Não por dívida, não por traição, não por doença. Mas por aquela coisa vaga e insistente que a letra chama de overkill e que a gente, em português, traduziria mal como “excesso”. Mal, porque excesso sugere quantidade. E o problema aqui não é quantidade. É qualidade do tormento: aquela ruminação que escolhe exatamente o momento em que o corpo pede silêncio para montar seu pequeno tribunal particular.
Colin Hay escreveu isso em 1983. Quarenta e poucos anos depois, a canção soa como diagnóstico clínico de uma civilização inteira, não era exatamente o que ele pretendia ao acordar naquela manhã.
A insônia tem uma história pouco contada. Durante séculos, o sono era interrompido naturalmente: acordava-se no meio da noite, conversava-se, pensava-se, voltava-se a dormir. Havia dois blocos de sono, e o intervalo entre eles era considerado normal. Às vezes, sagrado. Foi a Revolução Industrial que inventou a noite contínua: o trabalhador precisava dormir de uma vez, eficientemente, como uma máquina que recarrega bateria. O capitalismo não apenas comprou o dia do homem. Também reorganizou sua noite.
E então veio o século XX, que acrescentou à equação o ingrediente mais perverso de todos: a consciência de que você deveria estar dormindo. A culpa pela vigília. O homem medieval acordado às três da manhã rezava ou conversava com a esposa. O homem contemporâneo acorda às três da manhã e fica pensando que não vai render no dia seguinte. A ansiedade sobre a ansiedade. O excesso sobre o excesso.
Overkill.
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O que a canção descreve com aquela simplicidade aparentemente ingênua: “eu sei que vai ficar tudo bem, mas mesmo assim não consigo parar de me preocupar” é, se você parar para pensar, uma das descobertas mais perturbadoras da psicanálise: a razão não governa nada. Ela assessora. Emite pareceres que o inconsciente arquiva sem ler.
Freud gastou uma vida inteira tentando explicar isso com apparatus psíquicos, pulsões e o vocabulário um tanto vitoriano que ele herdou da neurologia do século XIX. Mas Colin Hay resolveu a questão em três versos: sei que vai ficar tudo bem / talvez seja só imaginação, e mesmo assim os fantasmas aparecem. E somem. E voltam.
Essa é a estrutura precisa do tormento moderno. Não é o medo do lobo. É o medo do medo do lobo, num mundo onde os lobos foram extintos há gerações.
E aí ele olha as luzes da cidade “ao menos há luzes bonitas”, e essa pequena concessão me parece uma das observações mais honestas sobre saúde mental que já ouvi numa canção pop. Não há resolução. Não há terapia, não há virada, não há refrão edificante. Há luzes. E elas, por algum motivo fisiológico ou poético, ajudam um pouco. A mesmice da cidade como anestesia leve. O mundo funcionando enquanto você não funciona, e isso, paradoxalmente, acalma.
Toda grande literatura sobre angústia chega nesse ponto em algum momento. Pessoa chegou. Kafka chegou. Clarice chegou. A cidade indiferente como espelho invertido da agitação interna. Você sofre, o bonde passa. E o bonde passando é, estranhamente, um consolo.
O refrão é assombrosamente simples: dia após dia, volta tudo. Noite após noite, meu coração denuncia o medo. Fantasmas aparecem e somem.
Repete quatro vezes ao longo da canção. Com pequenas variações que, na letra escrita, parecem redundância e na música funcionam como aquilo que são: o próprio mecanismo da ruminação. Você pensa o mesmo pensamento. Resolve. Pensa de novo. Sabe que já resolveu. Pensa de novo assim mesmo.
Não é falta de inteligência. É a estrutura do problema. A inteligência, inclusive, piora tudo porque ela é rápida o suficiente para perceber o absurdo do loop, mas não tem autoridade para encerrá-lo. Fica ali, observando a si mesma girar, com aquela expressão de quem perdeu o controle do próprio carro num trecho reto, sem obstáculo nenhum à vista.
Quarenta anos é tempo suficiente para uma canção virar documento. Overkill não é sobre insônia. É sobre o preço cognitivo de viver num tempo que exige atenção constante e simultaneamente oferece estímulos em quantidade incompatível com a capacidade humana de processar. A mente que não desliga não é fraca. É uma mente funcionando exatamente como foi condicionada a funcionar e sofrendo exatamente por isso.
Os fantasmas da canção não são sobrenaturais. São pensamentos que voltam porque nunca foram realmente pensados até o fim. Só iniciados, interrompidos, engavetados e reabertos. A gestão moderna da vida interior: tudo em aberto, nada concluído, caixa de entrada sempre cheia.
O que Colin Hay fez, provavelmente sem pretender, foi escrever o hino de uma geração que ainda estava por vir. Aquela que ia crescer com notificações. Que ia aprender a chamar de ansiedade o que antes era só nervosismo. Que ia descobrir que ter nome para a coisa não significa ter cura para ela. Os fantasmas aparecem. Somem. Voltam.
E você, inteligente que é, já sabe disso e fica acordado assim mesmo.

