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O paraíso fica sempre na próxima fronteira

O brasileiro tem uma relação curiosa com o estrangeiro.Basta atravessar uma fronteira para começar a desconfiar de que nasceu no país errado.

O Paraguai acaba de descobrir que até os paraísos fiscais podem ter inferno astral. Uma crise bancária provocou o bloqueio de contas, deixou clientes sem acesso ao próprio dinheiro e colocou o governo no centro de uma turbulência política, depois de uma tentativa de renúncia presidencial. O episódio tem produzido um constrangimento adicional entre brasileiros que, até ontem, apresentavam o país vizinho como a nova terra prometida da prosperidade.

De repente, o país vizinho virou uma espécie de Suíça de chinelo. Impostos baixos, energia barata, oportunidades empresariais e uma qualidade de vida que, segundo alguns entusiastas, só não é perfeita porque ainda não inventaram uma maneira de transportar o Brasil para lá.

O problema é que o paraíso também tem seus contratempos. O dinheiro desaparece, os cartões deixam de funcionar e o banco, que parecia uma instituição financeira, pode acabar funcionando como uma instituição de desaparecimento.

Mas não há motivo para desanimar. O brasileiro é perseverante. Se o Paraguai falhar, sempre haverá Miami. Se Miami decepcionar, Portugal. Se Portugal entrar em crise, algum influenciador descobrirá uma ilha onde não se paga imposto, não existe corrupção e o café custa menos de dois euros. Naturalmente, o influenciador já estará vendendo um curso sobre como chegar lá.

O curioso é que pouca gente pergunta o que vai fazer no destino. O sujeito não tem um plano de negócios, não conhece o mercado, não fala a língua e não sabe sequer quanto custa morar no lugar. Mas tem uma convicção empresarial impressionante: vai dar certo porque lá é melhor.É uma espécie de empreendedorismo geográfico. A pessoa muda de país na esperança de que os problemas não tenham passaporte.

Confunde-se, também, imposto baixo com prosperidade. Como se um país pudesse se desenvolver simplesmente deixando de cobrar. É uma ideia sedutora: o Estado arrecada menos, o cidadão paga menos e, por algum milagre da contabilidade, todo mundo fica rico. Falta apenas combinar quem constrói as estradas, mantém os hospitais, financia a educação e sustenta as instituições. Talvez o dinheiro também atravesse a fronteira por conta própria.

Não se trata de defender impostos altos, muito menos de transformar o Brasil numa maravilha que ele está longe de ser. Trata-se de perceber que uma economia não se constrói com propaganda de mudança de endereço.

Há quem abandone uma cidade porque não encontra oportunidades e descubra, depois de chegar à outra, que as oportunidades também não estavam esperando por ele. A miséria, aliás, tem uma mobilidade admirável: acompanha o sujeito sem precisar comprar passagem.

O problema nunca foi mudar de país. Mudar pode ser uma excelente decisão. O problema é acreditar que a geografia faz pelo indivíduo aquilo que ele não se dispôs a fazer por si mesmo. As pessoas querem fugir do Brasil, mas leva consigo o improviso, a desinformação, a ansiedade por enriquecimento rápido e a irresistível tendência de acreditar em quem promete dez por cento ao mês.

Daí, as conclusões mais óbvias são de que, será que o maior produto de exportação brasileiro é mesmo soja, minério ou carne? Mas sim, a ilusão de que existe algum lugar onde a vida funciona sem que ninguém precise entender como.

O paraíso existe, sim. Só não costuma aceitar mudança sem bagagem. E, infelizmente, não há alfândega capaz de reter a burrice na fronteira.

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