“Digo o que me vem, cantava alguém, num verso que guardo há anos sem saber bem por quê. Deus e o diabo em um só ser.“
Achei engraçado voltar a ele agora, num tempo em que a maior aspiração espiritual do brasileiro urbano deixou de ser aparecer e passou a ser sumir com dignidade. Porque toda geração inventa a sua forma de pecado original, e a nossa descobriu que o pecado, hoje, é ser visto demais.
Já fomos uma civilização inteira treinada para o oposto. Passamos décadas ensinando criança a “se destacar”, a “construir marca pessoal”, a preencher currículo com adjetivos que ninguém usa em conversa normal. E de repente, sem aviso prévio, sem reunião de condomínio, o vento virou. Quem hoje quer ser notado por todo mundo é tratado como alguém levemente desajustado, tipo aquele parente que ainda manda corrente de WhatsApp. O silêncio virou classe alta. Sumir virou sofisticação.
Tem gente chamando isso de tendência, de movimento, até de terapia. Eu prefiro pensar como sintoma, que é uma palavra mais honesta e menos otimista. Sintoma de quê, é a pergunta que ninguém quer fazer direito, porque a resposta dá trabalho.
Vou tentar uma explicação, arriscando errar pela metade, como qualquer explicação decente costuma errar. A internet prometeu conexão e entregou platéia. Prometeu comunidade e entregou concorrência. E o ser humano, esse animal teimoso que sobreviveu a glaciações inteiras por saber reconhecer ameaça à primeira vista, aprendeu rápido a tratar o feed do vizinho como se fosse um predador de savana.
Não tem erro: o cérebro que antes gastava energia calculando se aquele barulho era onça ou vento, hoje gasta a mesma energia calculando se aquele story do ex-colega de faculdade, de férias em algum lugar com nome difícil de pronunciar, é motivo de inveja ou de indiferença fingida. O hardware é paleolítico, o software é 2026. Ninguém atualizou o usuário.
E aqui cabe uma nota de rodapé histórica, tudo isso já existiu antes, só que sem wi-fi. Cidade pequena sempre foi rede social. A senhora que via da janela quem entrava e saía da casa de quem, o padre que sabia mais da vida alheia do que qualquer algoritmo, a praça onde tudo se sabia antes de acontecer: isso é vigilância horizontal em sua forma artesanal, sem servidor, sem notificação, mas com a mesma fome. A diferença é de escala e de véu. Antigamente a vigilância tinha rosto, cheiro, intimidade quase afetuosa; hoje ela é feita de números que sobem e descem numa tela, e por isso mesmo dói de um jeito mais frio, mais impessoal, um tipo de solidão em público que nossos avós não tinham vocabulário para descrever.
Falo isso e me lembro do Show de Truman, aquele filme que nos anos 90 parecia ficção científica e hoje passa quase por documentário. Truman vivia observado sem saber; nós vivemos observados sabendo, e ainda por cima participando da própria vigilância com entusiasmo de estagiário dedicado. Editamos, filtramos, escolhemos o ângulo, cronometramos o horário de postar para pegar o pico de atenção. Viramos, ao mesmo tempo, o prisioneiro e o carcereiro, o que é uma economia e tanto de recursos humanos, do ponto de vista de quem lucra com isso.
Alguém lucra, sempre. Isso a gente esquece com uma facilidade de dar inveja. Todo medo antigo, aquele de ficar de fora da tribo, de não ser escolhido para a caçada, de ser deixado para trás quando o grupo migra atrás de comida, foi cuidadosamente traduzido em linguagem de aplicativo. Não pertencer virou não ser marcado no story. Ser excluído da caçada virou não ser convidado pro jantar que os outros postaram. O medo é o mesmo, arcaico, fiel, ele só trocou de roupa e aprendeu a usar hashtag. E tem gente estudando isso com a mesma frieza técnica de quem projeta pontes: engenheiro de storytelling de marca sabe, melhor do que muito psicanalista, que vender pertencimento rende mais do que vender produto. Ninguém compra celular, compra tribo. Reparem como ninguém mais diz “meu celular”, diz o nome da marca, como quem declara paróquia.
Diante disso, o low profile (sujeito discreto é aquele que trocou a vaidade de aparecer pela vaidade, mais cara, de dizer que não liga) aparece quase como gesto de resistência civil, um tipo de greve silenciosa. Só que, e aqui mora a piada mais fina de tudo isso, ele também virou moda. Não seguir a tendência virou tendência, com direito a estética própria, foto conceitual, perfil fechado, aquele mistério cuidadosamente arquitetado que dá mais trabalho do que a exposição escancarada. Existe uma vaidade específica em dizer “eu não ligo pra likes“, proferida, quase sempre, em algum lugar onde alguém vai ouvir. A discrição, levada ao extremo, também pode virar personagem. O ser humano tem esse talento incômodo de transformar até a fuga em performance, e isso não é hipocrisia exatamente, é só a prova de que ninguém escapa fácil do espelho, nem quando jura que quebrou todos.
Ainda assim, distingo duas coisas que costumam se confundir na conversa de bar e nos comentários de internet: uma coisa é não postar, outra, bem diferente, é parar de olhar. Tem gente que sumiu do próprio feed mas continua rolando o feed alheio noite adentro, num tipo de anonimato covarde, espiando sem se expor, o que talvez seja pior, porque tira o corpo fora e mantém a inveja funcionando a pleno vapor, sem nenhum risco de exposição em troca. Ser espectador invisível é, convenhamos, uma covardia bem confortável.
O que me parece de fato valioso nesse movimento todo, descontada a moda e a vaidade disfarçada de humildade, é a pergunta que ele obriga a fazer, incômoda como pergunta boa costuma ser: existe alguma coisa em mim que eu goste sem precisar que ninguém confirme? Um hobby broxante aos olhos alheios, um prazer sem plateia, um domingo sem registro. Se a resposta demorar para vir, já diz bastante sobre o tamanho do estrago.
Ninguém vai resolver isso deletando o aplicativo numa quarta-feira à noite, num surto de indignação que costuma durar até sexta. A vida contemporânea não vai devolver o anonimato dos tempos analógicos, e fingir nostalgia de uma época que a maioria de nós nem viveu direito é outro tipo de vaidade, talvez o mais irritante de todos. O que dá para fazer, talvez, é o que a canção lá do começo já sabia sem precisar de teoria nenhuma: reconhecer que a vida é mal e bem, Deus e o diabo convivendo na mesma pessoa, o desejo de ser visto e o desejo de sumir brigando dentro do mesmo peito, sem que um precise vencer o outro. A gente não escolhe entre performar e desaparecer. A gente só decide, todo santo dia, qual dos dois vai falar mais alto daquela vez.

