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Tem Certeza?

Entender é mais difícil do que opinar

Há pessoas que não entendem. Há outras que entendem perfeitamente, desde que ninguém explique. A diferença parece pequena, mas sustenta boa parte da civilização. Tente explicar alguma coisa complicada para alguém. Comece devagar.

— É mais ou menos assim…

— Ah, eu sei.

Não sabe. Mas isso nunca impediu ninguém.

As pessoas não entendem o que você disse, mas entendeu que discorda. É uma espécie de talento. Antes mesmo de conhecer o assunto, já possui uma opinião formada sobre ele, duas certezas e, se a conversa se prolongar, uma história que aconteceu com o primo de um amigo em 1998. Você insiste. Explica de outro jeito. Usa um exemplo. Simplifica. A pessoa olha com a expressão de quem acabou de descobrir uma fraude.

— Mas não é bem assim.

— Como é?

— Não sei explicar.

É aí que mora o conhecimento contemporâneo: a pessoa não sabe explicar, mas sabe que você está errado. Também existe o especialista. Esse é mais perigoso. O especialista sabe. Sabe tanto que não consegue explicar. Pergunte alguma coisa simples e ele responde com uma palavra que você nunca ouviu. Você pergunta o que significa. Ele explica usando outras três palavras que você também nunca ouviu.

Você pede um exemplo. Ele dá uma definição. Você pede uma definição. Ele cita um artigo. Você lê o artigo. Descobre que o artigo cita outro artigo. Quando percebe, já está fazendo doutorado para descobrir o que queria saber às 9h17 da manhã. Há especialistas que parecem guardar o conhecimento como certas famílias guardam receita de bolo: não porque seja segredo, mas porque ninguém quer admitir que é fácil.

O jornalista também tem sua parcela de culpa. Recebe uma informação que deveria explicar para milhões de pessoas e escreve: “Especialistas apontam uma mudança paradigmática no contexto macroestrutural do fenômeno.”

Pronto. Agora ninguém sabe. Nem o especialista. Nem o jornalista. Nem o leitor. Mas todos concordam que parece importante. Explicar uma coisa exige uma pequena humilhação. Quem explica precisa admitir que, em algum momento, também não sabia. E isso é difícil.

É muito mais elegante dizer “trata-se de uma questão multifatorial” do que dizer: — Tem um monte de coisa acontecendo ao mesmo tempo e ninguém sabe direito como separar uma da outra.

A segunda frase informa. A primeira veste terno. O senso comum, por sua vez, tem uma característica admirável: ele não precisa de evidência para funcionar. Precisa apenas de familiaridade. Se uma coisa parece óbvia, está resolvida. Se alguém ouviu muitas vezes, virou verdade. Se apareceu num vídeo com uma música dramática ao fundo, ganhou credibilidade.

Se o cunhado falou com convicção, melhor ainda. O senso comum não pergunta “como sabemos disso?”. Pergunta:

— Mas não é lógico?

E geralmente é. Esse é o problema. Quase qualquer bobagem consegue parecer lógica quando chega sozinha, bem penteada e sem testemunhas. A realidade, entretanto, é uma senhora complicada. Tem contradições,exceções, detalhes, contexto. Às vezes uma coisa é verdadeira e, mesmo assim, não significa aquilo que parece significar. Às vezes duas pessoas podem apresentar números corretos e chegar a conclusões diferentes.

Às vezes a resposta correta é “depende”. Poucas palavras são tão odiadas pelo senso comum quanto esta. O senso comum quer “sim” ou “não”. Quer mocinho, bandido, causa, efeito ou frase que caiba numa imagem quadrada. A realidade costuma preferir um parágrafo. E é um dos motivos que explicar seja tão difícil: não é despejar informação sobre alguém. É acompanhar o outro até o ponto em que ele consegue enxergar sozinho.

E isso demora. Exige paciência, admitir dúvida, voltar e dizer:

— Não, espera. Eu expliquei mal. Essa talvez seja a frase que mais falta no mundo. Porque quase todo mundo quer parecer que entendeu. Pouquíssima gente quer parar para entender. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas. Quem entendeu pode explicar. Quem não entendeu pode repetir. O problema é que repetir dá menos trabalho. E, em matéria de convicção, dá quase o mesmo resultado. O maior desafio de explicar qualquer assunto não seja encontrar uma linguagem simples.

Seja encontrar alguém disposto a ouvir uma explicação simples sem achar que, por ser simples, ela não pode ser verdadeira. Porque entender alguma coisa é, antes de tudo, aceitar por alguns minutos a possibilidade de que aquilo que se pensava saber talvez fosse apenas uma opinião usando roupa de conhecimento. E ninguém gosta de descobrir que estava nu.

Principalmente no grupo da família.

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