Colunas e BlogsA loucura que a cidade filmou

A loucura que a cidade filmou

Entre o espetáculo e o abandono: o que fazemos com quem sofre na nossa frente

Lusimar Augustinho da Silva tem 55 anos. Mora onde a cidade costuma chegar só quando precisa de alguma coisa. Chamam ela de “Menina”. É engraçado, de um jeito meio triste, porque diz muito sobre a forma como a gente olha para quem está à margem. Menina, velho, maluco, morador de rua, problema. Cada um ganha um nome que ajude o resto da cidade a não pensar muito.

Luzimar grita. Xinga. E não é aquele xingamento de quem perdeu a paciência no trânsito. É uma fala embaralhada, agressiva, que junta raça, corpo, política, religião, televisão, qualquer coisa que esteja disponível. Durante algum tempo, isso virou assunto nos bares, nas rodas de conversa, nos comentários de porta de igreja. Gente contando, gente rindo, gente repetindo. A desgraça, desde que venha em história curta, costuma encontrar ouvido. Depois veio a prisão por injúria racial. O Ministério Público pediu que ela continuasse presa. Agora ela vai para um hospital psiquiátrico. E é aqui que a história fica mais complicada.

Porque Luzimar não apareceu agora. Há relatos. Há testemunhas. Há episódios anteriores. Ela já era conhecida por muita gente pelas ruas de Brasilia ( especialmente nas Asas Sul e Norte). Estava ali, na rua, em praça pública, diante de quem passava. Só que a cidade tem um defeito curioso: consegue enxergar muito bem depois que o problema ganha um número de processo.

Antes disso, vira paisagem.

A psicanálise entra nessa história com uma pergunta que não resolve o caso, mas talvez ajude a entendê-lo: de onde vem aquilo que ela fala?

Não estou falando em desculpar ninguém. Injúria continua sendo injúria. Ameaça continua sendo ameaça. O sofrimento psíquico de uma pessoa não transforma o sofrimento causado aos outros em coisa menor. Mas existe uma diferença entre condenar uma fala e entender a linguagem que está por trás dela.

Luzimar repetia frases. nomes, palavras que já estavam circulando. “Globo mente a verdade.” “Castigo.” Coisas assim. Não há ali, pelo menos no que se vê, uma elaboração política propriamente dita. Há repetição. E repetição, na psicanálise, nunca é uma coisa tão simples.

É possível, que aquela fala tenha muito menos de invenção do que parece. E, ela esteja devolvendo, de maneira completamente desorganizada, aquilo que ouviu, viu, absorveu. A loucura não inventa necessariamente o mundo, só devolve o mundo sem embalagem. E é isso que incomode tanto. Quando uma pessoa em sofrimento repete com tanta violência palavras que estão circulando por aí, aparece uma pergunta desagradável: quanto daquilo é dela e quanto daquilo já estava no ambiente? Não tenho uma resposta. Desconfio de quem tenha.

Antes da prisão, houve a ameaça de morte contra a primeira-dama do Distrito Federal. Ela foi solta. Depois vieram os episódios no hotel, as ofensas raciais e a prisão. Também existem relatos de que Luzimar intimidava adolescentes na saída de uma escola e chamava meninas de prostitutas. E ninguém resolveu. Ou não soube como resolver.

Essa é seja a parte mais difícil do caso. Torna-se muito fácil dizer que o Estado falhou depois que tudo aconteceu. O problema é que, antes disso, havia uma pessoa na rua apresentando sinais de sofrimento, havia pessoas com medo dela e havia uma cidade assistindo. Só que assistir não é cuidar. É uma coisa que a gente faz bastante, aliás. Olha. Comenta. Repassa. Às vezes leva comida. Às vezes leva ao cinema.

Luzimar tem fãs. Pessoas que aparecem para comemorar aniversário, que a levam para comer, que acompanham seus momentos de crise. Isso parece bonito à primeira vista. Com o benefício da dúvida por conta da onda das redes sociais, talvez seja mesmo uma forma de carinho.

Mas tem alguma coisa estranha nessa história. A pessoa virou personagem antes de virar paciente. O sofrimento virou espetáculo. E aqui a palavra “espetáculo” seja mais importante do que parece. Porque é assim que a vida real vira caso de vizinhança. A pessoa deixa de ser CPF e passa a ser história. Um comportamento estranho vira fofoca. Uma crise vira anedota. Um sujeito em sofrimento vira alguém que os outros acompanham como se acompanhassem uma novela.

Enquanto isso, a doença continua ali. O debate sobre internação também não é simples. E talvez nunca devesse ser. O movimento antimanicomial fez uma coisa importante ao denunciar os horrores de instituições que, muitas vezes, prendiam pessoas por anos e anos, longe de qualquer possibilidade real de vida. Voltar para aquilo seria um absurdo.

Mas também é difícil olhar para uma pessoa em sofrimento grave, sem família por perto, andando pela rua, provocando medo, sendo observada e acumulando episódios, e dizer que o simples fato de estar fora de uma instituição significa que está sendo cuidada. Não está. Talvez a nossa discussão tenha ficado presa numa escolha ruim: manicômio ou rua. E não deveria ser essa a escolha.

Entre uma coisa e outra deveria existir uma rede de cuidado que funcionasse antes da polícia, antes do processo, antes que a história virasse caso. Já ouvi um psiquiatra sobre o caso e me chamou atenção justamente por isso. Depois de onze anos no SUS, ele falava mais de cansaço do que de ideologia.

Exaustão. É uma palavra pouco glamourosa, mas serve. Exaustão de quem trabalha no sistema. De quem tem um parente adoecido em casa. De quem mora perto. De quem é alvo. De quem observa. De quem escuta.

Todo mundo parece estar esperando que alguém faça alguma coisa. E quase sempre esse alguém chega tarde. Luzimar vai ser internada. Pode ser que o tratamento ajude. Tomara que ajude. Pode ser também que seja tarde demais para algumas coisas, mas talvez não seja tarde para ela. O que me incomoda é que a saúde tenha precisado esperar a polícia. Era possível ter chegado antes.E devesse. E é aí que eu volto à pergunta inicial, sem resposta pronta.

O que uma cidade faz quando uma pessoa enlouquece e não tem ninguém por perto?

Deixa na rua porque aprendeu, depois de décadas de abuso, que internar pode significar abandonar? Ou espera que ela ameace alguém, ofenda alguém, assuste alguém até que apareça uma razão jurídica para fazer aquilo que a saúde deveria ter feito antes?

O “x” da questão talvez seja justamente esse. A gente só sabe agir quando a desordem ganha nome de crime. Antes disso, chama de excentricidade.Depois, chama de caso de polícia.

No meio, quase ninguém chama pelo nome mais simples.

Cuidado.

Últimas