Tem uma pesquisadora americana chamada Maryellen MacDonald que ficou olhando para a sala de aula e percebeu uma coisa estranha: o silêncio. Não o silêncio bonito, de quem pensa. O silêncio torto, de quem evita.
Antes das aulas, os alunos conversavam. Fofocavam, debatiam, riam, brigavam, faziam o que gente faz quando está junta. Agora ficam de cabeça baixa, cada um no próprio ecrã, cada um no próprio buraco digital. Maryellen achou isso grave. Eu acho que ela tem razão, mas suspeito que metade dos que leram até aqui já olhou pro celular pelo menos duas vezes.
O fenômeno tem nome técnico, tem relatório da OCDE, tem percentual declinante. Em 2006, 53% dos jovens dos países ricos tinham interação presencial diária com amigos. Em 2022, já eram só 36%. A queda mais acentuada entre todas as faixas etárias. Os velhos, aparentemente, ainda se suportam.
Mas o que Maryellen descobriu (e que me parece o coração da questão) é mais simples e mais trágico: os jovens de hoje têm dificuldade de pegar o telefone e marcar uma consulta.
O telefone. A consulta. O dentista.
Coisas que qualquer adolescente dos anos 80 fazia na quinta série, provavelmente enquanto roía a caneta e mentia pro médico que estava com febre pra não ir à escola. Hoje causam ansiedade real, paralisante, documentada.
E o engraçado (ou o deprimente, escolha o seu) é que o aparelho que causa a ansiedade de ligar é exatamente o mesmo que fica na mão o dia inteiro. O celular está lá. O número do consultório está no Google. Mas discar? Isso é demais.
Maryellen explica: falar é mais difícil do que consumir. Assistir a um vídeo, rolar o feed, reagir com um emoji: tudo isso é passivo, é fácil, é confortável. Conversar exige que você pense enquanto fala, que antecipe, que improvise, que exista diante do outro em tempo real. É um exercício cognitivo sério. E, como todo exercício, quando você para de fazer, perde a forma.
O músculo da conversa está atrofiando.
E aí vêm os pais: com a melhor das intenções e o pior dos resultados. O filho fica ansioso com a ideia de ligar pro médico. O pai liga no lugar dele. Problema resolvido. Filho aliviado. Habilidade: destruída.
É a superproteção funcionando como deveria(protegendo) e fazendo exatamente o que não devia: impedindo o tropeço necessário. Porque é no tropeço que a gente aprende a andar. É na ligação constrangedora pro consultório que a gente descobre que não vai morrer de vergonha.
Os jovens sabem disso. Pesquisas mostram que eles estão preocupados com o próprio declínio social. Sentem que algo se perdeu. Querem se conectar, mas a conversa gera ansiedade, então mandam mensagem. A mensagem não resolve a solidão, então se sentem mais sós. A solidão aumenta a ansiedade. A ansiedade aumenta o tempo na tela. A tela aumenta o silêncio.
É um ciclo bonito, no sentido em que os círculos viciosos sempre têm uma geometria perfeita.
No trabalho, a conta chega. Sessenta e cinco por cento dos trabalhadores da geração Z dizem que não sabem sobre o que conversar com os colegas. Empresas estão dando treinamento para que novos funcionários aprendam a se manifestar em reuniões, a escrever um e-mail com tom adequado, a fazer uma apresentação sem entrar em colapso.
Coisas que antigamente se aprendiam vivendo. Hoje viram curso.
Maryellen tem esperança: ela é pesquisadora, é obrigação do cargo. Diz que teatro, oratória, improviso ajudam. Que tirar o celular da sala de aula abre espaço para a conversa brotar. Que mesmo quem chegou tarde na festa da fala ainda pode aprender.
Eu acredito nela. Mas acho que o ponto mais honesto que ela faz é o mais simples: deixe o seu filho ligar pro dentista. Vai ser difícil pra ele. Vai gerar um frio na barriga, uma hesitação, talvez uma recusa inicial. Deixa assim mesmo.
O desconforto é o professor. A ansiedade leve, passageira, de fazer algo ligeiramente difícil: essa é a sensação de crescer.
E crescer, infelizmente, ainda não tem versão pra download.

