Trinta e nove anos após o maior acidente radioativo do mundo ocorrido fora de uma usina nuclear, o Estado de Goiás passa a contar com uma data oficial em homenagem aos afetados pelo desastre. A Lei nº 24.366, sancionada em 22 de junho de 2026, institui o dia 13 de setembro como o Dia Estadual em Homenagem às Vítimas do Acidente Radiológico com Césio-137.
De autoria do deputado Karlos Cabral (PSB), a nova legislação inclui a data no Calendário Cívico, Cultural e Turístico de Goiás. O objetivo principal é combater o esquecimento geracional do episódio, garantir a avaliação médica contínua dos sobreviventes e impulsionar a criação de novas políticas públicas de amparo.
O marco temporal escolhido faz referência direta ao dia 13 de setembro de 1987, quando dois catadores de material reciclável recolheram uma cápsula de uma máquina de radioterapia desativada e abandonada nos escombros do antigo Instituto Goiano de Radioterapia, no Centro de Goiânia. A peça foi vendida a um ferro-velho local, onde foi desmanchada, expondo o cloreto de césio-137, um pó que emitia uma intensa luminosidade azul no escuro. Encantado com o efeito visual, o proprietário do estabelecimento distribuiu o material altamente radioativo a familiares e amigos, espalhando a contaminação pela capital.
Rastro de destruição e o desafio do isolamento
As estimativas da Associação das Vítimas com Césio-137 apontam que mais de 6 mil pessoas foram contaminadas na época. A gravidade da crise exigiu uma operação de contenção inédita: dezenas de residências foram demolidas, lotes inteiros acabaram aterrados com concreto e as primeiras vítimas fatais precisaram ser sepultadas em caixões de chumbo revestidos por toneladas de concreto para conter o vazamento de radiação.
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Na justificativa do projeto aprovado pela Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), o deputado Karlos Cabral lembrou que o trágico episódio trouxe prejuízos de vidas, sociais e econômicos irreparáveis ao estado. De acordo com o parlamentar, as toneladas de lixo radioativo depositadas em Abadia de Goiás exigem um monitoramento que deve durar entre 300 e 600 anos para garantir a total dispersão da radioatividade.
Cabral ressaltou que, apesar da magnitude do desastre, o tema sofreu com um processo de esquecimento coletivo devido à ausência de monumentos ou marcos oficiais, o que resultou em uma escassez de estudos científicos contínuos para diagnosticar e tratar as sequelas crônicas da radiação nos sobreviventes.
Retorno à pauta nacional e ações legislativas
O interesse público sobre o caso foi reaquecido em março de 2026, após a estreia da minissérie “Emergência Radioativa”, produção audiovisual inspirada nos eventos reais que recolocou o drama goiano nos principais veículos de imprensa do país.
O suporte institucional aos afetados tem sido uma demanda recorrente dentro da Alego por meio de audiências públicas, projetos e exposições. Recentemente, o Parlamento goiano aprovou o reajuste nos valores de pensões especiais destinadas aos sobreviventes e estabeleceu novos mecanismos administrativos para dar celeridade à análise de pedidos de novos benefícios. Com a criação do Dia Estadual, a expectativa é que o debate sobre a assistência médica e a memória das vítimas ganhe um fluxo permanente e obrigatório no calendário de gestão do estado.

