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A mediocridade sempre tem uma boa explicação

Tem gente que não faz nada de extraordinário e, ainda assim, passa a vida explicando por que não fez. É uma habilidade.

A pessoa não diz “não tive coragem”. Diz que foi prudente. Não diz “fiquei com medo”. Diz que preferiu esperar o momento certo. Não diz “tive inveja”. Diz que estava apenas fazendo uma crítica construtiva. Não diz “não quis ajudar”. Diz que o outro também precisava aprender sozinho.

A mediocridade, curiosamente, quase nunca chega dizendo seu nome. Vem de terno. E traz currículo. Há anos reparo nisso no atendimento psicanalítico. Toda pequena covardia costuma vir acompanhada de uma grande justificativa. Às vezes, a justificativa é tão bem construída que dá vontade de aplaudir. Não pelo argumento, naturalmente. Pela dedicação. As pessoas passam três dias elaborando uma explicação para os cinco minutos em que foram covardes.

Freud provavelmente teria alguma coisa a dizer sobre isso. E, como quase sempre acontece quando alguém cita Freud fora de contexto, provavelmente a coisa seria mais complicada do que a frase que a gente gostaria de usar. Mas há uma ideia da psicanálise que ajuda: o sintoma como solução de compromisso.

A pessoa quer uma coisa, teme outra, faz uma terceira e depois precisa construir uma quarta para explicar a terceira. É quase uma pequena empresa. Tem produção, departamento jurídico e comunicação institucional. “Eu não falei porque não era a hora.” “Eu não ajudei porque ele não merecia.” “Eu não fui porque aquele ambiente não tem nada a ver comigo.” “Eu não tentei porque já sabia que não daria certo.”

Tudo muito razoável. Razoável demais. A explicação perfeita é, muitas vezes, o lugar onde a verdade foi enterrada. Lacan gostava da falta. A falta está sempre por ali, mesmo quando a gente cobre com palavras. Talvez seja esse o papel de certas histórias que contamos sobre nós mesmos: não preencher o buraco, porque isso é impossível, mas colocar uma cortina na frente dele. Uma cortina bonita. Com bom acabamento. E, se possível, lavável.

O problema é que ninguém conta essas histórias apenas uma vez. Conta de novo. Para um amigo. Depois para outro. Depois para a família. Depois, em algum momento mais sofisticado da mentira, conta para si mesmo. É aí que começa a ficar interessante. Porque uma justificativa repetida durante tempo suficiente deixa de parecer justificativa. Vira memória. Vira princípio. Vira personalidade.

As pessoas dizem: “Eu não tive coragem naquela ocasião.” E sim: “Eu sou uma pessoa que não se mete.” Pronto. Nasceu uma filosofia. A covardia ganhou identidade visual.

A psicanálise chama de repetição aquilo que volta, mesmo quando a pessoa gostaria de acreditar que está fazendo escolhas novas. Na vida cotidiana, a coisa é mais engraçada e mais triste: a pessoa repete o mesmo comportamento e muda apenas a legenda. Ontem foi prudência. Hoje é maturidade. Amanhã será experiência. O ato permanece. Muda a propaganda. É por isso que algumas pessoas tenham tanta dificuldade com quem rompe o roteiro.

Você conhece o tipo. Ele passou vinte anos explicando por que não tentou determinada coisa. De repente, alguém tenta. E consegue. Isso é quase uma agressão. O sucesso do outro não é apenas o sucesso do outro. É uma espécie de testemunha contra a história que ele passou anos contando. Se era impossível, como aquele sujeito conseguiu? Se era irresponsável, por que deu certo? Se era ingenuidade, por que funcionou?

Se “não vale a pena”, por que alguém parece estar gostando? É aí que começam os adjetivos. Arrogante. Metido. Iludido. Sem experiência. Acha que é melhor que os outros. Nenhum desses diagnósticos exige diploma. Basta uma pequena ferida no orgulho. O outro precisa ser diminuído porque, enquanto ele estiver lá embaixo, a explicação continua de pé. Não é necessariamente maldade. Essa é a parte menos confortável. Às vezes é medo. A mediocridade pode ser uma defesa bastante eficiente contra o fracasso. Quem nunca tenta nunca precisa descobrir que não consegue. Quem nunca se declara nunca precisa ouvir um não. Quem nunca publica nunca recebe crítica. Quem nunca sobe ao palco nunca esquece uma fala. Quem nunca ama direito nunca precisa descobrir que pode ser abandonado.

É uma vida muito segura. E provavelmente insuportável. Mas segura. Há pessoas que transformam a própria limitação numa filosofia justamente para não precisar chamá-la de limitação. “Eu não tenho ambição.” Pode ser. Mas também pode ser que a pessoa tenha medo de fracassar. “Eu não gosto de aparecer.” Pode ser. Ou pode ser que ela tenha pavor de ser julgada.

Eu não preciso de dinheiro.” Pode ser uma escolha. Ou pode ser uma maneira elegante de não admitir que desistiu. Não se trata de sair por aí fazendo diagnóstico dos outros. Aliás, isso também seria uma forma bastante sofisticada de mediocridade: passar a vida identificando os defeitos alheios para não precisar olhar para os próprios.

E assim, o problema começa justamente quando acreditamos demais nas histórias que inventamos sobre nós. Porque o ser humano tem uma capacidade impressionante de editar a própria biografia. Apaga certas cenas. Aumenta outras. Troca o nome dos personagens. Corta as partes constrangedoras. Depois publica a versão final.

Sem revisão. A inveja vira senso crítico. O ressentimento vira princípio moral. A preguiça vira desaceleração. A desistência vira desapego. A incompetência vira humildade. E a covardia, quando muito bem trabalhada, vira prudência. É quase admirável. Quase. Talvez o mais interessante seja perceber que ninguém está totalmente fora desse mecanismo.

Seria muito confortável escrever esta crônica como quem aponta o dedo para uma plateia de medíocres. Mas o dedo volta. Sempre volta. Porque todos nós temos alguma explicação pronta demais. Alguma história que contamos com uma naturalidade suspeita.

Algum “eu sou assim” escondendo um “eu tenho medo disso”. Algum “não era para mim” escondendo um “eu não consegui”. Algum “não vale a pena” escondendo um “eu queria, mas não tive coragem”. A maturidade não seja deixar de fazer essas coisas. Isso seria exigir do ser humano uma espécie de santidade que ele nunca prometeu.  eOu maturidade seja perceber. Perceber quando a explicação começa a trabalhar mais do que o fato. Perceber quando estamos defendendo uma escolha com uma energia que a própria escolha não merece. Perceber, sobretudo, quando transformamos uma derrota em identidade para não precisar admitir que perdemos. E ainda há uma diferença enorme entre aceitar uma limitação e construir uma religião em torno dela. O primeiro é realismo. O segundo é prisão com decoração.

Agora sabemos que, por isso que certas pessoas fiquem tão irritadas quando alguém simplesmente pergunta:“Mas você queria mesmo isso?” A pergunta parece pequena. Não é. Tudo o que a pessoa passou anos chamando de maturidade era apenas medo com uma boa assessoria de imprensa. E há explicações que não precisam ser desmentidas. Basta parar de repeti-las. A verdade costuma ser menos eloquente.E é justamente por isso que ela incomode tanto.

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