Roberto Baggio para diante da bola. O goleiro Taffarel já está ali, naquele agachamento de quem vai adivinhar para algum lado. E o estádio, Rose Bowl que acolheu a decisão de uma Copa inteira: respira junto, coisa que estádios fazem nos momentos que valem a pena.
A bola foi alta. Alta demais. O que aconteceu depois foi silêncio, e no futebol é uma linguagem bastante precisa.
O curioso, e aqui talvez valha uma pausa, porque o curioso raramente é simples, é que Baggio não era um jogador medíocre que falhou no momento decisivo. Era o contrário. Era o melhor do mundo naquele ano, coisa que os prêmios confirmam e que os olhos de quem assistiu confirmam mais. Chegou àquela final depois de quase carregar a Itália sozinho nas costas, marcando em todas as fases eliminatórias quando a equipe parecia a ponto de ser mandada embora. Era o homem que salvou a seleção sucessivas vezes, e que, na última, não pôde salvar a si mesmo.
A psicologia tem um nome bonito para isso: ironia trágica. Mas os dramaturgos gregos já sabiam disso antes da psicologia existir como disciplina, então talvez seja apenas a vida sendo fiel a seu roteiro antigo.
O que me impressiona é como aquele momento se cristalizou numa imagem que dispensa legenda. Baggio de cabeça baixa, mão no rosto, o cabelo preso naquele rabo de cavalo budista que virou também um símbolo de algo que não sei bem nomear. Autodisciplina, talvez. Ou a tentativa de organizar o espírito quando o mundo teima em ser caótico.
Dizem que todos voltaram da Copa, mas ele ficou lá.
É poético e inexato, que é a melhor combinação possível para uma frase. Porque Baggio voltou, claro. Continuou jogando anos depois, marcou gols, encheu estádios, foi amado em Bolonha, em Brescia, nos lugares que costumam amar de verdade, em vez de apenas admirar. Mas uma parte de sua imagem pública ficou naquele segundo específico, suspensa, como a própria bola, entre a intenção e o destino. É o preço de existir em público. Você não controla o que as pessoas decidem guardar de você.
Há algo psicanaliticamente interessante aqui, a torcida que sofreu com aquele pênalti precisava guardar aquela imagem, não por crueldade, mas por necessidade. Porque a derrota coletiva precisa de um rosto, e o rosto que estava ali era o mais nobre disponível. Culpar Baggio pelo pênalti é como culpar quem se ofereceu para a tarefa mais difícil. Mas a memória coletiva não é justa. Nunca foi, e seria ingenuidade esperar que fosse.
O futebol tem esse talento específico de transformar o efêmero em permanente. Um segundo, uma bola no ar, e pronto: a história decidiu. Isso não acontece com a mesma intensidade em outros esportes, não sei bem por quê, mas suspeito que tenha a ver com a raridade do gol, com o peso específico de cada chance desperdiçada, com o fato de que no futebol, diferente da vida, você frequentemente sabe exatamente o instante em que tudo mudou.
Baggio sabia. Sabia antes de a bola pousar fora. Há uma entrevista em que ele diz que ainda sonha com aquele pênalti, que vai carregá-lo para sempre. Não disse isso com amargura, ao que parece, mas com uma espécie de resignação budista e o que faz sentido, dado o rabo de cavalo, dado o caminho espiritual que o homem trilhou depois.
Carregar um erro para sempre é uma sentença pesada. A menos que, em algum momento, você decida que não é um erro que carrega, mas uma prova de que esteve lá. De que assumiu a responsabilidade quando podia ter recuado. De que foi o décimo primeiro a caminhar até aquela marca quando todos os outros já tinham ido e voltado, e o jogo estava empatado, e a Copa do Mundo estava em jogo, e ele ainda assim foi.
Há dignidade nisso que o resultado não apaga. Ou talvez devesse haver, a memória coletiva ainda está discutindo o assunto. E a bola, naturalmente, não voltou.

