Zé Paulo*, 35 anos, morador de Brasília, é um sujeito que anda em círculos. Não por falta de rumo, mas porque o mundo insiste em empurrá-lo para um limbo que ele não escolheu. Zé é autista. E, no mercado de trabalho, isso significa que ele é, ao mesmo tempo, “estranho demais” para as vagas comuns e “normal demais” para as vagas destinadas a pessoas com deficiência (PCD). Ele é um homem no meio do caminho, como diria Drummond, mas sem a pedra filosófica para justificar sua existência.
O autismo, como bem sabemos (ou deveríamos saber), não vem com manual de instruções. Alguns acham que todo autista é um gênio da matemática, um Einstein em potencial. Outros pensam que são incapazes de cumprir tarefas básicas, como se fossem eternas crianças perdidas em um mundo barulhento e confuso. A verdade é que o autismo é um espectro, e cada autista é único. Zé, por exemplo, tem uma memória impressionante e uma capacidade de concentração que faria qualquer chefe babar de inveja. Mas, para que essas habilidades brilhem, ele precisa de um ambiente que não o esmague com ruídos, luzes piscantes e prazos absurdos.
Enquanto isso, as empresas, sempre ávidas por soluções fáceis, preferem contratar pessoas com deficiências visíveis. Afinal, é mais simples instalar uma rampa do que repensar a dinâmica de um escritório. O autismo, invisível e incompreendido, acaba sendo ignorado. E Zé, que poderia ser um excelente funcionário, fica à margem, olhando para o abismo do desemprego.
Bia*, outra autista, teve mais sorte. Ela conseguiu um emprego antes mesmo de descobrir que era autista. Inteligente e resiliente, ela usou suas habilidades para compensar as dificuldades que enfrentou na escola, onde foi vítima de bullying. Mas só aos 29 anos ela descobriu que era autista. Até então, suas características eram interpretadas como “excentricidade” ou “timidez”. Bia é a prova viva de que o autismo pode ser tanto uma vantagem quanto um desafio, dependendo do contexto.
E aqui está o paradoxo: se Zé e Bia conseguem trabalhar, por que 85% dos autistas no Brasil estão desempregados? Em países como Reino Unido e Austrália, esse número é bem menor. Aqui, falta informação, falta vontade, falta empatia. Existe uma lei que obriga empresas com mais de 100 funcionários a reservar vagas para pessoas com deficiência, mas isso não basta. É preciso mais do que abrir portas; é preciso ajudar a pessoa a entrar e a se sentir em casa.
Zé, por exemplo, só conseguiu um emprego porque passou em um concurso público. Ele é professor temporário, mas poderia estar em áreas como tecnologia, onde muitos autistas se destacam. Afinal, habilidades como concentração, memória visual e facilidade com números são ouro em setores como programação e análise de dados. Mas, para isso, as empresas precisam adaptar o ambiente de trabalho. Um autista com sensibilidade a barulho não vai render em um escritório caótico. Já em um espaço silencioso e organizado, ele pode brilhar.
Joseane*, outra autista, trabalha como analista de qualidade de software. Ela descobriu o autismo já empregada e hoje reconhece que suas características a ajudam no trabalho. Ela é detalhista e focada, mas também enfrenta desafios, como a dificuldade de entender piadas ou ironias. “Vestir a camisa da empresa” pode ser interpretado ao pé da letra, e ela fica esperando receber uma camisa. Por isso, a clareza na comunicação é essencial.
O problema é que muitas empresas ainda veem o autista como um problema, não como uma oportunidade. Contratar um autista não é caridade; é inclusão. É reconhecer que todos temos habilidades únicas e que a diversidade só enriquece o ambiente de trabalho. O que falta é empatia. Empatia para entender que o “normal” é uma ilusão e que todos somos, de alguma forma, estranhos. João, Bia e Joseane não precisam de pena; precisam de oportunidades. E o mercado de trabalho, que se diz tão moderno e inclusivo, precisa parar de julgar o que é “normal” ou “estranho”. Porque, no fundo, todo mundo é diferente. E é isso que nos faz humanos.
*Nomes fictícios para preservar a identidade dos personagens.

