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Ninguém convence a mão de ninguém

A democracia brasileira tinha marcado um debate para esta quinta-feira.

Tinha horário. Tinha estúdio. Tinha câmera. Tinha púlpito. Tinha candidato. Bom, candidato era justamente a parte mais complicada.

Lula não iria. Preferiu conversar com o Flow no mesmo horário. A Globo preparou o púlpito vazio, conforme as regras combinadas com os partidos. A cadeira vazia seria quase um candidato: não fala, não interrompe e, principalmente, não erra. Só que veio uma decisão judicial proibindo o púlpito com o nome de Lula e também as perguntas que seriam feitas a ele.

Depois veio outra decisão, agora do STF, mandando colocar Renan Santos no debate. Romeu Zema já tinha conseguido entrar por decisão anterior. A essa altura, o debate presidencial começava a parecer menos uma discussão sobre o futuro do Brasil e mais uma briga para saber quem tem a chave do estúdio.

A decisão veio às 20:39, a Globo cancelou. É uma solução curiosa. Para evitar um debate sem candidatos, tivemos um debate sem debate. A cadeira vazia, que antes era apenas uma cadeira vazia, passou a ser uma questão jurídica. Quem pode ocupar? Quem pode perguntar? Quem pode aparecer? Quem pode não aparecer? E quem decide?

A televisão queria colocar os candidatos diante uns dos outros. Os postulantes ao cargo  descobriram há algum tempo que podem escolher outro caminho.

Tem podcast. Tem Instagram. Tem YouTube. Tem corte. Tem vídeo gravado. Tem live. Tem algoritmo. Tem aquele sujeito que passa o dia inteiro dizendo exatamente o que seus seguidores gostariam de ouvir. É mais confortável.

Ninguém pergunta uma coisa inconveniente se você escolheu quem vai fazer o questionamento. Ninguém interrompe se o vídeo foi gravado. Ninguém aparece do outro lado da mesa se você não convidar. O debate, coitado, ainda tinha essa mania antiga de colocar o sujeito diante de alguém que pensa diferente. Uma inconveniência democrática.

Agora a coisa ficou mais sofisticada. O candidato pode não comparecer. O púlpito pode não aparecer. O adversário pode entrar por decisão judicial. A regra pode mudar. E o debate pode simplesmente deixar de existir. Tudo antes das nove da noite. Antigamente, o problema era o candidato não saber responder. Agora precisamos descobrir primeiro se ele pode estar sentado ali.

No domingo, o eleitor vai entrar na cabine e apertar um botão. Não haverá mediador,réplica, tréplica ou decisão judicial sobre o que ele pensa. Só a mão. Essa, pelo menos, ainda é dele. Até que alguém peça para revisar o resultado.

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