Colunas e BlogsO país que não sabe o que fazer com o dinheiro

O país que não sabe o que fazer com o dinheiro

Em 2026, ainda debatemos se deve ensinar educação financeira nas escolas.

Não porque a ideia seja ruim. Ela é, aliás, razoavelmente boa. Mas porque o próprio debate expõe uma hesitação histórica que vai muito além do currículo: como se houvesse um acordo tácito, nunca verbalizado, de que certas coisas não deveriam ser ensinadas a certas pessoas.

Que o Senado tenha aprovado em comissão um projeto nesse sentido de autoria de uma deputada gaúcha, relatado pela nova líder do governo no Senado, senadora pernambucana, curiosamente do PT, partido que por décadas desconfiou desse tipo de letramento como se ele cheirasse a neoliberalismo, é, em si, uma pequena virada. Não monumental. Mas não é nada, também.

A proposta prevê ensino “transversal e integrador”, o que na linguagem da pedagogia oficial significa: vai aparecer em todas as disciplinas sem ser exatamente nenhuma. A matemática vai falar de juros. A história vai mencionar inflação. O português vai redigir um contrato de aluguel. É uma solução inteligente para o problema real de um currículo já sobrecarregado, e, ao mesmo tempo, uma forma sofisticada de garantir que o tema nunca seja tratado com seriedade suficiente. Mas isso é outro debate.

O que me interessa aqui é uma pergunta mais antiga: por que essa resistência demora tanto?

Existe uma linha de pensamento que circulou por décadas em certos ambientes de esquerda, mas também em certas elites conservadoras, por razões opostas e igualmente tortas, segundo a qual ensinar o pobre a administrar o pouco que tem é quase uma crueldade. Uma forma de responsabilizá-lo individualmente por uma estrutura que o prejudica coletivamente. Como se explicar a diferença entre taxa nominal e taxa real fosse uma forma de fazer o trabalhador esquecer que o problema não é ele não saber calcular, é que o salário não cobre o básico.

Há uma verdade nisso. Parcial, mas verdadeira.

O que essa linha de raciocínio deixa de lado, porém, é que a ignorância financeira não protege ninguém. Ela apenas distribui os danos de forma mais cruel. Quem não entende como funciona um cartão de crédito rotativo não está se rebelando contra o capital; está pagando 400% ao ano de juros. Quem não sabe o que é PGBL não está sendo solidário com os sem-previdência; está simplesmente chegando à velhice sem nada.

A emenda proposta pela senadora Teresa Leitão amplia o escopo para incluir previdência, tributos e seguros. O que é uma expansão corajosa. Porque tributo é um assunto político antes de ser técnico. Ensinar uma criança o que é INSS, o que é IR, o que é PIS e COFINS, é, de certa forma, ensinar o mínimo para que ela algum dia questione o que recebe em troca. E isso, dependendo de quem estiver no poder, pode ser bastante subversivo.

Há uma cena que não sai da cabeça quando penso nesse assunto.

Minha avó, Dona Ovídia, mulher de poucas letras e muita inteligência prática, guardava dinheiro embaixo do colchão durante toda a adolescência do pai. Isso era comum. Não era falta de cultura, era memória. Ela havia vivo o congelamento de poupanças no Plano Collor. O banco, para ela, não era uma instituição de confiança. Era um lugar onde o Estado um dia entrou e levou o que era seu.

Essa memória coletiva, desconfiança do sistema financeiro é parte do que torna o letramento financeiro tão urgente e tão difícil ao mesmo tempo. Não basta ensinar o que é CDI se a pessoa tem boas razões históricas para não confiar no sistema que usa esse índice. O ensino precisa ser, portanto, mais do que técnico. Precisa ser crítico. Precisa incluir a pergunta “a favor de quem esse sistema funciona?” como parte do currículo, não como resposta pronta, mas como hábito de pensamento.

Se a escola vai fazer isso bem, é uma outra conversa. A escola pública brasileira carrega um peso de subfinanciamento e precariedade que nenhum projeto de lei, por melhor que seja, resolve na canetada. Professores que ganham mal, que não foram formados nesse conteúdo, que darão o tema “transversalmente” entre uma coisa e outra, o risco de se tornar mais um tópico decorativo no plano de aula é real.

Mas, alguma coisa é melhor do que nada.

A aprovação na comissão ainda precisa passar pelo plenário do Senado e depois pela sanção de Lula, que não é exatamente o presidente mais entusiasmado com a cultura do investimento individual. Mas mesmo que passe, mesmo que vire lei, a transformação real vai depender de algo que lei nenhuma garante: professores que entendam de dinheiro. E isso exige formação. E formação exige tempo. E tempo, no Brasil, sempre parece ser a variável que a urgência não tem.

De qualquer forma, o projeto existe. O debate avançou. E há algo de honesto no simples reconhecimento, por parte do Estado, de que mandar milhões de jovens ao mercado de trabalho sem saber o que é juros compostos é uma forma de negligência, não muito diferente de ensinar a ler sem ensinar a escrever.

Só que ler e escrever a escola ensina há muito mais tempo e olha o resultado.

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