“Ué, aconteceu alguma coisa?” Às vezes aconteceu. Às vezes não aconteceu absolutamente nada. E esse é justamente o problema. A pessoa cansou.
Não necessariamente de você. Nem do amor. Nem da amizade. Nem da história que vocês construíram. Cansou de ser a funcionária responsável pelo funcionamento da relação. Era ela quem mandava mensagem. Ela perguntava se estava tudo bem.
Ela lembrava do aniversário, inventava um programa, puxava assunto, procurava depois de uma briga, entendia o silêncio, desculpava a grosseria, dava outra chance. E, como costuma acontecer com aquilo que funciona bem demais, ninguém percebe que alguém está trabalhando. A relação parecia espontânea.
Não era.
Tinha uma pessoa nos bastidores empurrando os móveis. Existe uma espécie de cansaço que não vem da falta de amor. Vem do excesso de esforço. É quando você começa a perceber que, se não telefonar, o telefone não toca. Se não aparecer, ninguém pergunta onde você está. Se não procurar, o vínculo entra em coma e aparentemente não sente falta de oxigênio.
No começo, você inventa explicações. “Fulano está ocupado.” “Ela é assim mesmo.” “Ele não sabe demonstrar.” “Cada pessoa tem seu jeito.” E bem possível, que tudo isso seja verdade.
O problema é que a gente pode passar anos compreendendo o outro até descobrir que ninguém estava particularmente interessado em compreender a gente. Há uma diferença entre aceitar que as pessoas são diferentes e fazer sozinho o trabalho que deveria ser de dois.
Reciprocidade nunca foi uma planilha. Não precisa ser cinquenta por cento para cada lado, todos os dias, às nove da manhã. Há dias em que um carrega mais. Depois o outro carrega. A vida não é uma conta de restaurante. Mas alguma coisa precisa circular.
Um gesto. Uma procura. Uma saudade. Um “você sumiu”. Qualquer sinal de que existe alguém do outro lado. Porque chega uma hora em que insistir deixa de ser demonstração de afeto e começa a parecer uma espécie de estágio não remunerado.
E então acontece uma coisa curiosa. Você para. Não faz anúncio. Não escreve texto. Não bloqueia ninguém. Não coloca “ciclo encerrado” na fotografia de perfil.
Só para. E observa.
É aí que certas relações revelam seu tamanho verdadeiro. Algumas continuam. Outras diminuem. Algumas simplesmente desaparecem.
E aí vem a parte mais difícil: descobrir que aquilo que você chamava de relação podia ser, em boa medida, o resultado da sua insistência. Dói, claro. Mas há dores que chegam trazendo uma informação. A gente passa boa parte da vida confundindo persistência com amor. Como se continuar fosse sempre uma virtude. Como se desistir fosse necessariamente covardia. Não é. Às vezes continuar é apenas ter medo de descobrir o que acontece quando você solta. E soltar não é abandonar ninguém. É só deixar de abandonar a si mesmo.
Quem sempre faz questão também cansa. E esse cansaço seja, em certos casos, o jeito mais educado que a alma encontra de dizer: “Agora vê você.”

