta. A diferença é que desta vez ninguém teve a decência de culpar o juiz. Nem o gramado. Nem sequer a lua, que em outras eras já levou tanta culpa que devia cobrar cachê.
Ficamos, então, com a verdade nua: fomos eliminados por nós mesmos, num ato de organização tão competente que quase mereceria elogio, se não doesse tanto. Somos Hexa sim, em perder a chance por seis vezes.

