Acordamos. O teto nos encara antes que nos o encaremos. Essa é a primeira injustiça do dia: o teto chegou primeiro.
Kierkegaard, escreveu um livro chamado A Doença Para a Morte e nele afirmou, sem pedir licença, que o desespero é essa tal doença mortal, só que ninguém morre dela, o que já é uma contradição digna de dinamarquês. Freud, mais discreto, chegou décadas depois com outro vocabulário e cobrou por sessão. O que os dois descreviam era o mesmo bicho: gente que se levanta, escova os dentes, veste a roupa da própria personalidade e sai por aí fingindo que aquilo é ele.
Isso explica por que tanta gente bem-sucedida parece um apartamento decorado: lindo, iluminado, ninguém mora ali de verdade. O sujeito enche a sala de troféus e esquece de perguntar quem é que vai dormir naquele quarto à noite.
A angústia como assinatura
Toda análise séria começa com uma confissão desagradável: eu não sei o que eu quero, só sei imitar quem parece saber. A publicidade vende essa imitação em prestações. Compre isto e serás completo, diz o outdoor. Mentira histórica: ninguém jamais ficou completo comprando nada, exceto o dono da loja.
O amor romântico é o Golpe do Bilhete Premiado mais bem-sucedido da civilização: alguém aparece, promete redenção, e nós assinamos o contrato sem ler a letra miúda, que diz “este produto não cura vazio existencial, apenas o distrai por um período limitado”. Depois vem a discussão sobre quem deixou a louça na pia, e ali, meus amigos, está o verdadeiro divã.
Lacan diria que desejamos o desejo do outro. Eu diria que desejamos qualquer coisa que nos poupe de desejar sozinhos, porque desejar sozinho dá vertigem, e vertigem, convenhamos, não cabe no currículo do LinkedIn.
O diagnóstico que ninguém quer receber
O paciente mais difícil não é o que sofre, é o que sofre bem vestido. Aquele que sorri na horas certa, cumprimenta educado, e vai desmoronando por dentro com a discrição de um prédio condenado que ainda recebe visitas.
A neurose contemporânea não grita. Ela agenda. Marca reunião, cumpre prazo, posta foto de pôr do sol com a legenda “gratidão“, e à noite fica olhando o teto que chegou primeiro.
O desespero não é falha de caráter nem desequilíbrio químico, mas apenas o preço de ter nascido consciente numa espécie que preferiria não ter sido. Os bichos não se perguntam se a vida faz sentido. Eles simplesmente vivem, o que já é uma resposta bem mais elegante que a nossa.
Resta a pergunta que nem toda terapia resolve, nem todo filósofo dinamarquês resolveu, nem eu vou resolver aqui, porque crônica boa não fecha, só para: e você, já reparou que fala sozinho (a) com o teto?

