Há uma taxa que o governo não menciona no seu IR, que o banco não lista no extrato, e que nenhum consultor financeiro vai colocar na planilha de gastos essenciais. Ela não tem CNPJ, não emite recibo, não aparece no Serasa. Mas cobra. Cobra todo mês, com juros compostos sobre a solidão, correção monetária sobre a vulnerabilidade, e uma multa discreta, quase elegante, por ter ousado existir sem testemunha contratual.
“É o imposto de ser solteira”
Este foi o relato de uma das pessoas que pediu uma consulta no meio da tarde de uma terça-feira, pelo desespero.Do ponto de vista psicanalítico, isso revela uma lógica curiosa: a cultura ainda associa valor subjetivo da mulher à condição de ser escolhida por alguém. A mulher solteira passa então a ocupar um lugar ambíguo. Ao mesmo tempo em que é vista como livre, também é percebida como “disponível”. E disponibilidade, no inconsciente social, costuma ser confundida com ausência de limites.
Ou, mais precisamente: o custo estrutural de ser uma pessoa onde o sistema esperava duas. O capitalismo, e isso é algo que ele jamais vai admitir abertamente, foi desenhado para a família nuclear com a eficiência cirúrgica de quem acredita sinceramente que duas pessoas dividindo uma geladeira representam progresso civilizatório. O aluguel de um quarto custa sessenta por cento do de um apartamento de dois quartos (não cinquenta, sessenta), porque o mercado sabe que você está em posição fraca e cobra pela sua fragilidade com a delicadeza de um agiota de smoking.
A conta de luz tem taxa mínima independente de consumo. O plano de saúde família é proporcionalmente mais barato. O financiamento imobiliário sorri mais bonito para a renda combinada de um casal. A pizza inteira é sempre mais barata do que quatro fatias avulsas. Tudo no sistema presume companhia. A solidão tem tarifa própria.
Aqui é onde a coisa fica interessante e ligeiramente perversa, como costumam ser. O século XIX inventou, com uma criatividade que merecia prêmio, a ideia de que o casamento deveria ser fundado no amor. Antes disso, era uma aliança entre famílias, uma transação patrimonial com algum ritual religioso por cima para dar verniz. Ninguém esperava sentir borboletas no estômago diante do candidato escolhido pelo pai. Esperava-se, quando muito, que ele não fosse completamente insuportável.
O amor romântico como base do matrimônio foi, em sua origem, uma ideia genuinamente subversiva. Dizia que o indivíduo, e particularmente a mulher, o que era revolucionário: tinha o direito de escolher. De sentir. De desejar alguém específico por razões que escapavam ao inventário patrimonial.
A novela pegou essa ideia e fez o que o Brasil sempre faz: ampliou, exagerou, popularizou, vendeu, e no processo esvaziou completamente o núcleo subversivo que a tornava interessante.
Existe uma observação sociológica que soa cruel mas é apenas honesta: pessoas tendem a se relacionar com pessoas do mesmo extrato social. Não porque sejam mesquinhas. Não porque falte romantismo. Mas porque compartilham referências, vocabulário, ansiedades parecidas, relação semelhante com o dinheiro, que não é uma coisa pequena, o dinheiro, apesar de todo esforço cultural para fingir que é.
Isso significa que o amor, esse sentimento tão celebrado em catedral e canção, opera dentro de fronteiras muito mais rígidas do que a telenovela admite. A cara-metade existe, talvez. Mas ela mora no mesmo bairro que você, frequenta os mesmos lugares, carrega dívidas de magnitude comparável. O mercado de encontros tem uma lógica interna que a ideologia romântica trabalha ativamente para esconder. E quando a ideologia não dá conta, entram os coaches.
O co-coach de relacionamento é uma figura fascinante do ponto de vista antropológico. Ele aparece exatamente onde o sonho e a realidade brigam com mais violência, e oferece, com a confiança serena de quem nunca teve dúvida de nada, uma solução que é tecnicamente uma fraude emocional.
A mecânica é simples: pega-se o desejo legítimo de uma mulher de encontrar um parceiro com estabilidade financeira, que é absolutamente racional numa sociedade onde um salário mínimo não paga o aluguel, veste-o com linguagem de autodesenvolvimento, e vende-o de volta como sabedoria ancestral sobre “mulheres de valor”.
“Homem de valor”, no dicionário das redes sociais, significa homem rico. A tradução é direta. O eufemismo só existe para que a transação não pareça, de fato, uma transação.
O problema, além do óbvio de estar vendendo ilusão com prazo de validade, é que homens “ricos”(aqui,pela lógica do capitalismo, onde dinheiro = riqueza) muito provavelmente vão se casar com mulheres que cresceram na mesma classe. Não por preconceito consciente, necessariamente. Mas porque classe social não é só renda: é postura, é referência, é o jeito de entrar numa sala, é saber quando rir e quando não rir, é uma gramática corporal que se aprende na infância e que a tentativa de emulação adulta torna visível, como costura mal-feita num terno caro. Simular pertencer a uma classe que não é a sua é um projeto exaustivo que raramente engana quem pertence a ela.
E no entanto a mulher que paga aluguel sozinha, que divide o mês entre a conta de luz e a ansiedade, que faz a planilha no domingo e percebe que não fecha, que fecha apenas porque cortou alguma coisa que não deveria ter cortado, essa mulher não está errada em querer dividir o peso. Ela está apenas sendo lúcida sobre a aritmética da sobrevivência.
O problema não é o desejo. O problema é o diagnóstico que os co-coaches oferecem para um problema que é estrutural: como se a solução para o custo de viver sozinha numa cidade grande fosse aprender a se sentar de outro jeito, falar mais baixo, cozinhar melhor, ser mais misteriosa: como se a questão fosse comportamental e não política.
Tem algo de profundamente honesto, e ao mesmo tempo triste, em reconhecer que muito do que chamamos de amor é também logística. Que dividir a vida é, entre outras coisas, dividir as contas. Que a companhia tem valor econômico mensurável, além do valor afetivo que a gente prefere celebrar nas músicas. Isso não mata o amor. Não torna o afeto mentiroso.
Só torna mais evidente que construímos uma mitologia do encontro como se ele acontecesse fora da história, fora da classe, fora do preço do metro quadrado. E que enquanto mantemos essa mitologia intacta, o sistema pode continuar cobrando a taxa de existir sozinha sem ter que aparecer no extrato.
“Ser solteira no capitalismo é caro” disse ela ao final da consulta. Isso não é um problema pessoal a ser resolvido com autoconhecimento. É uma conta que o sistema envia e que ninguém assinou.

