Evitar acidentes com escorpiões é um desafio que exige esforço coletivo ao longo do ano. “É uma atenção parecida com a da dengue: se um vizinho mantém, por exemplo, o terreno com entulho, coloca em risco toda a comunidade ao redor”, afirma o diretor de Vigilância Ambiental da Secretaria de Saúde (SES-DF), Wendel de Medeiros.
As recomendações são simples: retirar entulhos, manter quintais e outras áreas limpas, vedar ralos, tapar buracos em paredes e combater pragas, principalmente baratas. O foco é reduzir a oferta de locais para os escorpiões se esconderem, eliminar o acesso aos ambientes residenciais e dificultar a alimentação desses animais.
Por meio dos telefones 160 ou 162, é possível solicitar apoio da Vigilância Ambiental. Os agentes podem atuar em cenários de ampla infestação e orientar os moradores, principalmente na identificação de pontos críticos no imóvel.
O avanço no combate aos escorpiões a longo prazo, porém, depende diretamente dos moradores. “Atuamos no controle e na orientação, mas não conseguimos eliminar o animal do ambiente urbano, uma vez que ele está adaptado”, explica Medeiros.
É preciso ficar atento à desinsetização contra baratas, que são o principal alimento dos escorpiões. Após o procedimento, é importante redobrar a atenção, pois, apesar de não serem afetados diretamente pelos inseticidas, os escorpiões podem sair de seus esconderijos, o que aumenta a chance de acidentes com humanos.
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Compromisso o ano inteiro
O cuidado contra os escorpiões deve ocorrer ao longo de todo o ano. “Não existe uma única época de risco. A prevenção deve ser contínua, com inspeções periódicas”, reforça a gerente de Vigilância Ambiental de Vetores e Animais Peçonhentos e Ações de Campo da SES-DF, Hérica Bassani.
Em 2025, por exemplo, os 4,7 mil acidentes com escorpiões registrados no Distrito Federal ocorreram em diferentes épocas do ano. Entretanto, no início das chuvas, no segundo semestre, há um leve aumento dos casos. “É comum que o alagamento de abrigos naturais e artificiais faça com que os escorpiões se desloquem para locais secos, aumentando a possibilidade de contato com as pessoas”, diz Bassani.
Por outro lado, no período da seca, o acúmulo de materiais, entulhos, folhas secas e outros abrigos próximos às residências também favorece a permanência e a aproximação do animal no ambiente domiciliar. “Os escorpiões permanecem ativos em todas as estações, especialmente em áreas urbanas onde encontram abundância de abrigo e de alimento”, acrescenta a gerente.
Além disso, a especialista destaca que os escorpiões são muito eficientes na reprodução. Uma das espécies presentes no DF, o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), é capaz de realizar a partenogênese, em que uma fêmea consegue se reproduzir sozinha. Um único escorpião dessa espécie pode gerar até 160 filhotes ao longo do ano se estiver em condições ideais para a sobrevivência.
A SES-DF tem ampliado a capacidade de monitoramento, inclusive ao orientar a população e os profissionais de saúde a informarem cada ocorrência.
“A notificação é fundamental, pois permite direcionar as ações de vigilância e controle, planejar campanhas educativas, subsidiar políticas públicas de prevenção e organizar a distribuição dos soros antivenenos”, elenca Bassani.
Soro e o que fazer
As unidades de saúde do DF receberam, no ano passado, mais de 830 ampolas do soro antiescorpiônico. Atualmente, a Rede de Frio Central da Secretaria de Saúde mantém estoque estratégico para reposição, enquanto os hospitais da rede pública dispõem de doses para aplicação imediata.
Apesar disso, nem sempre o soro é necessário. A indicação segue o critério clínico. Enquanto pacientes classificados como graves podem receber até seis ampolas, nos casos moderados são suficientes três. Já em situações avaliadas como leves, o tratamento se limita a combater a dor provocada pela picada.
Em todos os casos de picada de escorpião, contudo, o paciente deve procurar imediatamente uma unidade de saúde. “A piora do quadro pode ocorrer em poucas horas e a pessoa passa a apresentar episódios de vômitos, suor extremo, confusão mental e dificuldade respiratória”, alerta a farmacêutica toxicologista da SES-DF, Flávia Neri.
Se o acidente ocorrer com adultos que não apresentem sintomas além de dor, uma opção é procurar a rede de Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Nos casos leves, são aplicados analgésicos e feita a observação por até 12 horas.
Quando o soro se mostra necessário, os pacientes permanecem em observação por, no mínimo, 24 horas após receberem as ampolas. Os vômitos e as dores desaparecem rapidamente, mas é preciso monitorar indicadores no sangue.
Em ocorrências que envolvem crianças, sobretudo aquelas menores de 10 anos, é necessário levá-las diretamente ao hospital. “O público infantil possui menor superfície corpórea, o que eleva substancialmente o risco de complicações sistêmicas graves e óbito. Vômitos são um sinal clínico precoce, indicativo e muito sensível de gravidade”, destaca Neri.
Como evitar acidentes com animais peçonhentos:
* Examine roupas e calçados antes de usá-los
* Mantenha camas, sofás e berços afastados da parede
* Mantenha lençóis, cobertores e cortinas sem contato direto com o chão
* Use luvas grossas ao manusear materiais de construção, na limpeza de jardins ou ao lidar com materiais que possam servir de abrigo a escorpiões
* Sacuda roupas pessoais, roupas de cama e sapatos antes de usá-los
* Remova abrigos. Escorpiões gostam de se esconder em lugares escuros, principalmente durante o dia
* Ao colher frutas, apoiar-se ou recostar-se em árvores ou plantas, observe se há lagartas no local
* Ao podar árvores ou colher frutos, proteja as mãos com luvas grossas e use camisas de mangas longas
* Evite a presença de crianças próximas de árvores ou plantas que contenham taturanas, pois elas são atraídas pelo colorido desses animais e podem querer tocá-los
Como impedir a presença de escorpiões em casa
* Guarde caixas de papelão em gavetas, não no chão
* Mantenha seus armários e quartos bem organizados
* Mantenha os ambientes da casa ventilados e higienizados
* Tire sapatos e roupas do chão
* No quintal, apare moitas e folhagens que escorpiões possam usar como esconderijo
* Livre-se de pilhas de madeira, pedras*,* restos de plantas e materiais de construção
* Dentro de casa, tampe buracos
* Use panos ou vedadores nas aberturas das portas
Prevenção de acidentes com animais peçonhentos no trabalho
* Use luvas de raspa de couro e calçados fechados, entre outros equipamentos de proteção individual (EPIs), durante o manuseio de materiais de construção, o transporte de lenha, a movimentação de móveis, as atividades rurais e a limpeza de jardins, quintais e terrenos baldios
* Observe sempre com atenção o local de trabalho e os caminhos a percorrer
* Não coloque as mãos em tocas ou buracos na terra, ocos de árvores, cupinzeiros nem em espaços situados em montes de lenha ou entre pedras. Caso seja necessário mexer nesses lugares, use um pedaço de madeira, enxada ou foice
* Os trabalhadores do campo devem sempre utilizar os EPIs, como botas ou perneiras

