O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) descobriu que 67% dos estudantes brasileiros mais pobres não alcançam o nível mínimo de leitura. Entre os mais ricos, são 26%. A diferença é tão grande que talvez seja preciso começar a oferecer duas versões do dicionário: uma popular e outra para quem teve infância com estante. O problema é que os dois grupos estudam no mesmo país. Ou deveriam.
O que o Pisa mede
O Pisa é uma avaliação internacional aplicada a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O programa avalia estudantes de 15 anos em três áreas principais: leitura, matemática e ciências.
Na edição mais recente, o foco principal foi a leitura. O nível mínimo de proficiência é definido como a capacidade de localizar informações explícitas em textos curtos, identificar a ideia principal e fazer inferências simples. Estudantes abaixo desse nível não conseguem realizar essas tarefas de forma autônoma.
No Brasil, a média geral ficou abaixo da média dos países da OCDE. Mas o dado que chama atenção é a disparidade interna: a diferença entre os estudantes mais pobres e os mais ricos.
Os números da desigualdade
Segundo o Pisa:
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67% dos estudantes mais pobres não alcançam o nível mínimo de leitura.
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26% dos estudantes mais ricos não alcançam o nível mínimo de leitura.
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A diferença entre os dois grupos é de 41 pontos percentuais.
Para efeito de comparação, em países como Estônia, Finlândia e Canadá, a diferença entre os grupos socioeconômicos extremos raramente ultrapassa 20 pontos percentuais. O Brasil aparece entre os países com maior desigualdade educacional do mundo, segundo a própria OCDE.
O que significa não alcançar o nível mínimo
Não alcançar o nível mínimo de leitura no Pisa significa que o estudante:
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Não consegue localizar informações explícitas em um texto curto.
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Não consegue identificar a ideia principal de um texto.
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Não consegue fazer inferências simples.
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Não consegue interpretar gráficos e tabelas simples.
Na prática, isso se traduz em dificuldade para:
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Ler e interpretar uma bula de remédio.
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Entender um contrato de trabalho.
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Compreender uma notícia de jornal.
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Interpretar uma conta de luz.
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Seguir instruções escritas.
O contexto brasileiro
O Brasil tem cerca de 47 milhões de estudantes matriculados na educação básica, segundo o Censo Escolar. A maioria está na rede pública. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que:
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Cerca de 30% da população brasileira vive com renda per capita de até meio salário mínimo.
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O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, segundo o coeficiente de Gini.
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A desigualdade educacional acompanha a desigualdade de renda.
O Pisa não mede apenas o desempenho escolar. Mede também o impacto da origem socioeconômica no aprendizado. E, no Brasil, esse impacto é um dos maiores do mundo.
O que dizem os especialistas
Educadores e pesquisadores apontam diversos fatores para explicar a disparidade:
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Infraestrutura escolar: Escolas em regiões pobres tendem a ter menos bibliotecas, laboratórios e recursos pedagógicos.
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Formação docente: Professores em regiões vulneráveis enfrentam condições de trabalho mais precárias.
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Capital cultural: Crianças que crescem em ambientes com livros e estímulo à leitura têm vantagem no aprendizado.
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Trabalho infantil: Muitos estudantes pobres precisam trabalhar para complementar a renda familiar, reduzindo o tempo de estudo.
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Alimentação e saúde: A desnutrição e a falta de acesso a serviços básicos afetam o desenvolvimento cognitivo.
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Violência e instabilidade: Ambientes violentos ou instáveis prejudicam o aprendizado.
O que diz o Ministério da Educação
Procurado, o Ministério da Educação (MEC) informou que:
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O governo federal tem programas de apoio à leitura, como o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD).
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Existem políticas de ampliação da jornada escolar e de reforço escolar.
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O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece metas para reduzir as desigualdades educacionais.
O MEC não comentou os números específicos do Pisa.
O que dizem os organismos internacionais
A OCDE, responsável pelo Pisa, recomenda que o Brasil:
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Invista em educação infantil de qualidade.
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Reduza a desigualdade entre escolas.
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Melhore a formação de professores.
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Amplie o acesso a materiais de leitura.
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Combata a evasão escolar.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) classifica a desigualdade educacional brasileira como um dos principais desafios para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
O que acontece depois
Estudantes que não alcançam o nível mínimo de leitura no Pisa tendem a:
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Ter mais dificuldade para ingressar no ensino superior.
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Ter mais dificuldade para conseguir empregos que exigem qualificação.
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Ter renda média menor ao longo da vida.
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Ter menos participação política e social.
Segundo a OCDE, a proficiência em leitura é um dos melhores preditores de sucesso econômico e social na vida adulta.
Comparações internacionais
| País | % de pobres abaixo do nível mínimo | % de ricos abaixo do nível mínimo | Diferença |
|---|---|---|---|
| Brasil | 67% | 26% | 41 p.p. |
| Estônia | 15% | 5% | 10 p.p. |
| Finlândia | 18% | 6% | 12 p.p. |
| Canadá | 20% | 8% | 12 p.p. |
| Chile | 45% | 15% | 30 p.p. |
| México | 55% | 20% | 35 p.p. |
Dados aproximados com base nos relatórios do Pisa.
O que está em jogo
O Brasil tem cerca de 2,5 milhões de professores na educação básica e mais de 180 mil escolas. O país investe cerca de 6% do PIB em educação, segundo o IBGE. Apesar dos investimentos, os resultados permanecem estagnados. O Pisa mostra que o Brasil não avançou significativamente nas últimas duas décadas. A desigualdade educacional não é um problema apenas pedagógico. É um problema social, econômico e político. E os números do Pisa mostram que ele começa cedo — e afeta desigualmente.
O que dizem os estudantes
Em reportagens sobre o tema, estudantes de escolas públicas relatam:
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Falta de livros em casa.
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Falta de tempo para estudar.
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Necessidade de trabalhar.
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Dificuldade de acompanhar as aulas.
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Sensação de que a escola não os prepara para o mundo.
Estudantes de escolas particulares, por outro lado, relatam:
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Acesso a livros e materiais.
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Tempo para estudar.
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Apoio dos pais.
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Aulas extras.
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Expectativa de ingressar em boas universidades.
O que dizem os números
O Pisa não é apenas uma estatística. É um retrato. E o retrato que ele pinta do Brasil é o de um país onde a origem socioeconômica determina, em grande medida, o que uma criança vai aprender.
Os dois Brasis não estão apenas na mesma sala de aula. Estão no mesmo país. E os números mostram que eles aprendem de formas diferentes, leem de formas diferentes e, provavelmente, viverão de formas diferentes.
Não é uma piada. Mas, diante de certas estatísticas, a piada parece ser a única forma civilizada de não quebrar a mesa.
Fontes:
-
OCDE, Pisa 2022,2025
-
Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep)
-
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
-
Ministério da Educação (MEC)
-
Unesco

