A Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica do Brasil enfrenta um cenário de vulnerabilidade diante do agravamento da crise climática. Um mapeamento inédito, publicado na revista Geografia, revela que 91,5% dos municípios que abrigam unidades de ensino da rede registraram desastres naturais como chuvas intensas, alagamentos e inundações entre 2013 e 2022, somando mais de 5 mil ocorrências no período.
O artigo revela que pelo menos 11 campi estão localizados diretamente em áreas de risco geológico ou hidrológico. Além disso, apenas 53% das instalações estão situadas em cidades monitoradas pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
O estudo é fruto da pesquisa de doutorado de Janaina de Alencar Mota e Silva, professora do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), desenvolvida no Cemaden sob a orientação de Victor Marchezini e coorientação de Viviana Aguilar-Muñoz, ambos pesquisadores da instituição.“A minha ideia, com essa pesquisa, era ver se existia uma demanda na Rede Federal para trabalhar redução de riscos de desastres. Porque uma das diretrizes dos Institutos Federais é que ele precisa atender as demandas locais. Então, ele chega nos lugares onde muitas universidades não chegam, para atender essa população”, explica Janaína.
Uma vez mapeada a demanda, ela então se debruçou sobre uma análise técnica que partiu da localização georreferenciada dos campi da Rede Federal – formada por 38 Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), dois Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets), 22 escolas técnicas vinculadas às Universidades Federais, a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e o Colégio Pedro II. Essas informações foram cruzadas com dados quantitativos em órgãos oficiais, mas também qualitativos, como buscas por notícias e registros em redes sociais para identificar danos reais.
Isso revelou, inclusive, que unidades fora das áreas de risco mapeadas também sofrem com inundações e deslizamentos, como ocorreu em unidades do Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, trazendo danos desde à infraestrutura das universidades até a suspensão de aulas, o que permitiu visualizar vulnerabilidades que muitas vezes não constam em mapeamentos de risco desatualizados.
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Com base nesse diagnóstico, o trabalho busca lançar bases para transformar iniciativas voluntárias em política institucional permanente dividida nos eixos de ensino, pesquisa, extensão e gestão. A formulação tem como base a mobilização e cooperação entre as instituições da Rede Federal de Educação para atuar em ações de resposta e auxílio a comunidades atingidas por desastres.
A iniciativa ganhou grande escala após as inundações no Rio Grande do Sul, quando os institutos federais da região (IFRS, IFFar e IFSul) se uniram para coordenar a ajuda à população. No Rio Grande do Sul, por exemplo, estudantes e professores de cursos técnicos realizaram a manutenção e conserto de eletrodomésticos (como geladeiras) das pessoas atingidas e auxiliaram na reconstrução de moradias.
Porém, a pesquisadora aponta a importância de ir além das respostas emergenciais de acolhimento. “O objetivo futuro é transformar esse tipo de mobilização em uma política institucional permanente, para que a rede atue não apenas no pós-desastre, mas também na prevenção e adaptação climática”, pontua Janaina. Para ela, é possível transformar o potencial técnico da rede e sua capilaridade territorial em uma estratégia nacional permanente de gestão de riscos. “A meta é articular uma rede interinstitucional de pesquisadores e levar a temática dos desastres para os currículos e para a gestão escolar, posicionando os Institutos Federais como peças-chave na construção de cidades mais resilientes e preparadas para enfrentar eventos extremos antes mesmo que eles aconteçam”, conclui a pesquisadora.
Fonte: Agência Bori

